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Uma das heranças deixadas pelo nosso patrocinador da "civilização", como se diz na gíria, foi indiscutivelmente a língua portuguesa. Através desta ferramenta comunicamo-nos com os outros povos da Comunidade dos Países de língua Portuguesa ( CPLP) e outros de forma individual ou colectiva que se interessaram em aprendê-la.
O mestre de Genebra "Saussure" ao discorrer sobre o fenómeno língua e fala dizia o seguinte:
A língua é o conjunto de signos que serve de meio de compreensão entre os membros de uma mesma comunidade linguística. A fala é o uso que cada membro dessa comunidade linguística faz da língua para se fazer compreender.
É no momento da utilização da língua que o sujeito falante é levado a modificar ou a introduzir novos meios de expressão. Aqui, tiro chapéu ao meu Kota "DICK". Numa escala de valores de 1 a 5, o Kota leva 5 (atlichina).
No processo da nossa educação, nos lares e no sistema de ensino dos tempos idos, ao se dirigir a um indivíduo desconhecido, tratávamo-lo, em sinal de respeito e de boas maneiras, sobretudo em relação aos comerciantes portugueses, lá nas nossas bualas, por Senhor Agostinho, Senhora, a esposa dele. Mas como sujeitos falantes e também porque muitos de nós não passou pelas instituições de Ensino Público e Privado, introduzimos outros termos como, Shô Agostinho, Sinhola, a esposa.
Com a saga da revolução como disse o cantor Virgílio Fair - estamos sempre a subir, estamos sempre a subir…. Então encontramos outro tratamento. Camarada, Irmão e Mano, transformaram-se em moda.
Houve um tempo em que todos eram tratados por primo. OYE PRIMO.
Esta ferramenta de língua portuguesa várias vezes complicou a nossa compreensão. Nós angolanos somos muito respeitosos e hospitaleiros. Para vincar o nosso respeito, adquirimos novo tratamento e o tal respeito é exercido nos espaços bem definidos e sagrados. O background deste respeito é directamente proporcional ao negócio. Os espaços são os mercados informais, zungas, táxis (Hiaces), convívios e óbitos.
Tal como o paludismo, vem acompanhado de febre tifóide, (aqui peço desculpas aos profissionais da saúde pelo desvio (não paludismo mas malária-termo correcto). Pois, como dizia, esse respeito é exercido em espaços sagrados, preferencialmente os mercados, táxis, convívios e óbitos.
Nos mercados, basta um indivíduo aproximar-se à bancada! Ouve logo, Papá pergunta, pai pergunta isso aqui é original e de bom preço. Até os chineses que trabalham no nosso país recebem o mesmo tratamento. Basta aparecer um chinês na praça é recebido assim, pai pergunta. Amigo fala.
Nos táxis, pai sobe! Restinga Pai, Bela Vista-Pai. Um garoto daqueles a puxar o pai! Pai sobe já; Rocha Pinto. O respeito de pai foi adulterado. No fundo, é para condimentar os 100 Kz da puxada.
Mas se é respeito! Como é que o filho vai cobrar 100 kz ao pai. E mais ainda, expressão tipo Pai emagrece. Atrás leva quatro.
Nos convívios, quando as senhoras de lenço e avental amarelos (da BGI) estão sobre a mesa, há sempre um líder de opinião a comandar as rodadas. Às vezes é o pagante outras vezes é líder pato.
Na 1ª rodada, há troca de impressões (reconhecimento).
Na 2ª rodada, já o tom da voz sobe.
Na 3ª rodada, começa-se a discutir os termos propostos.
Na 4ª rodada, o líder torna-se mesmo líder. Pai, não se esqueça do que vinha dizendo. Aí entra já, com a sua lata. Respeito do copo.
Talvez o único desvio que ainda assim, se mantém de pé, não se sabe, se é desvio ou cultura mesmo. Pai grande, mãe grande.
Essas coisas de sobrinho, cunhado, sogra, tio, genro, prima, seu sentido puro já desapareceu.
A gente serve-se desses termos só quando há vantagens para o nosso lado ou estamos aflitos. Quando alguém está preso, nas incorporações, nos passaportes, nas matrículas, aí sim, o grau parentesco é rebuscado. Olha o chefe daquele Departamento é meu tio, é meu sobrinho, é minha cunhada. Ponto final.
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