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Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
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Presidente da República nomeia novo Chefe do Estado-Maior da Marinha
SUMÁRIO
EDITORIAL
DESTAQUES
ENTREVISTA
DOSSIER
FLASH
ÁLBUM
CIÊNCIA E TÉCNICA
REFLEXÃO
CRÓNICA
ANCORANDO
CRÓNICA
         
 
Furo no cinto das boas maneiras
CMG João da Cruz Sangueve

Uma das heranças deixadas pelo nosso patrocinador da "civilização", como se diz na gíria, foi indiscutivelmente a língua portuguesa. Através desta ferramenta comunicamo-nos com os outros povos da Comunidade dos Países de língua Portuguesa ( CPLP) e outros de forma individual ou colectiva que se interessaram em aprendê-la.
O mestre de Genebra "Saussure" ao discorrer sobre o fenómeno língua e fala dizia o seguinte:
A língua é o conjunto de signos que serve de meio de compreensão entre os membros de uma mesma comunidade linguística. A fala é o uso que cada membro dessa comunidade linguística faz da língua para se fazer compreender.
É no momento da utilização da língua que o sujeito falante é levado a modificar ou a introduzir novos meios de expressão. Aqui, tiro chapéu ao meu Kota "DICK". Numa escala de valores de 1 a 5, o Kota leva 5 (atlichina).
No processo da nossa educação, nos lares e no sistema de ensino dos tempos idos, ao se dirigir a um indivíduo desconhecido, tratávamo-lo, em sinal de respeito e de boas maneiras, sobretudo em relação aos comerciantes portugueses, lá nas nossas bualas, por Senhor Agostinho, Senhora, a esposa dele. Mas como sujeitos falantes e também porque muitos de nós não passou pelas instituições de Ensino Público e Privado, introduzimos outros termos como, Shô Agostinho, Sinhola, a esposa.
Com a saga da revolução como disse o cantor Virgílio Fair - estamos sempre a subir, estamos sempre a subir…. Então encontramos outro tratamento. Camarada, Irmão e Mano, transformaram-se em moda.
Houve um tempo em que todos eram tratados por primo. OYE PRIMO.
Esta ferramenta de língua portuguesa várias vezes complicou a nossa compreensão. Nós angolanos somos muito respeitosos e hospitaleiros. Para vincar o nosso respeito, adquirimos novo tratamento e o tal respeito é exercido nos espaços bem definidos e sagrados. O background deste respeito é directamente proporcional ao negócio. Os espaços são os mercados informais, zungas, táxis (Hiaces), convívios e óbitos.
Tal como o paludismo, vem acompanhado de febre tifóide, (aqui peço desculpas aos profissionais da saúde pelo desvio (não paludismo mas malária-termo correcto). Pois, como dizia, esse respeito é exercido em espaços sagrados, preferencialmente os mercados, táxis, convívios e óbitos.
Nos mercados, basta um indivíduo aproximar-se à bancada! Ouve logo, Papá pergunta, pai pergunta isso aqui é original e de bom preço. Até os chineses que trabalham no nosso país recebem o mesmo tratamento. Basta aparecer um chinês na praça é recebido assim, pai pergunta. Amigo fala.
Nos táxis, pai sobe! Restinga Pai, Bela Vista-Pai. Um garoto daqueles a puxar o pai! Pai sobe já; Rocha Pinto. O respeito de pai foi adulterado. No fundo, é para condimentar os 100 Kz da puxada.
Mas se é respeito! Como é que o filho vai cobrar 100 kz ao pai. E mais ainda, expressão tipo Pai emagrece. Atrás leva quatro.
Nos convívios, quando as senhoras de lenço e avental amarelos (da BGI) estão sobre a mesa, há sempre um líder de opinião a comandar as rodadas. Às vezes é o pagante outras vezes é líder pato.
Na 1ª rodada, há troca de impressões (reconhecimento).
Na 2ª rodada, já o tom da voz sobe.
Na 3ª rodada, começa-se a discutir os termos propostos.
Na 4ª rodada, o líder torna-se mesmo líder. Pai, não se esqueça do que vinha dizendo. Aí entra já, com a sua lata. Respeito do copo.
Talvez o único desvio que ainda assim, se mantém de pé, não se sabe, se é desvio ou cultura mesmo. Pai grande, mãe grande.
Essas coisas de sobrinho, cunhado, sogra, tio, genro, prima, seu sentido puro já desapareceu.
A gente serve-se desses termos só quando há vantagens para o nosso lado ou estamos aflitos. Quando alguém está preso, nas incorporações, nos passaportes, nas matrículas, aí sim, o grau parentesco é rebuscado. Olha o chefe daquele Departamento é meu tio, é meu sobrinho, é minha cunhada. Ponto final.

 

 
 
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