Aventura de marinheiros
angolanos no brasil
CFR. Augusto Lourenço
augustoalfredo@hotmail.com
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Nossa Senhora Aparecida, bairro da cidade de Juiz de Fora-Estado de Minas Gerais, Brasil, fazia fronteira com o bairro Santa Rita, Santa Cândida e Nossa Senhora de Lourdes. Era muita Santa à nossa volta.
No anexo com o Sangueve, também vivia um capitão da Força Aérea Angolana chamado António. Um luandense do Bairro Rangel. Mais tarde viemos a saber que era apenas tenente.
Estamos zerados, dizia o Sangueve. Estamos é zebrados! Sorríamos. Sorríamos... Na primeira semana, peguei, a título de empréstimo, em 100 dólares e dei-os a cada um deles. A alegria havia retornado. Dois dias depois, voltaram a pedir mais 100 dólares. Acedi. Semana seguinte, pediram mais 100 dólares. Recusei. Dei-lhes apenas 50.
Entretanto, os gastos eram compreensíveis, pois os meus compa-nheiros tentavam atenuar a dívida do aluguer, melhorar a dieta alimentar, comprar roupa e diminuir o cansaço andando de autocarro. Do frango havíamos passado para carne, sobretudo de fígado de vaca. Voltámos a gargalhar ao lembrar os esqueletos de frango.
Mas no mealheiro, o nível de segurança baixava. Em menos de um mês estava apenas com 300 dólares. O ponteiro estava no vermelho. Para quem não sabia quando receber reforço de verba, a situação era realmente aflitiva.
Camaradas! Nós somos militares e temos que buscar soluções. Mas que soluções? Somos comandos desembarcados na profundidade do inimigo. A nossa missão é de alto risco. Não temos como receber apoio da retaguarda, devemos contar com os nossos próprios meios e capacidade de sobrevivência. Temos de aprender a pescar!
Sangueve acendeu um cigarro com indisfarsável insatisfação pelo diálogo que para si até aí era incompreensível. Esperei alguns segundos até a conclusão da primeira baforada e prossegui com maior acutilância: Como vos disse, a guerra em Angola não deixa espaço para vislumbrarmos um futuro de paz dentro de pouco tempo. As tropas do Governo desdobram-se no terreno para rechaçar o inimigo, mas a situação vai durar algum tempo. Sabem que o inimigo está bem municiado. Caxito, Catete... são zonas de guerra! Não temos como receber o dinheiro da bolsa dentro de pouco tempo. Temos de resistir. E o Primeiro Ministro Marcolino Moco?... Todo o esforço vai ser canalizado para a guerra. Esta é a verdade.
A impaciência dos interlocutores empurrou-me precipitadamente para a parte principal do plano. Vamos procurar uma igreja. O falso capitão, sorriu numa alta gargalhada, levantou-se, abriu a porta e saiu, fechando-a atrás de si com alguma violência. A porta fechou-se e no caminho que nos unia apareceu pedras que cresceram e chegaram a pedregulhos. Para ele, eu era um doido, um exibicionista!
Os chineses dizem que a arte da guerra é a arte da manobra. Vamos à igreja!
Meu companheiro Sangueve manifestava-se relutante, argumentando que era católico desde os tempos de criança no município do Bailundo e não protestante. E eu contra-atacava. Quando a vida está em perigo, as soluções devem ter em conta primeiro a sobrevivência.
Apesar da dificuldade, consegui convencê-lo. Subimos paralelo ao rio Paraibuna em direcção ao Bairro Benfica, passando pelo Jóquei Clube, Parque de Exposições e admirámos os canhões expostos no Batalhão de Artilharia de Campanha. Chegámos ao destino por volta das 17 horas. Parámos perto do jardim do Benfica e encaminhámo-nos em direcção à Igreja Baptista. Mas o culto começaria apenas às 19 horas. Fizemos um raids de reconhecimento e buscámos um esconderijo por perto. Numa distância capaz de controlar todos os movimentos de entrada e saída do templo.
No botequim, que ficava ligeiramente à frente, procurámos acalmar os nervos. Afinal estávamos em operação e como tal tinha seu risco. Com os cinco reais que tinha no bolso comprei duas cervejas Scincariol de 0,30 centavos. Eram duas bazucas. Bebemos com sofreguidão. No fim o ruído de aprovação com a língua. Tchapossoka! Vieram mais duas para nivelar a emoção. As pastilhas foram chamadas para afugentar o hálito do álcool.
Na hora prevista, atravessámos a estrada e entrámos calmamente no templo. Todos os olhos viraram-se para nos ver chegar. Havia seis filas de bancos compridos. Curvámo-nos em jeito de respeito e procurámos na fila esquerda um lugar no meio dos fiéis. Sentámo-nos e seguimos o culto.
O pastor Rosa, eloquente no seu jeito, pregava o evangelho de São Lucas. No final da homilia, era o momento de convite às novas almas. Dei uma cotovelada ao Sangueve. Está na hora do ataque!
Quem aceita Jesus? Haverá aí algum irmão que quer aceitar Jesus? Levante a mão! Sangueve vamos! No auge das insistências, depois de dar uma forte cotovelada ao Sangueve, levantei o braço. Todos gritaram em uníssono: aleluia!Venha aqui para frente! Jesus vai te abençoar, meu irmão!
Irmão como se chama! A resposta veio levantar outra curiosidade, outra desconfiança. O irmão é da onde? Sou de Angola. Aleluia, nosso irmão angolano! Muitos com certeza não sabiam onde ficava Angola, então procuravam saber. De onde é ele mesmo? É nigeriano? De Angola. Carangola daqui mesmo? O cara é de Angola. Nunca ouviste falar em galinha de Angola... Ah, tá! Mas o cara fala português de Portugal! Noossa! É mesmo? O cara vem de longe para caramba! De tão longe para aqui em Juiz de Fora? Sim. Estou a estudar comunicação social na Universidade Federal. É, mas o cara é gente fina!
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