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Ano 5 - Edição 12 - Jan/Fev/Março 2008 - Preço Kz 250,00
Destaques de capa
Angola quer paz no Atlântico Sul
- A Marinha de Guerra Angolana é necessária?
- Guerra pela posse das ilhas das Malvinas completa 26 anos
+ CIÊNCIA E TÉCNICA
 
 

As fragatas classe "Niterói"

Alexandre Galante

A necessidade de actualização dos sistemas das fragatas classe "Niterói" (Vosper Mk.10) surgiu já na segunda metade da década de oitenta, antes mesmo que o primeiro navio da classe completasse dez anos de serviço. Isso aconteceu principalmente pela rápida evolução dos microprocessadores e por causa das lições obtidas na Guerra das Malvinas, em 1982. Naquele conflito foi confirmada a vulnerabilidade dos navios de guerra aos mísseis antinavio do tipo sea-skimmer e à aproximação de aeronaves de ataque voando em altitudes extremamente baixas.
Acompanhando as novidades na área, o plano da MB no final dos anos 80, previa a modificação dos navios nos seguintes itens:
· Substituição do sistema de defesa antiaérea de ponto Seacat, por outro sistema de mísseis capaz de engajar alvos tipo sea-skimmer;
· Substituição dos radares de controle de tiro RTN-10X por um novo modelo compatível com o sistema de mísseis a ser adoptado;
· Melhoramento do sistema de defesa AAe secundário (canhões Bofors 40mm/L70) modernizando-o ou substituindo-o por outro sistema com capacidade anti-míssil;
· Substituição dos radares de defesa combinada (AWS-2) e de navegação (ZW-06);
· Instalação de sonar tipo towed array nas duas fragatas de emprego geral;
· Modernização do equipamento de guerra eletrónica e CME, incluindo a instalação de lançadores tipo chaff e sistema de vigilância infra-vermelho;
· Modernização do Sistema de Comando e Controle
Várias propostas de modernização de diferentes empresas estrangeiras (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Israel, Itália) foram apresentadas.
O cronograma inicial previa a conclusão da primeira fase do processo, a selecção da proposta mais atraente, para o ano de 1990. Os serviços poderiam então iniciar em meados de 1991 e terminar por volta de 1992.
Durante a primeira metade da década de noventa o projecto sofreu modificações e atrasos principalmente por ausência de fundos, que foram negados em 1993.
O formato final do projeto MODFRAG foi definido ao longo do ano de 1995. Em relação ao projecto original, foram introduzidas novas modificações, resultando numa modernização ampliada. Como efeito, os custos finais sofreram uma elevação, passando de US$ 385 milhões para US$ 420 milhões.

A PROPOSTA VENCEDORA

A AESN (Alenia Elsag Sistemi Navali) da Itália foi declarada vencedora pela Marinha em 1993 e, em Março de 1995, o contrato foi finalizado para o fornecimento dos conjuntos de radares RAN-20S, RTN-30X e os sistemas de mísseis antiaéreos Albatros/Aspide.
Através de um processo selectivo realizado pela MB em 1996, foi definido um consórcio responsável pela actualização e integração dos sistemas de armas e eletrónicos das fragatas. O contrato foi vencido pelo consórcio liderado pela Elebra Sistemas de Defesa e Controle Ltda. em 20 de Setembro do mesmo ano. As outras empresas que participam no consórcio são: Consub Equipamentos e Serviços Ltda.; Dolphin; Holosys Engenharia de Sistemas Ltda (brasileiras) e DCNI (francesa). Coube à EMGEPRON - Empresa Gerencial de Projectos Navais, a gerência executiva do projecto.
O início efectivo do projecto MODFRAG ocorreu em 1º de Outubro de 1997, quando a Liberal [F43] foi docada, aproveitando-se o seu PMG (Período de Manutenção Geral). Previa-se um espaço de trabalho de 21 meses para esse primeiro navio. No entanto, por problemas de integração de sistemas, houve um atraso significativo e os primeiros testes de mar só ocorreram em 2001.
Em essência, o programa de modernização das "Niterói" teve por objectivo principal melhorar as capacidades antiaérea e anti-míssil dos navios, actualizando os sistemas de comando e controle, a suíte de guerra eletrónica (ESM) e eliminando as diferenças entre as versões E/G e A/S. Procurou-se também aumentar o grau de comunalidade com as corvetas da classe "Inhaúma".
O novo sistema de mísseis antiaéreos é composto de mísseis Aspide e um lançador óctuplo Albatros, instalado no convés da popa dos navios. Para tanto, foram removidos o lançador de mísseis Ikara das fragatas A/S e o segundo canhão Mk.8 das E/G. A remoção do Ikara se fez necessária, porque a manutenção tornou-se cada vez mais complexa e dispendiosa, factor agravado também pela desactivação do sistema nos navios das marinhas inglesa e australiana.
Os lançadores de mísseis Seacat que ficavam sobre o hangar foram removidos e, no seu lugar, foram instalados os SLDM (sistema de lançamento de despistadores de mísseis), que são foguetes dispensadores de chaff produzidos no Brasil.
Com os mísseis Aspide veio a necessidade de um novo sistema de direcção de tiro, provido por novos radares RTN-30X, que substituíram os RTN-10X. No lugar do radar principal do navio, o AWS-2, foi instalado o novo radar de antena planar Alenia RAN-20S 2D. Para substituir o radar de navegação ZW-06, foi escolhido o Skanter Mil.
Para defesa secundária contra mísseis foram instalados canhões Bofors Trinity Mk.3 de 40mm mais modernos, em reparos fechados, com maior cadência de tiro, velocidade de elevação e conteira maiores, sistema de municiamento automático e munição 3P anti-míssil.
A suíte de guerra eletrónica dos navios passou a integrar o sistema passivo Racal Cutlass B1BW para MAGE (ESM), similar ao utilizado nas "Inhaúma". O Cutlass, que substituiu o sistema RDL original das fragatas, emprega um computador próprio para comparar automaticamente os sinais de radares recebidos, com uma biblioteca de ameaças incorporada, de modo que o operador tem uma listagem tabulada de suas identidades e grau de ameaça. O sistema utiliza um receptor de medidas instantâneas de frequências (IFM), que fornece um alto grau de probabilidade de detecção de um sinal de curta duração, como o produzido por uma aeronave de ataque ou míssil.
As fragatas Defensora e Liberal receberam o equipamento de CME (Contra-Medidas Eletrónicas) ET/SLQ-1A, desenvolvido pelo IPqM e produzido no Brasil pela Elebra. O CME ET/SLQ-1 é uma cópia melhorada do antigo Racal Cygnus, instalado originalmente nas Corvetas classe "Inhaúma". Trata-se de um jammer (bloqueador eletrônico) que possibilita a defesa contra mísseis (soft-kill), através do bloqueio de seus radares, "arrastamento" do tracking de radares de direcção de tiro ou mísseis e geração de alvos falsos.
O CME ET/SLQ-1A faz parte do sistema de defesa combinada das fragatas. Sua operação integrada ao MAGE B1BW e ao SLDM (Sistema de Lançamento de Despistadores de Mísseis) permite que um radar hostil seja despistado automaticamente após ter sido detectado pelo MAGE B1BW. A técnica de despistamento do radar hostil pode definir uma acção combinada do CME ET/SLQ-1A, com um lançamento automático dos foguetes de chaff.
O SLDM é um sistema desenvolvido pelo IPqM, aperfeiçoamento do sistema britânico Plessey Shield 200, instalado nas corvetas "Inhaúma". Ele pode operar até 4 tipos de munição distintos (enquanto o sistema Shield está limitado a dois tipos) e opera com até 12 tubos. O sistema foi projectado para reconhecer e processar até quatro tipos distintos de munição, tanto do tipo foguete, quanto do tipo morteiro. Só existe disponível no momento o foguete de chaff (para despistar sinais de radar), mas o sistema poderá operar também com munição do tipo flare (para despistar buscadores infra-vermelho), despistadores de torpedo, etc.
Nas fragatas, dois reparos de SLDM encontram-se instalados em cada bordo, sobre o hangar, no lugar dos lançadores de Seacat. Nas proximidades dos lançadores existem dois armários para armazenamento de munição, cada um com capacidade para 24 foguetes. Portanto, para pronto uso, são 48 foguetes nos tubos.
Quando operando no modo integrado, isto é, sob o controle do SICONTA Mk.2, o sistema pode engajar-se nos modos automático e semi-automático. Quando engajado nesses modos de operação, ao receber uma designação de alvo, processa e gera automaticamente a solução táctica (padrão de disparo) em função das informações da ameaça, oriundas do SICONTA, dos dados do navio e das condições ambientais.
A antiga alça óptica LAS (localizada no tijupá) foi retirada e substituída por uma alça optrónica EOS-400B. Esta pode controlar os canhões Mk.3 de 40mm e o canhão Vickers Mk.8, realizando a predição de tiro independentemente do SICONTA Mk.II. Ela é dotada de câmeras térmica e de TV, podendo ser empregue nos períodos diurno e noturno. Foi mantida a alça pedestal (óptica) anteriormente existente a ré da chaminé, e que é capaz de fornecer dados de marcação para o sistema de armas, em caso de avarias nos sistemas principais.

NOVOS SISTEMAS DIGITAIS

A mudança mais complexa e mais radical feita no MODFRAG foi a troca do sistema de comando e controle do navio, o CAAIS 400. Os mainframes e consoles de procedência inglesa foram substituídos por uma rede de microcomputadores, compondo o sistema conhecido como SICONTA Mk.II. Este sistema é uma ampliação aperfeiçoada do SICONTA Mk.I que tinha sido instalado no NAeL Minas Gerais. É um sistema de arquitetura aberta, desenvolvido pelo IPqM.
Por muito tempo as soluções proprietárias, normalmente conhecidas como MIL-SPEC (Military Specification), foram a linha mestra para o desenvolvimento dos sistemas digitais voltados para aplicações militares.
Entretanto, sob o contexto de uma nova ordem mundial pós-Guerra Fria, caracterizada principalmente por conflitos localizados e redução dos orçamentos para Defesa, a situação mudou. Foi sendo observada uma tendência crescente para a aplicação, em sistemas militares, de componentes comerciais de prateleira, frequentemente denominados COTS (Commercial Off-The-Shelf), objectivando a redução radical do custo e do tempo de desenvolvimento. Esta tendência tem sido observada mesmo nas forças armadas dos EUA.
No MODFRAG, o trabalho consistiu em substituir um sistema desenvolvido a partir da filosofia essencialmente MIL-SPEC (o CAAIS 400), por outro baseado totalmente na utilização de componentes COTS (SICONTA Mk.2), com ambos realizando a mesma função (controle táctico e de armas) e utilizados sob as mesmas condições ambientais e de funcionamento.
A diferença básica entre as duas filosofias de arquitectura é que, na configuração antiga, o processamento era realizado em computadores centrais (FBA - controle tático e FBB e FBC - controle de armas), ficando os consoles como terminais "burros", dependentes do processamento nos computadores. Na nova configuração, adopta-se o processamento distribuído, isto é, os consoles têm capacidade de processamento próprio e se interligam através de rede de enternet.
Dentro da mesma filosofia, o MODFRAG implantou um novo sistema de controle e monitoração da propulsão e auxiliares para as fragatas. A modernização implicou em projectar um sistema digital de controle distribuído que realizasse todas as funções do sistema original e, ainda acrescentasse inúmeras funções identificadas ao longo da prática operacional de mais de vinte anos. Envolveu também a introdução de controle electrónico para os motores diesel e a substituição de enlaces de sinais pneumáticos, de difícil manutenção, por enlaces eléctricos. Finalmente com o objectivo de validar o projecto do novo sistema de controle, foi desenvolvido um simulador da planta propulsora e auxiliares com algoritmos implementados em software IEC 1131-3 e o modelo da planta, em MATLAB/SIMULINK, sendo executado em tempo real.

NOVOS RADARES E SONARES

O novo radar 2D italiano Alenia RAN-20S, opera na banda E (2-3 GHz) e substituiu o Plessey AWS-2 original. O RAN-20S tem um antena planar array de 4,5m, estabilizada em roll e pitch, com transmissor em estado sólido. O radar é capaz de detectar alvos do tamanho de um caça a 60 milhas de distância (cerca de 110km), com uma precisão de alcance de 20m e precisão angular de 0,3º. O RAN-20S tem agilidade de freqüência e filtro MTI (moving target indicator), que lhe permite separar os ecos dos alvos móveis dos ecos espúrios (clutter) das ondas e do terreno, no caso de alvos voando sobre terra. Para a navegação, foi instalado o radar Scanter Mil, em substituição ao Signaal ZW-06, e foi também instalado outro modelo mais simples, o Furuno 1942 Mk.2, um radar de amplo uso na marinha mercante. Uma vantagem do Furuno é o facto de que, desligando os outros radares, uma fragata pode ter uma assinatura electrónica de navio mercante.
O sonar de casco EDO 610E foi substituído por um EDO 997(F), de mesma potência, mas com processamento de sinais bem mais evoluído. Para a fabricação dos 997 (F), foram aproveitados muitas partes do 610E, após inspecção e manutenção.
A MB considerou que, nos cenários futuros, a tendência da guerra A/S será em águas litorâneas ("águas marrons"), e não mais em grandes profundidades ("águas azuis"). Por isso, resolveu-se remover os sonares VDS (Variable-Depth Sonar, ou Sonar de Profundidade Variável) mas foi desenvolvido um estudo no sentido da possível adopção futura de sonares Towed Array.

NOVA CAPACIDADE ANTIAÉREA E ANTIMÍSSIL

O principal armamento antiaéreo das "Niterói" passou a ser o sistema Albatros-Aspide, uma versão modificada do míssil americano AIM/RIM-7H Sea Sparrow, largamente empregado pelas marinhas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
O canhão Mk.8 de popa das fragatas E/G e o lançador de mísseis anti-submarino Ikara das A/S foram retirados, e em seu lugar foi instalado um lançador óctuplo Albatros, para mísseis Aspide da versão Mod7. O sistema pode ser adaptado futuramente para utilizar o míssil Aspide 2000, de maior alcance (cerca de 20 km).
No dia 23 de março de 2004 a fragata Defensora lançou um míssil Aspide contra um drone Banshee 520, capaz de voar a 200 nós. O drone simulou o ataque de um avião voando em altitude muito baixa e foi atingido por impacto directo. O teste, realizado a 60 milhas náuticas da costa, confirmou a integração bem-sucedida do sistema Albatros ao SICONTA Mk.2, garantindo aos navios a capacidade de defesa antiaérea em qualquer tempo, na camada mais externa, contra aeronaves e mísseis. Na camada interna, a defesa é feita pelos canhões Trinity de 40mm. Durante o engajamento do alvo, o sistema de direcção de tiro do navio recebe a indicação de alvo do radar RAN20S. O alvo passa então a ser rastreado pelo radar RTN-30X e, quando chega na distância de engajamento, o lançador é conteirado e o míssil é disparado. Cada radar RTN-30X pode controlar até dois mísseis em voo ao mesmo tempo.
A SSKP (Single Shot Kill Probability) do Aspide é de 0.8 com um único míssil e de 0.96 com dois mísseis.
Uma das características que levaram a MB a optar pelo sistema Albatros-Aspide, foi a capacidade de defesa antiaérea de área curta. O alcance do míssil é de cerca de 15km. Além disso, o sistema Albatros foi desenvolvido com especial ênfase na capacidade de detecção de alvos voando à baixa altitude. O Aspide, embora muito parecido com o Sea Sparrow, na verdade é muito diferente na parte interna. A Selenia Elsag, adotou um novo motor SNIA e um novo seeker, que resultaram em elevada capacidade de interceptação de alvos altamente manobráveis e em perfil de vôo sea-skimmer, capacidade de operar em ambiente de clutter e ECM intensos. Além disso, existe uma capacidade home-on-jam no míssil, que faz com que qualquer tentativa de interferência na guiagem do Aspide, leva o míssil a engajar a fonte interferente.

CONCLUSÃO

O projecto das fragatas classe "Niterói" mostrou-se particularmente feliz, a tal ponto que ainda hoje, mais de 30 anos depois de terem saído das pranchetas, as soluções de design e de hidrodinâmica então adoptadas servem de referência para projectos actuais. Através do MODFRAG, a Marinha do Brasil conseguiu dar aos navios uma capacidade de combate respeitável e adequada aos novos cenários do início do século XXI, bem diferentes daqueles vislumbrados no início da década de 70.
As "Niterói" continuarão a ser, nos próximos 15 anos, a espinha dorsal da Esquadra, e juntamente com o navio-aeródromo São Paulo, serão os principais instrumentos de garantia do domínio do mar pelo Brasil.

Referências bibliográficas da série

· "Uma história das fragatas - depoimento pessoal" - José Carlos Coelho de Sousa - 2001
· Revista Marítima Brasileira
· British destroyers & frigates - the second war and later - 2006
· Jane´s Fighting Ships.

 

Extraído do site:
http://www.areamilitar.net

 
 
 
 
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