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Ano 5 - Edição 12 - Jan/Fev/Março 2008 - Preço Kz 250,00
Destaques de capa
Angola quer paz no Atlântico Sul
- A Marinha de Guerra Angolana é necessária?
- Guerra pela posse das ilhas das Malvinas completa 26 anos
+ CRÔNICA
 
 

Os passos dos nossos passos

CMG. João da Cruz Sangueve

Viva o marinheiro! Viva!
Grito assim porquê? Grito assim, porque de todas as especialidades que cada marinheiro transporta consigo, ò mano, entre 1992 e 1994, tivemos alguns camaradas que eram especialistas de verdade. Chamo-os de "Toyotas 4x4" a todo o terreno, na busca, recolha e tratamento de notícias.
Essas notícias cobriam, preferencialmente, as áreas de finanças, pessoal e quadros e tudo quanto é mujimbo.
Na área de finanças, era uma loucura. Bastava entrar numa Secção, Repartição ou Departamento, perguntava-se logo: "Já viste a nova tabela? A pessoa ficava sem jeito. Não sabendo se é tabela dos campos do Afrobasket ou de quê. Afinal eram tabelas de vencimentos. Curioso é que, cada camarada apresentava a sua e vinha com ela já no bolso. Algumas tabelas eram piratas. Calha, que na altura havia poucas máquinas fotocopiadoras. Inclusive, em algumas fotocópias, os tais valores nem apareciam bem pela escuridão da dita cuja, por falta de tinteiros (Toner).
Na área de Pessoal e Quadros, a coisa era feia. Eh, o fulano é do órgão de concepção. O cicrano é adjunto disto e daquilo. O fulano é chefe a nível nacional. Notícias como estas. Olha, você já deu o nome? Epa, você está a dormir pa. Mas se você dá o nome, fica mais com o quê! É catuta pai. Os especialistas: olha, haverá bolsas de estudo na África do Sul, Portugal e talvez Brasil.
Um dos especialistas dizia, para já, só saio se for para a África do Sul. E você olha para o camarada, não tem inglês nas cordas vocais. A propósito, alguns à marreta começaram a familiarizar-se com aquelas inscrições instrutivas estampadas nas caixas de mercadorias: Box, Open, able, infoprint, round e por aí afora. Diziam de boca cheia, oh, eu! Inglês é comigo. Pela pronúncia você foge. Caro leitor, acompanhe só a pronúncia de um desses especialistas, quando o pedimos a botar fora o inglês que sabia. Round (Rundu).
Então, é no meio desta torrente de notícias que soube- mos das bolsas de estudo distribuídas à MGA, pela Direcção de Doutrina e Ensino/EMG/FAA. Para saciar esta fome de informação, ganhámos coragem e fomos ter com o chefe do Departamento de Quadros. Aí, nos foi dito direitinho. As bolsas são para estabelecimentos de ensino da República Federativa do Brasil. Uau. Botámos também os nossos nomes. Pois então, estava-se à espera da incubação do processo. E decretámos a prontidão combativa elevada. Qualquer toque, Taus.
Decorrido algum tempo, veio o comunicado; preparem os seguintes documentos: BI, certificados, seis (6) fotografias tipo passe, e tudo quanto é....
Cumpridas as formalidades devidas, agendou-se um encontro com o Chefe da Direcção de Doutrina e Ensino/EMG/FAA, Sua Excelência General José Maria.
Nessa coisa de preparem os documentos, apareceram dois camaradas que não tinham nada. Nem sequer BI. Sem BI não se pode falar em certificado. Não são da Marinha, mas de um dos Ramos. Não escrevo aqui qual. Para qué? São nossos, chega. Mas os camaradas tinham apostado ir mesmo ao Brasil. Afinal tinham comprado tudo, mas tudo mesmo, algures no Palanca.
No encontro com o chefe da Direcção de Doutrina e Ensino, foram postos de pé para elucidarem a plateia como o fizeram. Só sei que ficaram surdos-mudos. Mas enfim, como os nomes já estavam presentes em todo este processo seguiram a sua marcha triunfal.
Do encontro saíram as recomendações a serem observadas por cada bolseiro no país hospedeiro. No encontro, também nos foi dito, o que cada bolseiro receberia mensalmente como subsídio. E mais, de quatro em quatro meses receberíamos o respectivo valor. Na véspera da partida ao Brasil alguns camaradas, em jeito de aconselhamentos, nos diziam, epa para o Brasil não é necessário levar mala, mas sim uma sacolazinha, uns dois pares de calças, duas camisas e tal, porque lá já sabem como é.
Como o tempo não pára, chegou o mês de Março. As aulas no Brasil começam dia um (1) de Março. Estávamos para viajar uma semana antes, mas como se diz vulgarmente, caímos.
Dia sete (7) de Março de 1994, no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, na presença de alguns representantes do Estado-maior General (Doutrina e Ensino) e da Marinha, fomos kumbucados com dois mil dólares travell checados. No Bolso taus. Mas, como tínhamos pendentes com as famílias e kilapes, quase metade ficou no terreno, a contar já com os próximos quatro meses, conforme nos foi dito.
Eh, dentro do avião, um dos camaradas com o posto inferior ao meu, olha para mim e diz "Sangueve, ouviste o que Sua Excelência General José Maria falou no encontro? Cá para mim disse não. Pois, vamos ao Brasil "tirar cursos civis" e para já, a partir de agora somos civis e a partir também de agora não vou te bater mais pala, ouviu? Azar meu. Ouvi camarada, logo eu. Esse nome de João é azarado. Logo na música do proletário diz assim: mano João bateu na saia...., O Bessa Teixeira ou Handanga também dizem que o João depois da guerra voltou ao quimbo e quis ficar com a casa abandonada. É bué demais. Pronto, vais fazer mais como! Se é o problema que estamos com ele.
Acatando os conselhos dos camaradas e porque na verdade, não tinha mesmo, fui com uma sacolazinha, botei lá o menu do aconselhamento e em pessoa, vestido de uma pré-lavada e uns sapatos que até hoje me interrogo, onde os havia comprado.

 

 
 
 
 
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