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Era tempo de cacimbo, o Huambo acordava embrulhado no nevoeiro, mas as nossas conversas, as nossas lembranças, ainda falavam do Brasil. Dos encontros e desencontros que, como marca deixada pelo pé da Rainha N'Jinga sobre uma pedra em Malange, ainda persistem vibrantes na memória.
É subtil o processo através do qual vários fenómenos culturais entram na vida de indivíduos e de nações inteiras. Disso, sei-o, graças Augusto Conte, meu xará, que nos primórdios da sociologia abordou a importância dos factos sociais, para a compreensão da vida em comum.
Esse exórdio vem a propósito do reencontro com um amigo que o Brasil me ofereceu.
Conhecera-o na década de 80, via-o passar sorrateiro e a entrar no edifício do Estado-Maior quase pé-ante-pé no seu camuflado. Nunca soube o seu nome.
Mais tarde o destino trouxe-o para perto. Das Telecomunicações passou para a Direcção Política. Nem com isso os nossos corações se tocaram. Nos encontros esporádicos, falávamos o estritamente necessário, como se estivéssemos a cumprir os dizeres do cartaz que vem nos autocarros "FALE COM O MOTORISTA, O ESTRITAMENTE NECESSÁRIO".
Mas o destino é teimoso, insatisfeito persistiu puxando os cordelinhos para a aproximação.
Em 1994, vencidas as dificuldades no Rio de Janeiro, parti de autocarro para a cidade de Juiz de Fora, a antiga capital do Estado de Minas Gerais. Eram 22 horas quando desembarquei na Avenida Rio Branco.
Auxiliado por um prestativo mineiro, procurei uma cabine telefónica. Do outro lado, alguém atendeu e prometeu ir ao meu encontro. Minutos depois, estava em presença de um indivíduo baixo, escuro e calvo. Saudou-me efusivamente e quis saber logo das notícias do país. E a guerra como vai? Nem sei o que respondi. Nem sei se disse que ia bem ou ia mal. Será que fazia sentido tal resposta? A verdade é que a guerra estava intensa, violenta. Falei-lhe das tentativas do governo em recuperar o Huambo e dos combates nas lundas. Mas ele insistiu. Queria saber mais sobre o Huambo. Suas perguntas deixaram-me vazio de respostas. Ficou ainda mais aflito.
Enquanto caminhávamos em direcção a uma paragem de autocarro, acalmei-o e ele mudou de assunto. Agora queria saber de dinheiro. Outra maka!... E desfiou o rosário do seu drama. Há mais de seis meses que não recebia o complemento de bolsa e as dificuldades começavam a pressionar o rendimento escolar. Faltavam livros, cadernos, cópias, roupas, sapatos etc. E o aluguer? ... E as refeições estavam a ficar cada vez mais simples, incompletas, nuas, despidas de ingredientes. A minha aflição também embalava na calema, quando foi cortada pela chegada do autocarro.
Subimos em direcção ao Bairro Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. Ficava num morro alto da cidade. Depois que soube do nome do bairro, fiquei incrivelmente mais calmo. A Santa estaria por perto e com certeza nos iria ajudar a resistir.
Abriu o portão e encaminhamo-nos para os fundos, onde estava um anexo. Um anexo tão pequeno, tão diminuto, que mais se parecia a um abrigo subterrâneo. Nele mal cabia uma cama. Quando um estivesse a vestir, o outro devia permanecer deitado ou sentado na cama. Era impossível qualquer movimento.
Acordávamos às 5 horas da manhã para a pé chegarmos às 7 horas na Faculdade, que ficava num outro morro e do outro lado da cidade numa distância de mais de dez quilómetros.
Passávamos o dia na Faculdade sem almoçar, muitas vezes, por falta de dinheiro, e regressávamos a casa por volta das 19 horas. Cansados, fazíamos o jantar que era composto de peito de frango ou seja esqueleto de frango. Ao frango era retirada toda a carne sobrando apenas o esqueleto. O quilo custava 0,49 centavos. Cabia muito bem no nosso bolso. Depois do refogado, enchíamos a panela de água para o molho que iria puxar o funge de fuba amarela. Era molho 4x4. Full time. Finalmente para fechar a refeição vinha um cigarro Derby.
Depois do jantar, sentados na cama revíamos a matéria escolar e aguardávamos até a 1H30 da madrugada (hora do Brasil) e 5H30 (horário de Angola) para acompanharmos as notícias sobre o desenrolar da guerra em Angola, através da Rádio Voz da América.
As informações emitidas deixavam-nos ainda mais inquietos. A situação estava complicada! E agora assim, como e quando é que o dinheiro da bolsa vai vir? Estas perguntas provocavam danos graves ao sono. Mas suspirávamos resignados e cada um no seu lençol aconchegava a sua dor e limpava as suas lágrimas. Mas o sono era leve, porque os percevejos cobravam pedágio. E demanhã os lençóis estavam todos ensanguentados. Ai que horror! Só no fim-de-semana estendíamos os colchões ao sol.
As esperas se prolongaram. A fome avançava cautelosa, enquanto nós nos debatíamos para enganá-la. Quando as forças começavam a definhar-se, surgiu uma ideia. Enquanto o dinheiro não vem temos de fazer alguma coisa. Mas o quê? Vamos procurar uma igreja. Precisamos de rezar. Meu companheiro Sangueve lembrou-se então de um crente brasileiro chamado Israel. Fazia jóias no Calçadão da cidade.
Apanhámos um autocarro e fomos ao seu encontro no Bairro Benfica.
Ficou feliz ao verem-nos entrar no templo, mas só Deus sabe a fome que nos trazia.
Estou a vir, ainda!
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