revistamarinha@yahoo.com.br
 
 
Ano 5 - Edição 11 - Jul/Ago/Set 2007 - Distribuição gratuita
Clique para aumentar Manchete
Angola aposta no reforço do poder naval
SUMÁRIO
EDITORIAL
ACTUALIDADE
DOSSIER
GENTES & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
ENTREVISTA
REFLEXÃO
MEMÓRIA
CRÓNICA
ANCORANDO
DOSSIER
         
 
Almirante, um brinde!
CFR. Augusto Lourenço
Pela primeira vez o Almirante Gugu comemora o 10 de Julho nas vestes de Chefe de Estado-Maior da Marinha de Guerra Angolana. Com certeza essa página da história conservar-se-á perene ao longo de gerações sucessivas de marinheiros. Urra, Almirante Gugu!
Mais um outro facto inédito veio dar as celebrações do 31º aniversário da MGA outro colorido, outro significado. Um facto carregado de subtileza, mas que veio dar um certificado de idoneidade e maturidade à nossa instituição militar.
Mexidas pela surpresa da exoneração, as emoções e as lembranças decantam-se lentamente na memória dos marinheiros. E como areia fina agitada num recipiente, cada grão acomoda-se um sobre outro, buscando no contacto íntimo e no ajustamento das arestas, dos côncavos e dos convexos a tensão para a harmonia desejada.
O Almirante Santos, antigo Chefe do Estado-Maior da MGA, volta ao ponto onde esteve pela última vez em serviço, enquanto investido naquele cargo. Isto foi em 21 de Março deste ano. Alto, olhar sereno, caminhar firme, os sininhos da alma tilintaram em sinfonia ao verem-no entrar na sala protocolar do Comando da Escola de Fuzileiros do Ambriz. Depois da saudação ao actual Chefe do Estado-Maior, assentou-se e mantiveram uma conversa cordial e descontraída.
Pela primeira vez, nos meus 26 anos de Marinha, via um antigo Chefe de Estado-Maior na tribuna como convidado. Facto que me deixou, naturalmente, maravilhado.
As mãos de oleiro do Almirante Santos deixaram suas impressões na obra que enobrece o Ramo. A Escola de Fuzileiros possui espaço vasto, salas extensas e asseadas, casernas, dormitórios, tudo um projecto talhado para dar à MGA condições para enfrentar os desafios do futuro. É um projecto construído para precaver o futuro. Um edifício é construído tijolo sobre tijolo. Aliás, o seu sucessor, Almirante Gugu, soube reconhecer o mérito.
Os marinheiros estão cada vez melhor instalados e as obras ainda não terminaram.
Outra sua realização é a Escola de Especialista Navais localizada na Praia-Bebé. Já é um mimo e elas ainda vão pela metade.
Depois da sala protocolar, o Almirante Santos caminhou animado até à tribuna. Abraçou antigos companheiros de nave-gações e de vigílias. Distribuiu candandos e sorrisos que faziam falar o quanto foi partilhado ao longos dos anos de convívio.
Depois do treino táctico realizado pelos fuzileiros, encaminhou-se em companhia dos demais para o recinto do almoço.
Abriu uma das garrafas de champanhe. Na hora de cantar parabéns, queria que todos cantassem ao invés de se contentarem com o instrumental. Mas o som já ia alto e tomava conta do recinto.
Peguei na minha taça e aproximei-me do Almirante Santos e pedi um brinde. Nossos olhos se cruzaram e do choque das taças brotou o ruído, que marcou um momento ímpar entre nós e accionou as bobines da memória. Nunca havíamos brindado!
Nunca estivera tão perto dele em cerimónias seme-lhantes. Também não tinha como!... Na cadeia de mando eu andava muito além e nessas circunstâncias, só quando se é chamado deve-se fazer presente.
Com ele tive apenas um têtê-a-tête. Tenso pela espera prolongada, certo dia ganhei coragem e fui ao seu encontro. Marquei uma audiência para falar de questões pessoais. O argumento era para ludibriar a secretária, sempre irredutível em baixar a guarda.
Assunto: estou a passar por dificuldades sérias, queria obter o seu conselho e sua ajuda. Ela acedeu e esfreguei as mãos de contente.
No dia da audiência fui recebido cordialmente.
- O que se passa camarada Lourenço? - Perguntou-me enquanto abraçava-me e me apontava a cadeira para me acomodar.
- Chefe, eu estou muito preocupado. Não consigo dormir. - Falei, aproveitando o ar que sobrava de um longo suspiro.
- Mas o que é que se passa? - perguntou visivelmente preocupado.
- Chefe, há um ano que a Revista está paginada, mas precisamos da ajuda de Vossa Excelência. ...Falta dinheiro, chefe! ... O Chefe vai gostar do trabalho. Não se vai decepcionar, chefe. - Num jacto, joguei para fora tudo que me oprimia.
Olhou-me nos olhos e eu fugi com o olhar para a parede de madeira e pendurei-me no quadro de uma fragata.
Depois de segundos em silêncio, falou pausadamente:
- Camarada Lourenço, eu entendi. Vamos ajudar-te! - Despediu-me e de seguida, enquanto saia, vi-o pegar calmamente no auscultador e digitar um número. Parti quase correndo ansioso em partilhar a novidade com os companheiros na redacção da Revista: Sargento Grosso, Hanifa, Gália e Noé. Abraçamo-nos e dormimos finalmente, felizes!
Foi assim que surgiu, um ano depois da sua paginação, o primeiro n.º da Revista Marinha com 36 páginas. Depois vieram outros apoios, criou o Conselho de administração e redacção da Revista, coordenada pelo Almirante Gugu. Esse facto veio dar um outro impulso, uma nova dinâmica ao nosso trabalho e uma outra sustentabilidade. Grandes sonhos precisam de grandes vontades e apoios.
O Almirante Santos partiu, mas deixou-nos um ensinamento: sempre é preciso caminhar com fé e esperança!
Almirante, um brinde!

 

 
 
Todos os direitos reservados © 2006 Revista Marinha
Design: Design: rrinformatica - rrweb@walla.com