revistamarinha@yahoo.com.br
 
 
Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
Clique para aumentar Manchete
Presidente da República nomeia novo Chefe do Estado-Maior da Marinha
SUMÁRIO
EDITORIAL
DESTAQUES
ENTREVISTA
DOSSIER
FLASH
ÁLBUM
CIÊNCIA E TÉCNICA
REFLEXÃO
CRÓNICA
ANCORANDO
DOSSIER
         
 
Longe da cidade perto do paraíso
CFR Augusto Lourenço

Um grupo de bandidos assaltou um barco estrangeiro no Porto de Luanda fazendo dois reféns entre a tripulação. Perseguidos na calada da noite, roubaram uma lancha rápida e buscaram esconderijo em embarcações depositadas perto da costa a norte de Cacuaco. Denunciados por pescadores artesanais, os Fuzileiros Navais da Marinha de Guerra Angolana desencadeiam um ataque em três direcções: um grupo de combate desembarca a alguns quilómetros do local, para impedir a fuga do inimigo em terra. Um outro com três lanchas monta o cerco na direcção marítima. O terceiro grupo realizaria o assalto.
O ataque iniciou com fogo cerrado de metralhadoras. O inimigo numa composição de dez homens, respondeu com metralhadoras do tipo AKM. Cinco homens procuram embarcar com o casal de reféns na lancha rápida. A partir de um dos navios, outros fazem a cobertura. O fogo de franco -atiradores frustra seus intentos. Os fuzileiros, em várias lanchas, fazem o ataque na direcção marítima aproximando-se do local.
O grupo aerotransportado entra em cena e realiza o assalto final. A intensidade do tiroteio faz recuar as lanchas. Mudam a direcção do ataque. As embarcações balançam. Os meliantes são cercados e neutralizados. O casal de reféns é liberto e levado em segurança para Luanda.
Esta cena podia fazer parte de qualquer filme policial ou mesmo de um ataque sobre uma cidade flutuante assaltada por piratas no séc. XV. Mas não! O cenário é real, mas o enredo é nascido da imaginação do autor.

A IDEIA

No regresso de uma viagem feita ao Sector Naval de Cabinda, na véspera do 10 de Julho do ano passado, perto de Luanda, a partir do helicóptero avistou-se uma quantidade de navios encalhados. Segundo informações colhidas entre os passageiros, aquele lugar foi transformado em cemitério náutico.
- Não há perigo para a navegação ou para banhistas em depositar embarcações velhas perto da costa?
Estas e outras perguntas fizeram nascer a ideia de realizar uma viagem até ao local para de perto ver o cemitério.

A VIAGEM

"Quem viaja para o mar deve aviar-se em terra" Sob esse lema preparou-se o essencial para uma viagem de cerca de 6 horas. Era sábado, na Base Naval de Luanda tudo estava calmo. No largo as lanchas da classe Mandume aguardavam pela conclusão da obra de remotorização para voltarem a patrulhar o mar. A previsão aponta para o primeiro semestre deste ano.
Embarcados na lancha semi-rígida, partimos. O sol tardava a vencer a neblina matinal. Inúmeros barcos aguardavam a sua vez na entrada do Porto de Luanda. Depois do Farol-Velho, encaminhamo-nos para o sentido norte. O destino era chegar até ao local onde estão encalhadas várias embarcações inoperantes. Uma espécie de cemitério náutico.
Um grupo de pescadores pesca alegremente e acena ao verem-nos passar em grande velocidade. A costa é alta e bastante recortada. Avistamos o Farol das Lagostas, a fábrica de cimento Cimangola e a quantidade de casas construídas. Estas acabaram por privar a cimenteira de importantes reservas de matéria-prima.
Ao longe avistámos várias embarcações. Mais de 30. Um verdadeiro cemitério. Três gaivotas escolheram o poleiro sobre o navio Ngola, da antiga Angonav. Seu símbolo remete para os tempos áureos em que a empresa garantiu a importação de milhões de toneladas de mercadorias e outros milhares de produtos agrícolas, como café, para o mercado internacional.
A ferrugem com a cumplicidade das ondas do mar lentamente devora o casco. Quer riscar da memória a existência do navio. Mas ele recusa-se, resiste, debate-se e refugia-se num escaninho do arquivo. Quanto tempo irá aguentar a investida? "Quem sabe amanhã, talvez/Quem sabe/O Tempo coloca tudo no seu lugar/ ... Aquilo que tem que ser será"/... - no outro lado do Atlântico, assim canta o Grupo Raça Negra.
O verde cobre a costa e entre cactos, sobressai uma vivenda bonita. Que paisagem exuberante! Seus moradores embebem as esponjas do cérebro com milhares de imagens e sonham acordados com o paraíso. No fim de semana, procuram longe da agitação da cidade-grande reparar os
danos causados pelo stress. Com certeza, voltam rejuvenescidos e embriagados do prazer de mais viver.
O Navegante Capitão-de-Corveta Kim pede ao motorista para parar, pois não podiam aproximar-se. Pois havia o risco de ferros de qualquer um dos navios furar a embarcação pneumática.
Ao sabor do bambolear do barco, fomos apreciando o belo cenário, mas que guardava inquietações para os banhistas, para a navegação e para o meio ambiente. Longe da cidade, perto do paraíso. Mas cuidado, o inferno pode morar ao lado.

REGRESSO

Contrariados fizemos o caminho de regresso. O prazer queria deixar-se ficar, mas o dever chamava. Então partimos. Nem muito ao mar, nem muita à terra. A navegação costeira dá o desfrute de embarcados não perderem de vista a terra. É como viver entre dois grandes amores. Ambos são bons amantes, mas escondem bem os seus defeitos.
No regresso, devagar, com o motor um pouco acima do rolantim, esticou-se o trajecto até ao Mussulo. A Baía de Luanda, Marginal, Hotel Panorama, Fortaleza São Miguel, Cidade Alta, Samba, Hotel Costa do Sol. É grandiosa a obra feita pelas mãos humanas, mas percebe-se também os estragos de algumas construções ribeirinhas.
O mar foi simplesmente transformado em esgoto e depósito de outras imundices. O meio ambiente ressente-se gerando peixes contaminados, cujo consumo é responsável por doenças como a cólera. É mais dor!
Na ponte do Mussulo, uma multidão aguarda transporte para o Mussulo. Vários operadores privados apostam no negócio. Três jovens pescadores com seus anzóis procuram arranjar algum peixe à refeição. Apenas aos fins-de- semana realizam tal actividade, fazem-no mais por prazer, do que por necessidade. Querem descontrair. Pedem algo para beber ou comer. Joga-se-lhes três refrigerantes. A última lata escapou-se das maõs e caiu na água. Um dos jovens mergulhou e segundos depois emergiu com o refrigerante. Passou a mão sobre o rosto e bebeu sorridente, provocando inveja a quem não sabia nadar nem flutuar. Para estes, um simples mergulho acabaria em tragédia. A única coisa em que podiam ser prestáveis era transformar-se em âncora.
Entre a Ilha da Kazanga e a do Mussulo ancorámos. ao longe, restaurantes à beira-mar. Eram 13 horas. O sol abrasador exigia água doce. A barriga também juntou-se à sede pedindo comida. O museu da Escravatura faz emergir lembranças dos tempos do comércio triangular. Naquela
época, milhares de africanos, depois de capturados eram jogados para os barcos negreiros. Muitos deles não resistiram à fome, às doenças e maus tratos morrendo durante a travessia para as américas.
Lições que ficaram para a história. Na Angola independente, comemos ração, bolos e bebemos refrigerantes. Dos marinheiros ouvimos várias histórias de missões anteriores. A brisa foi atenuando o calor do sol. Depois do almoço, partiu-se em direcção à Base Naval de Luanda. A missão estava cumprida. A satisfação do dever cumprido fez desabrochar um sorriso em jeito de gratidão à Direcção da MGA, ao Comandante da Zona Marítima n°2 Vice-Almirante João Grigório Victor "Jojó", ao Navegante Kim e aos seus dois sargentos.
Nas próximas edições, vamos até à Zona Marítima n°1, 3 e 4.

 

 
 
Todos os direitos reservados © 2006 Revista Marinha
Design: Design: rrinformatica - rrweb@walla.com