revistamarinha@yahoo.com.br
 
 
Ano 5 - Edição 11 - Jul/Ago/Set 2007 - Distribuição gratuita
Clique para aumentar Manchete
Angola aposta no reforço do poder naval
SUMÁRIO
EDITORIAL
ACTUALIDADE
DOSSIER
GENTES & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
ENTREVISTA
REFLEXÃO
MEMÓRIA
CRÓNICA
ANCORANDO
CIÊNCIA E TÉCNICA
         
 
Angola e o valor estratégico do Oceano Atlântico
VALM- Valentim A. António

Cerca de 71% da superfície da terra é coberta por água, 80% dos países têm uma costa marítima e a maio-ria da população mundial vive a cerca de 300 quilómetros da costa.
Actualmente, no planeta vivem cerca de 6 biliões de pessoas, prevendo-se que em 2025 a população do planeta passara para 8 biliões.
Na costa e ilhas do Oceano Atlântico encontram-se mais de 80 países abrangendo uma população de pouco mais ou menos de 1,5 biliões de pessoas, entre eles 23 países da costa oeste de África, com uma população de mais de 200 milhões de pessoas. Os países mais desenvolvidos do mundo encontram-se na bacia do Atlântico, de entre eles destacam-se os EUA, Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Espanha e outros.
O Canal do Panamá com 82 km que corta o ístimo do Panamá ligando o Oceano Atlântico com o Pacífico, é um trunfo importantíssimo estratégico e militar.
No presente momento tem importante significado a exploração e utilização económica dos recursos do solo e subsolo marinho do Oceano Atlântico. O petróleo ganha grande relevância hoje. No solo e subsolo do Atlântico também se estão explorando matérias tais como ferro, cobre, níquel. Se estão a elaborar vários projectos para o aproveitamento dos recursos energéticos no Atlântico.
O Atlântico não significa simplesmente recursos em matérias-primas sólidas e líquidas, mas também é rico em recursos piscatórios. Ele fornece na actualidade cerca de 40% do mundo em pescado e outros produtos alimentares do mar.
Falando concretamente do Atlântico Sul, onde despontam o Brasil (a 10ªeconomia do mundo), Argentina, África do Sul, Uruguai, Nigéria Angola, etc., é hoje o principal espaço marítimo aberto que está a emergir no campo do petróleo, com facilidade logística e de resposta rápida para as potencias ocidentais do norte e não só. Está a assumir uma importância estratégica como plataforma offshore com significado mundial e como "corredor " de fornecimento alternativo.
A batalha pelo controlo político, não se excluindo o militar, e económico deste vasto espaço marítimo vai, por isso, agudizar-se nos próximos anos.

O espaço do Atlântico Sul subitamente agitou-se. Estamos a assistir a uma "corrida" pelo controlo geo-económico do petróleo desta região que abrange, nomeadamente também os offshores africanos do Golfo da Guiné e de toda a África Subsariana, e como lógico com Angola incluída. O Atlântico Sul é o mar aberto com actividade petrolífera offshore claramente emergente.
Os offshores de Angola e do Golfo da Guiné estão na ri- balta.
Assim, as ilhas estratégicas espalhadas pelo Atlântico Sul desde Cabo Verde até as ilhas sob administração inglesa, que fecham a sul voltaram a readquirir importância geo-estratégia.
Hoje vivemos uma época em que não há país que disponha de litoral e não identifique interesses no mar. Estes resultantes dos anseios, necessários, possibilidades e cultura de um povo, materializam-se no que se convencionou chamar de política marítima do país. Seus objectivos de ordem política, económica e militar dependem, para serem alcançados da adequada obtenção e do emprego de meios apropriados, isto é dependem de uma estratégia marítima, que prepare e empregue convenientemente o poder marítimo.
Angola possui uma enorme e rica Zona Económica Exclusiva (ZEE) e pode vir a ter uma Plataforma Continental ainda maior, de acordo com a Convenção de Direito do Mar (Montego Bay). Este enorme espaço estratégico que é a nossa ZEE que é de 200 milhas náuticas (370km) e Plataforma Continental actual de 350 milhas náuticas (650km) de largura, representa um total aumentado de quase 50% a área do território nacional que é de 1 246 700km2, com múltipla vantagem já que esta área o seu aproveitamento é tridimensional, quer dizer, envolve a superfície, a profundidade com o solo e subsolo marinho e o respectivo espaço aéreo sobre o mar territo-rial. Este enorme e rico espaço nacional tem de ser por nós ocupado de forma efectiva para evitar vazios de poder que viabilizem a instalação de outros interesses, que são sempre lesivos aos interesses nacionais. Angola tem que estar a altura das suas potencialidades e possibilidades. Angola tem de apostar mais na segurança das pessoas e do país (investir na defesa e simultaneamente no bem estar das pessoas), pois não deve constituir preocupação apenas o controlo das fronteiras, mais também a estabilidade na região e no mundo. Por isso, é necessário o país dispor de meios de defesa e fiscalização integrados numa verdadeira estratégia marítima onde também não seja esquecida a exploração económica do mar e investigação científica, porque o mar oferece emprego em quase todas as área. A Marinha de Guerra, sendo a componente naval das Forças Armadas do país, também constituído pelo Exército e Força Aérea que são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base hierárquica e na disciplina, está destinada a defender os interesses da nação no mar e, ali garantir-lhe a integridade e soberania. Por seu intermédio assegura-se ao país o direito ao uso económico e estratégico do mar. Para cumprir este objectivo, há que possuir meios adequados (proporcionais aos nossos inte-resses e capacidades) e pessoal devidamente preparado e altamente disciplinado. Mas a Marinha não se torna precisa apenas para a sua função principal do elemento defesa, tem ainda nas necessidades de fiscalização, de apoio, de socorros, de presença, de representação, de defesa dos interesses nacionais, e outras tantas causas originais.
A tecnologia está a abrir novas portas para a exploração do mar. Parafraseando Graham Hawkes - "Ainda estão a ser dados os primeiros passos na descoberta do fundo do mar, não se sabe o que se irá seguir, mas por certo que será uma coisa em grande, seja ela o que for". É desta forma evidente que Angola precisa ter meios para patrulhar as três demissões deste enorme património que é o nosso mar. Assim, o apetrechamento da nossa Marinha de acordo as nossas necessidades de defesa e dos interesses nacionais não pode ser encarada como uma preocupação interna dos próprios marinheiros. Há pois, que motivar os governantes, políticos, elites, jovens e sociedade em geral para a necessidade de encarar os assuntos de defesa com outra visão e outra vontade e fazê-los notar o que o serviço do mar representa para o desenvolvimento e segurança dos interesses nacionais. Marinheiros e mar não podem continuar sendo estranhos a nossa sociedade. É recordar que a economia mundial respira por via marítima. E Angola não é uma excepção. É só lembrar que Angola depende do mar para sobreviver e prosperar, embora isto não seja percebido pela grande maioria dos angolanos. Para elucidar o caso é notar que o petróleo que é a grande fonte da nossa economia é 95% extraído do subsolo marinho, é transportado pela mesma via. Pelo mar passam mais de 95% das nossas importações e na mesma percentagem se espera venham passar as exportações, sem incluir as mercadorias e cargas dos países vizinhos encravados que com certeza estarão interessados e desejosos em verem o Caminho de Ferro de Benguela (C.F.B) a funcionar, sendo até ao momento a única ligação ferroviária da África Central com ligação ao Oceano Atlântico, através do nosso porto do Lobito, como via mais curta e por isso vantajosa, e obviamente com benefícios recíprocos.
Para concluir é preciso lembrar que não basta ter ideias, é preciso usá-las e para isso é necessário estudar, formar, analisar e treinar. Angola deve estar atenta e preparada com o que se passa ao seu redor.
É bom recordar que - " Proteger é semear. Nem sempre colhe o fruto, aquele que espalhou a semente; porque a Nação não é um dia; é a sucessão das gerações dos seus filhos"-Oliveira Martins. Angola tem que contar com o seu mar e retirar dele todas as vantagens que lhe proporcionem o engrandecimento e progresso e para tal o nosso mar deverá estar protegido, para ser usado com segurança, para o benefício comum.

 

 
 
Todos os direitos reservados © 2006 Revista Marinha
Design: Design: rrinformatica - rrweb@walla.com