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Recentemente vi o amigo Makuédia. Uma alegria infantil invadiu o meu coração. Falava calmamente e com o seu português ainda bem brasileiro procurava entender a nova realidade que o país vive. Estava cercado de curiosidade e alegria de muitos, pelo reencontro, e do frio de alguns, pela ausência prolongada em além-mar, quando por cá se batia no ferro quente.
Tinha pregado na camisa o cartão de "Visitante".
- Você visitante?
- Epá, agora já sou desconhecido! - Respondeu sorridente, enquanto estendia cordial os braços para o amplexo abraço.
- Já ninguém se lembra do trovador que representou a Marinha em vários festivais como o do Lubango! Ainda tocas violão?
-… Agora tocam para mim!...
Os cabelos brancos começam a colorir a tela. Treze anos depois de ter partido, Makuédia voltava Doutor e isso não é coisa para todos. Lembrando os velhos tempos do marxismo-leninismo: " Não é para quem quer, mas para quem merece". E nisto de merecer, cada um sabe a dimensão da sua alegria e da sua dor.
Mákuédia, Sangueve e outros partiram em Março de 1994 para vários estados brasileiros. Foram colocados no avião e cada um, por sua própria conta e risco, procurou chegar ao destino até aí desconhecido. MG para uns era Mato Grosso, mas na verdade, eram as iniciais do Estado de Minas Gerais. Minas do pão de queijo e de presidentes como Juscelino Kubischeck e Itamar e de poetas como o autor da "Idade do Serrote", Murilo Mendes e do cantor dos tambores mineiros como Milton de Nascimento.
A ignorância é mãe da insegurança. Nesse à parte, ser bolseiro era uma verdadeira aventura. Há quem não resistiu mais de 15 dias e atordoado regressou apressado ao ponto de partida. A condescendência acabou por acarinhá-lo. Cada um é perseguido por sua sina.
Apesar das alarmantes informações que trazia em relação à vida de estudante no Brasil, o segundo grupo de bolseiros, partiu no dia 28 Junho de 1994. Nesse mesmo dia assinalava-se em todo mundo 80º aniversário do início da 1ª Guerra Mundial, quando o assassinato do Arqueduque Francisco Ferdinand, serviu de pretexto para o deflagrar da hecatombe.
Passaram-se oitenta anos. Com certeza para aqueles que viajavam para o Brasil essa data passou despercebida. Aliás tamanhas eram as preocupações levantadas pela voo para o desconhecido. O mundo da novela é muito bem mais tranquilo, pois basta assentar-se diante da TV e deliciar-se com o enredo e os personagens.
Desembarcaram no Rio de Janeiro, quando eram cerca das 18 horas. Alguns, na busca de apoio para encontrar um hotel para recobrar as forças e os ânimos, gente possuída pelo espírito de aves rapinas caíra-lhes em cima. E de táxi encaminharam-se para a cidade. - Estamos na linha vermelha, - disse o taxista, quando foram surpeendido por várias explosões. As bombas vinham de todos os lados. Os projécteis riscavam o céu com a violência que lhes é peculiar. Blum, Blum, Blum.
Os bolseiros recém-chegados viram-se emboscados. Rezaram e desejaram ganhar asas e voar de regresso a Luanda. Preferiam regressar mesmo sabendo que haviam saído do país num momento em que se travavam renhidos combates em todo território nacional depois de frustrados os Acordos de paz rubricado aos 31 de Maio de 1992, em Bicesse, Portugal. Desarmados sem metralhadoras AKM e pistolas Makarav, esperaram pelo momento em que o carro seria atingido pelo obus. O automóvel desgovernado iria embater violentamente numa das bermas de betão e os seus corpos despedaçados pelo impacto seriam devorados pelo incêndio. Aliás, ainda eram perenes as imagens do acidente fatal de Ayrton Senna, ocorrido dia 1º de Maio de 1994.
O taxista olhou para o lado direito e fez o Sinal da Cruz. Os bolseiros agitaram-se. Chegaram ao Hotel Copacabana em silêncio. Só na recepção souberam do tamanho disparate. As explosões eram de foquetes lançados para festejar o golo de empate do Brasil contra a Suécia. Riram-se tranquilos e consolados pelo conteúdo fermentado contido no frigo-bar. Nessa noite, muitos ainda sonharam com as esposas e filhos deixados em Luanda. A saudade prometia estragos incalculáveis.
Mal recompostos das 7 horas de viagem e do susto, acabariam por enfrentar outra dificuldade. O Governo do Presidente Itamar Franco decidiu trocar a moeda como uma das medidas para combater a inflação galopante. O Real substituiu o Cruzado. Um dólar valia 1 real. No mercado negro, dominado por gente árabe, 100 dólar valiam 73 reais. Os 2 mil dólares em travell-cheque foram trocados por 1460 reais. O valor do hotel veio aterrolizar-lhes ainda mais. Só depois perceberam o erro. Ao invés de serem hospedados em hotel barato, os guias, também angolanos residentes no Rio de Janeiro, preferiram um hotel de cinco estrelas. Depois de liquidarem as contas inflaccionadas pela cumplicidade de recepcionistas e guias, pouco sobrou. Quem, como eu, deixou ficar algum dinheiro em Luanda para manter a família e comprar chapas, que o amigo Carlos Epumumo ajudou a colocar numa parte da casa, amealhou lágrimas. Mas não podia deixar a família em casa de aluguer. Ademais com o típico sinhorio angolano, cuja decisão do aumento da renda pode advir do facto do inquilino estar a comer frango grelhado, quando ele abatia um prato de arroz com peixe frito.
Mas o tempo passou e com ele a dor converteu-se em experiência vivida. Makuédia, Amado, Bito, Sangueve, Galiano, Victor,, Cruz, Miranda... andam por aí… refizeram o caminho do regresso. Outros ficaram por lá, saberá Deus por quanto tempo, talvez até o fel se transformar em mel. Talvez, quem sabe!
CFR. Augusto Lourenço
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