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Já no terminal, depois de algum tempo de espera, finalmente a partida acontece às 9 Horas e 30 minutos. Estamos dentro de um helicóptero militar com 8 passageiros a bordo além da tripulação e diversos meios. Minutos depois, estávamos a sobrevoar os céus de Luanda. Do alto, constata-se com nitidez e algum descontentamento, o contraste entre as construções desordenadas da periferia e a vista deslumbrante do centro da cidade capital do país.
Instantes mais tarde, o piloto desvia a trajectória que o aparelho descrevia e pôs-se em direcção à costa. Agora sobrevoamos o imenso mar azul. Daqui em diante, jamais o perderemos de vista, apenas com alguns instantes de intervalos, quando a tripulação decide, de vez em quanto, fazer uma incursão mais para o interior. Mas depois retorna sobrevoando este companheiro inseparável do marinheiro, o mar.
Assim, nos é oferecido um quadro magnífico que vai se alternando entre as paisagens das terras do Bengo e as águas azuladas do Atlântico, qual um manto aquático estendido sobre a terra. Dir-se-ia que a panorâmica é o melhor quadro de arte do maior artista de todos os tempos, o Deus criador da natureza.
Quando o relógio marcava 10 horas e 10 minutos, chegávamos ao nosso destino, num percurso transcorrido em 50 minutos. Ao contrário das 6 horas que necessitaríamos numa viajem de carro até Ambriz.
FESTA DA MARINHA
Do alto, vêem-se várias moradias na sua maioria de arquitectura colonial. Ao contrário das galinhas que fugiam amedrontadas pelo barulho das hélices, a miudagem com os pés descalços e roupa esfarrapada, foi correndo em direcção ao local do poiso, no aeródromo de terra batida sito na vila de Ambriz. Supõe-se que desta atracção ao perigo nascerão bons pilotos no futuro.
SEJA BEM-VINDO
Depois do poiso, a tripulação é levada de carro até à Escola de Fuzileiro Navais. Ambriz é hoje uma vila isolada, quase morta, do ponto de vista social e económico. Se nas outras cidades do interior, como Benguela e Huambo, é comum apareceram à vista centenas de cupapatas (moto-táxi), circulando nas ruas, aqui as viaturas a andarem pelas ruas contam-se pelos dedos de uma mão.
Apesar disto, segundo Manuel João Sebastião, 32 anos, na-tural do Ambriz e gerente de uma loja, o comércio nesta loca-lidade apresenta forte potencial de rentabilidade, na medida em que falta de quase tudo, desde bens alimentares e domésticos de primeira necessidades à falta de luz e água canalizada. "A nossa grande dificuldade como comerciantes tem a ver com o estado de degradação das estradas" disse, queixando-se sobretudo dos buracos na estrada.
Três dias no coração dos Fuzileiros
Os três dias que passei numa unidade militar, foram suficientes para perceber a distância que separa a vida militar da civil. O quartel é um mundo a parte! Aqui somos feitos homens com H maiúsculo.
A indisciplina e a anarquia estão longe de fazer morada no seio dos militares, e das poucas vezes que acontecem são severamente banidas com punições desencorajadoras. Aqui, na Escola de Fuzileiros do Ambriz, reina a ordem, o respeito a hierarquia, a camaradagem, o empenho abnegado ao trabalho e o rigor da disciplina.
Durante três dias, vivi e convivi com os militares. Desde sargentos a oficiais superiores. Sentei-me à mesma mesa com almirantes e generais e saboreei dos mesmos "quitutes". Para mim, foi, certamente, um pri-vilégio, até porque comer com almirantes é um direito reservado a uns poucos.
A organização dos militares é algo impressionante. Até na fila do "pitéu" a marcha da bicha é feita em respeito aos princípios da hierarquia, ou seja, primeiros os almirantes, depois os oficiais superiores, subalternos, sargentos, e assim sucessivamente. Isto é, em ordem da patente que cada militar ostenta.
Foi um privilégio tomar as refeições a mesma mesa com almirantes. Até porque os subalternos nem podiam aproximar-se, sem permissão, da mesa dos almirantes. Aquilo era algo reservado, mas eu estava ali. Embora tímido e com as pernas a tremerem ligeiramente, eu estava ali a saborear e a rir das piadas engraçadas do General "Roca Monita". (Aliás, não é General é Almirante, é assim que são chamados na Marinha).
Afinal, os generais não são o que as pessoas pensam (sobretudo civis). Eu mesmo pensava que nos quartéis os generais não riam nem falavam. Pensava que os generais só andam com a cara trincada e aos berros com os seus subordinados, afinal é mentira. Não é nada assim.
Neste instante lembrei-me o quanto é bom ser jorna-lista. Nós convivemos com toda espécie de pessoas, desde as zungueiras até a presidentes. E porquê não generais? Lembrei-me então da velha máxima, do jornalista David Mestre: "em jornalismo ganha-se pouco, mas goza-se muito!"
Alegria e medo
Para um civil como eu, estar numa importante unidade mi-litar dá uma estranha sensação de medo e segurança ao mesmo tempo. Principalmente quando se está no meio de oficiais superiores, como generais. Medo porque, a meu ver, onde estes estão será sempre o alvo do inimigo. Segurança porque eles nunca estão num sítio sem segurança. Estar numa unidade militar dá-nos também a sensação de um perigo iminente, de um ataque inesperado do inimigo (como nos filmes, estão a ver?). Ou persegue-nos, onde quer que a gente vá, o medo de accionar uma mina escondida no solo. Ai que arrepio! Ser amputado ou morrer detonado? Não, essa não. Prefiro morrer civilmente… assim como morrer vítima de doença). Enfim, são essas coisas que atormentam um civil numa unidade militar.
Entretanto, acho que desde pequeno que queria ser militar. Mas a dureza da recruta, como dizem, e o destino do militar (morrer em combate!), sempre desencorajaram a minha pretensão. Entretanto, até hoje ainda me fascino ao ver as marchas militares em parada, as cerimónias, as continências (bater pala) e a prontidão do soldado, do fuzileiro, do comando ou do tropa de infantaria. "Sargento Vemba?" chamava um oficial. "Pronto Comandante!" - respondia o sargento, pondo-se em prontidão no mesmo instante. É bonita a disciplina militar!
Sigamos o bom exemplo dos militares, a moleza é incompatível com o espírito de missão.
Bandeiras do convívio
Se a situação social ou económica não é boa, o mesmo não se pode dizer em relação a actividade político ou partidário. Ao longo da avenida que nos conduz à Escola de Fuzileiros, chama-nos a atenção o baloiçar de uma bandeira do P.R.S (Partido de Renovação Social) e, mais adiante, um pouco mais escondida, a bandeira da UNITA, ambos partidos da oposição. A poucos metros da escola avistamos outra bandeira, desta vez do partido no poder, MPLA. Uma clara evidência de que o espírito da paz e reconciliação nacional é um facto e faz moradia nesta localidade.
A entrada na escola de Fuzileiro acontece no momento em que as tropas se dividiam entre a limpeza dos espaços adjacentes e os exercícios de preparação para o grande dia. "Bem-vindos à Escola de Fuzileiro Navais" lê-se na lápide colocada diante do portão. Um militar em serviço abre-nos a cancela e um outro, que estava no posto logo à entrada, presta a continência.
O azul e o branco predominam. A escola é um terreno vasto que se estende até ao mar, a muitos metros da entrada. A bravura das ondas remete para a rigorosidade dos treinos. "Senhor jornalista, a partir do momento em que passares este portão, és um militar" dissera-me em tom de brincadeira, um oficial almirante. Uma outra lápide chama a atenção para a seriedade com que é tomado a instrução. "O suor derramado nos treinos é o sangue poupado no combate". Olhei meio desconfiado. Caro leitor, ser militar exige patriotismo, são os únicos cidadãos que juram morrer em defesa do país. E quantos sacrifícios são consentidos para defender a soberania de uma nação?
Pensava em tudo isso quando éramos conduzidos ao edifício do Comando. Depois do pequeno-almoço, fomos hospedados no Hotel Ambriz.
Festa da Marinha
A manhã do dia 10 de Julho, no município de Ambriz, estava um dia diferente dos outros. A rua 11 de Novembro, que dá acesso a Escola de Fuzileiros Navais, estava limpa e colorida com os símbolos da MGA.
Os munícipes acordaram mais cedo e o tema de conversa era a festa da Marinha. Todos estavam preocupados e ninguém queria perder a festa. Houve mesmo alguns mais velhos que deixaram de ir às lavras para assistir ao 31º aniversário da Marinha.
Nas casernas, os militares engraxavam as botas e preparavam a farda. Quando eram 11 horas, estava tudo pronto. Tropas em parada e assistentes organizados.
A banda musical da MGA, acompanhados pela guarda de honra, e um grupo de oficiais almirantes encabeçados pelo Chefe do Estado-Maior Adjunto da MGA, Almirante Augusto Lopes "Roca Monita", aguardavam, na entrada da Escola, a chegada do Chefe do Estado-Maior General, General de Exército Francisco Pereira Furtado.
As 11 horas e 13 minutos, a entoação da banda de música dava conta da chegada do CEMG das FAA. Após as honras militares, Francisco Pereira Furtado, que estava acompanhado pelo governador do Bengo e o admi-nistrador municipal de Ambriz, é recebido pelo Almirante "Roca Monita" e conduzido ao edifício do Comando, no qual foi saudado pelo comandante da escola de fuzileiros, Capitão-de-Fragata Vaz Gonçalves.
Ao que se seguiu um "briefing" entre os oficiais, antes de se deslocarem para a tribuna de honra onde eram esperados com muita expectativa pelos militares e populares.
Passavam meia hora das 11. A tribuna de honra estava recheada com diversas personalidades, entre os quais destacamos a presença do Chefe de Estado-maior da MGA, almirante Augusto da Silva Cunha "Gugu", do CEM cessante da MGA, Almirante Feliciano dos Santos "Paxi", o governador do Bengo, Inocêncio Dombolo, o admi-nistrador municipal do Ambriz, adidos militares acreditados em Angola, oficiais generais (nomeadamente, o CEM da Força Aérea e o vice CEM do Exército) e convidados..
A cerimónia começou instantes depois da entoação do Hino Nacional, ao que se seguiu a apresentação das tropas e a integra-ção do Estandarte Nacional. A leitura introdutória dos 31 anos de existência da Marinha de Guerra Angolana, foi feita pelo director da Revista Marinha, Capitão-de-Fragata Augusto Lourenço.
"10 de Julho de 1976/10 de Julho de 2007. Há 31 anos o Presidente António Agostinho Neto fundou, na Base Naval de Luanda, a Marinha de Guerra Angolana. Ao longo destes anos, homens e mulheres ajudaram com suor, sangue e sacrifícios a erguer os alicerces sobre os quais se edifica a Marinha. É sob a sombra do empenho e do sacrifício consentido por várias gerações de marinheiros que orgulhosamente hoje celebramos o trigésimo primeiro aniversário deste ramo tão importante para a defesa da soberania e independência nacional" referiu.
Entrega de troféus e promoções
O programa geral alusivo ao aniversário da Marinha esteve também recheado de várias actividades musicais e desportivas. Durante vários dias, equipas de diversas modalidades foram mobilizadas para participarem dos festejos, como esclareceu o Capitão-de-Mar-e-Guerra Hilário dos Santos, chefe da Repartição de Preparação Física e Desporto.
As actividades desportivas tiveram o seu início no dia 3 de Julho e terminaram durante a realização do acto central com entrega de certificados e troféus aos vencedores das diversas modalidades desportivas. "Já é tradição que, em todas as efemérides do ramo, a Marinha insira no seu programa geral actividades desportivas" referiu, acrescentando que para além dos militares, desta vez houve o envolvimento dos jovens munícipes do Ambriz.
Fuzileiros mostram habilidades
Consciente da importância da juventude para o ramo o Chefe do Estado-maior da Marinha, Almirante Augusto da Silva Cunha "Gugu", durante o seu discurso lembrou que "os primeiros especialistas formados na Base Naval de Luanda eram jovens, muitos deles sem qualquer contacto anterior com o mar e outros praticantes de moda-lidades desportivas marítimas".
Mais uma vez o mar, o companheiro inseparável do marinheiro, persegue-nos por todos os lados. No passeio aos arredores da escola e do próprio Ambriz, que se parece a uma península (com águas em todos os cantos e uma saída para a terra) até nos discursos.
Lá no fundo, a tantos metros da tribuna de honra, avista-se o mar, cujas ondas, de tão bravas, pareciam reivindicar por alguma coisa. E essa coisa descobre-se no discurso do General Francisco Pereira Furtado, que ressalta a necessidade de se proteger as águas nacionais dispondo à Marinha os meios e equipamentos modernos que lhe possibilitem concretizar este desiderato.
"A Marinha angolana é um importante ramo das forças armadas para a garantia da protecção das águas territoriais num contexto geral da defesa nacional" referiu.
Os discursos findaram e a ocasião é aproveitada para reconhecer o empenho e dedicação das tropas através da promoção, sendo promovidos 21 militares.
Quadros humanos
Momentos mais tarde, as tropas em parada começam a executar movimentos de ordem unida. blocos constituídos por 56 militares juntam-se, no centro da parada e aí, em frente à tribuna, apresentam as armas em jeito de saudação. Instantes depois, executam movimentos de marcha ordinária e dividem-se em quatro blocos. Sempre em movimento, repartem-se em quatro círculos e, depois, com uma habilidade impressionante, deitam-se no chão e com os seus próprios corpos e armas escrevem: AMBRIZ, MGA, XXXIº ANIVERSÁRIO. Destreza esta que arranca da plateia fortes aplausos.
Após a desintegração do estandarte nacional, o Comandante da Força de Fuzileiros Navais, Capitão-de-mar-e-guerra Bamba Zifua Castro, caprichosamente fardado, anuncia com fervor e entusiasmo o início dos exercícios tácticos que consistem na simulação do rapto de um jornalista da TPA por terroristas na enseada da escola do Ambriz.
A demonstração táctica é efectuada pela Unidade de Acções Especiais da Força de Fuzileiros Navais numa operação conjunta com a Força Aérea.
A assistência, constituída por oficiais, almirantes, generais, adidos de defesa acreditados em Angola e munícipes do Ambriz, parecia o público de um cinema e a demonstração táctica um filme ao vivo.
No final, todos aplaudiram vivamente e o Comandante Bamba recebeu inúmeras felicitações. Ficou demonstrada e provada a capacidade operacional e tácticas dos fuzileiros angolanos.
durante o almoço de confraternização, entre abraços e elogios todos deixaram-se contagiar pelos som agradável de cantores como Mamukueno, Sabino Henda, Gianne, Guerra e F2.
MGA impressiona General Furtado
O General de Exército e Chefe do Estado-maior General das Forças Armadas Angolanas, Francisco Pereira Furtado, feli-citou a Marinha por alcançar níveis aceitáveis de crescimento e organização ao longo dos 31 anos da sua existência. "Pese embora, por várias contingências, vive ainda momentos de grandes dificuldades e expectativas, face a necessidade de re-equipamento com meios e infra-estruturas adequadas às exigências do momento actual. Auguro por saúde a todos, com certeza de que melhores dias virão" afirmou o dirigente militar durante o seu discurso alusivo a comemoração do 31º aniversário da MGA.
General Francisco Pereira Furtado garantiu igualmente que esforços estão a ser feitos para dotar a MGA de meios mo-dernos para as reais necessidades de defesa das águas territoriais nacionais. Neste aspecto, sublinhou que é preciso "prestar particular atenção à formação de quadros com vista a garantir o cumprimento exitoso das missões que são atribuídas ao ramo". Porque "a defesa da nossa soberania e das nossas riquezas marítimas contam com este valioso ramo de que hoje nos orgulhamos", acrescentou.
Atendendo os níveis de crescimento da exploração petrolífera no offshore angolano e a importância económica que este representa para o Orçamento Geral do Estado, o Chefe do Estado-Maior General sublinhou que se impõe a Marinha responsabilidades acrescidas. "Havendo necessidade premente de garantir a segurança das instalações no mar e em terra contra actos quer sejam de guerras convencionais ou de sabotagem e terrorismo".
Elogio aos fuzileiros
Para o General Francisco Pereira Furtado, a introdução de Fuzileiros Navais na Marinha contribuiu muito para que o ramo participasse de forma activa em acções combativas no interior e fora do território nacional, assim como em exercícios internacionais.
O General Francisco Pereira Furtado alertou para o facto de hoje os mares representarem um foco de conflitos no mundo, por causa das suas riquezas. O que, do seu ponto de vista, obriga às Forças Armadas Angolanas a redobrar os investimentos na potenciação da frota de navios, fragatas, botes e lanchas. Sem, no entanto, descurar o factor homem, que é a chave do progresso.
Finalmente, elogiou a brilhante intervenção dos Fuzileiros Navais nas operações de resgate, remoção de corpos e protecção às vítimas das chuvas torrenciais que se abateram, principalmente, sobre Luanda e Moxico.
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