Quero deixar a marinha bem equipada
CFR. Augusto Lourenço
Perfil |

Capitão-de-Fragata Celso Cruz, um homem popular |
O sol se encolhe no horizonte, projectando no aceno sombras de copas e edifícios. A brisa arejada pelas águas do rio Zaire procura atenuar o calor conservado durante o dia pelas paredes de cimento e tectos de lousalite.
É sob esse clima ameno que se regista o encontro com o Capitão-de-Fragata António Celso Cruz. Alto, gestos rápidos e comunicativo é um homem sem meias-palavras. A sua leve gagueira torna-se grinalda na verbalização do pensamento.
Ele nasceu na Baía Farta, mas considera-se um filho do Soyo, onde chegou pela primeira vez em Fevereiro de 1978, integrado na equipa da Marinha de Guerra que fundou a Base Naval do Soyo. Na altura, o Comando da Base era composto pelo actual Almirante Feliciano António dos Santos "Paxi". O Vice-Almirante Chico Maria era chefe do Estado-Maior e o actual Vice-Ministro da Defesa Nacional, Almirante Gaspar Santos Rufino, era chefe das Operações.
Partiu em 1980 e voltou ao Soyo 26 anos depois. Em todas as ruas e esquinas da cidade é saudado cordialmente por crianças, jovens e adultos. É um homem popular.
Ele nasceu aos 27 de Setembro de 1953. O pai foi motorista de camião da Câmara Municipal da Baía Farta e a mãe enfermeira do Posto. Ainda se lembra com saudade da vila e do bairro de pescadores madeirenses, algarvios e açorianos e dos tempos da bola no Juventude Futebol Clube da Baía Farta e na Académica da Baía Farta. Do velho Dimas - alto, forte e cambaio, do Fernando Wiki, que voava, comparando-se ao Valongo (estrela dos anos 60).
Depois de em 1958-61 ter vivido em Portugal com os tios, voltou à cidade de Benguela, onde jogou no Sporting local com Nando Jordão, Rank Frank, Soares, Zé Rocha e outros famosos da época.
Apesar de praticar futebol, onde Celso Cruz mais se evidenciou como desportista, foi no atletismo, sendo vice-campeão em 100 metros e campeão em 200 metros, em 1972, sendo por isso convocado para a selecção de Angola para participar nos jogos luso-brasileiros em Moçambique.
Foi em Moçambique, onde teve a honra de estar no mesmo hotel e fazer as refeições na mesma mesa com Mandázia e Zoma e o mais velho Roseira, atleta do Benfica de Luanda.
O campeonato luso-brasileiro não teve o sucesso esperado, devido às chuvas, mas mesmo assim Celso ficou classificado em 3º lugar atrás de dois brasileiros. Mais tarde, foi contactado para competir pelo Sporting de Portugal, mas a intenção não chegou a ser concretizada devido ao golpe do 25 de Abril de 1974, em Lisboa.
O embaixador Lima foi atleta do seu tempo. O "Parafuso", da Gabela, o Dr. Alima Antunes, campeão dos 110 metros barreiras.
Em Janeiro de 1974, ingressou no Exército português. Fez recruta no GAMA-Huambo - Escola de Aplicação Militar de Angola - na especialidade de Amanuense (Administração). Com o 25 de Abril, participa na revolta encabeçada pelos alferes Carlos Teixeira (Caji) e o falecido Vieira Dias (Vivi), mais tarde capitão das FAPLA e director da Escola Político-Militar Comandante Jika, em Luanda. Estes formavam a célula clandestina do MPLA que decidiu arrear a bandeira portuguesa.
Em Julho de 1974, Celso Cruz foi solicitado por Vivi para ir ao Congo-Brazzaville, mas ele recusou, inscrevendo-se para o primeiro e único curso de paraquedistas realizado no EAMA, em Angola, tendo como companheiros os actuais ministros da Indústria, Joaquim David, e dos Transportes Luís Brandão.
Depois do curso, regressou a Benguela. Com início dos confrontos entre os movimentos de libertação, ingressa nas FAPLA em Outubro de 1975 e seleccionado para frequentar um curso na República de Cuba.
Especializado em estações energéticas Diesel pela Academia Naval, em Maciel. mas o sonho com que regressou das terras do Caribe era o de ser juiz. Para o efeito trouxe na bagagem mais de 40 livros de direito.
Após o regresso, é colocado como chefe adjunto do DC-5 do navio Lira, comandado pelo Vice-Almirante Daniel Domingos António "Dany". Mais tarde promovido ao cargo de chefe do DC-5 e transferido para o Soyo.
Em 1980, saiu do Soyo para a Direcção de Logística da Marinha de Guerra Popular de Angola (MGPA), como chefe do Departamento da Técnica Naval e mais tarde chefe do Departamento de Construções da Decon. O chefe da direcção era na altura 1º Tenente Serigado, actualmente, brigadeiro.
Hoje com 55 anos, 33 dos quais ao serviço da Marinha, projecta um olhar sobre o rio Zaire e suspira calmamente. "Uma das maiores frustrações é ter encontrado as Oficinas Navais do Soyo destruídas pela guerra, depois de 26 anos antes as ter deixado intactas. É sua esperança ver o maior complexo oficinal da província do Zaire reerguido, pois o mesmo serviu de escola de formação para muitos jovens nativos que apoiam hoje a indústria naval e petrolífera". Anima-se e prossegue: "Aliás, a fase é nova e acredito no futuro. Quero ver a marinha com novos quadros imbuídos com uma nova mentalidade e equipado com novos navios para corresponder às suas responsabilidades no contexto da defesa armada do país. Portanto, quero deixar a Marinha bem equipada".
Funções exercidas
· Chefe de Máquinas do DC-5 da LT- N'Zage, cujo comandante era o CMG Conceição, actual Chefe do Estado-Maior da Zona Marítima nº1.
· Chefe de Secção de relações internacionais do Gabinete do Plano.
· Com a fundação das FAA, é colocado na Logística como Chefe da secção de obras. O chefe era o actual Contra-almirante Júlio Moreira.
· Chefe da secção Interna do Gabinete de Imprensa e Relações Públicas (Girp).
· Frequentou o curso no centro de documentação Histórica.
| Perfil |
· Nome: António Celso Cruz
· Filhos: 5 filhos (4 meninas e um rapaz)
· Netos- 4
· Tempos livres: Gosta de trabalhar no campo. Cuida do jardim e da horta, vê televisão e pratica desporto.
· Alimentação: Calulu (Bengalu, por ser benguelense)
· Bebida: Cerveja e vinho
· Qualidade: justiça e camaradagem
· Perspectiva: Depois da tropa gostaria montar um atellier de carpintaria e artes plásticas
· Música: Rumba, xaxáxá, música da RDC (Franco) e Semba.
· Habilitações literárias: Curso Geral de Administração e Comércio |
|