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Ano 5 - Edição 11 - Jul/Ago/Set 2007 - Distribuição gratuita
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Angola aposta no reforço do poder naval
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Telemóvel e a nova cultura
CMG. João da Cruz Sangueve

Essa guerra também, popilas, mexeu com todos e com tudo, wé!
Até 1992, o camarada telemóvel não fazia parte do nosso agregado familiar (Rádio, Televisão, Rádio-Cassete e Vídeo). Tão logo, as condições objectivas e subjectivas foram cria-das, e, também porque nós angolanos somos especiais, acolhemos o cassule da telefonia com orgulho e satisfação.
Na actualidade consagrou-se como um tóteme, simbolizando já, a unidade da sociedade e actualiza de uma forma célere algumas características com que os membros do grupo sentem afinidade e ao qual se vinculam por deveres e inclusive tabus sociais e religiosos.
A chegada deste meio de comunicação, inclusive lá onde se fala umbundu, foi baptizado logo com o nome de Kambéu (cágado), pelo tamanho. Olha só! Nome bonito e chique; Eh!
Por incrível que pareça, o dito cujo, assemelhou-se ao ocupante colonial. Chegou e sem contemplações, começou a ditar as regras do jogo. Do seu pacote de regras, constam três situações estruturantes, visíveis a olho nú: o porte e aspecto do seu utente, o discurso que por ele é passado e a musicologia.

1-Porte e aspecto
O novo meio de comunicação emprestou aos seus utentes, um porte e aspecto impressio-nante, gente! O caro leitor não precisará de subsídios da disciplina de Metodologia e Pesquisa Científica se fizer um estudo comparado entre os artistas dos filmes mexicanos e Norte-americanos (Cowboys) e os angolanos portadores dos telemóveis da Movicel e Unitel. Rapaz, não há diferença nenhuma. Tudo confere.
Olha, a dado passo, os cintos começaram a escassear nas lojas e até no Roque Santeiro, no Chapanguela, no Africano, porque os mesmos foram chamados a cumprir uma nova missão - a de suportar os pequenos kambéus, na cintura.
Dependendo da escolha dos utentes, os dois kambéus são pendurados ao longo do cinto. À esquerda, para os canhotos. À direita, para os direitistas. Ou então um de cada lado, para os franco atiradores com as duas mãos. À imagem e seme-lhança do "Rambo". Que maravilha!
O receio agora é de: se aparecer mais operadoras, meu Deus haverá mais lugar no espaço corporal? Senão, como alternativa teremos que comprar aventais com vários bolsos numerados 912, 917, 923, 924, 925, 926...…. Para uma melhor segurança e localização rápida. Quando a 1ª frente (peito) estiver cheia, então o outro passo é comprarmos um cesto e colocá-lo na 2ª frente (nas costas). Mas até lá, também já falamos muito e licenciados já, à reforma. Aí, pedimos ajuda aos netos para digitar no kambéu e falar com alguém.

2-Relativamente ao discurso que por ele é passado, meus senhores, é aqui onde encontramos o show do sujeito falante. Parecendo palhaços ou então surdos-mudos a linguagem aqui é gestual. Mais se parece com a quirologia do que uma conversa entre pessoas normais. Bate-se com a caneta no tampo da mesa (já disse que não...., falando para a esposa ou filhos).
a) Raras vezes, passa por este meio a verdade. Dá impressão de que todos interlocutores deste meio são mentirosos. Alô... Sim... Epa, estás aonde? Estou a caminho. Já estou no Panorama. Mas, apesar do engarrafamento típico de Luanda, é mentira, não está no Panorama. É simulação, está no Panguila. Imaginem, o que estará fazendo no Panguila, na hora de serviço. É como, uma vez, o meu chefe perguntava. Mas você anda a pé como justifica o atraso com o engarrafamento? É catuta. São coisas da vida militar!...
b) A mais fascinante regra do telemóvel está ligada à gramaticalidade. È sabido que a gramática estabelece as regras do uso da língua. Numa oração, há a considerar o sujeito, o predicado e o complemento, confluindo esta sintaxe para um discurso formal. O que se passa connosco, agora, é o seguinte: Quando desactivamos o aparelho do cinto, desembrulhamos da capa ao toque da orquestra vigente ou da sua tarrachinha (vibração), o discurso que flui por ele é horrível: Alô... Yá, Yá, Yá... Sim... Yá... Ókei... Yá... Tchau! Caros leitores, aqui há sujeito, predicado e complemento? Nada. Assim, por força de que o hábito faz o monge, o nosso discurso está tomando o curso daquilo que se chama cacolalia.
c) Outro momento a registar é o que se refere aos custos de manutenção funcional do aparelho. O Frei João Domingos dizia numa das homilias que o homem está para a mulher assim como a mulher está para o homem. É a lei da natureza. Nesta relação há que ser, leal, firme e compreensivo. Mas, está acontecendo algumas disfunções. Os jovens que estão procurando emparceiramentos, está lhes saindo caro. Consegue uma namorada. A primeira proposta que vem do outro lado é a oferta de um telemóvel para a actua-lização da situação político-militar no teatro de opera-ções entre os dois ou como se diz em alguns meios (entre ambos os dois). Comprado o telemóvel de preferência, dos últimos modelos, uma semana depois, lá vem o pão-nosso de cada dia. De forma imperativa, ela diz: liga só para este número, agora!... é da minha colega, não tenho saldo. E nesta linha há as tais famosas parte-braços. De Janeiro a Janeiro nunca têm saldo, valendo-se das imunidades diplomáticas que a natureza lhes conferiu. Vezes sem conta, os municiadores, coitados, também estão na baúca, mas que saída se é ali, onde está o futuro. Uma demorazita de horas, à procura de novecentos Kuwanzas; lá vem a seguinte mensagem: "Fofuxu, boa tarde, vou completar anus, mi mandala saudo". De: Carlota
10.07 10-Jul-07

3- Este novo meio de comunicação é muito solidário com os outros. Daí que sempre quis partilhar a sua presença preferencialmente com os músicos e os camêra-man. Induz os seus utilizadores a uma pirataria desenfreada. A coberto de sons de chamada, são autênticas orquestras gravadas lá na sua memória. Para você ter o espectro do que se passa, vá a um casamento, baptizado ou óbito. Barulho que sai em cada kambéu é um show! meu irmão. Ainda que, não haja necessidade de comunicar algo à alguém, mas aquele orgulho, aquela vontade indómita de que também tem, puxa vida, tira o seu; Alô... Alô. A linha caiu. É mentira. Não tem com quem e o que conversar.

4- Além da imagem padrão, como se não bastasse, o novo meio de comunicação também grava algumas imagens não aconselháveis a menores de 16 anos. Mas actualmente, diz-se que é para o miúdo ficar esperto.
Como já na miudagem estamos a ficar espertos, então, esses discursos sem sujeitos, os sons, as imagens não estão respeitando mais a idade nem a profissão.
É o jovem, é o adolescente, é o adulto, é o professor, é o engenheiro, é o arquitecto, é o político, é o médico, é o militar e até o fiel que só dá folga ao kambéu, na hora do culto, todos mas todos, mesmo, professam a quirologia e a cacolalia com o novo meio de comunicação. Haka, a Suku yangue wé (ai, meu Deus)

 

 
 
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