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Ano 5 - Edição 13 - Ago/Set/Outubro 2008 - Preço Kz 250,00
Destaques de capa
Fuzileiros Navais e os "NINJAS" treinam combate ao terrorismo
- Empresa Coreana faz entrega de lanchas da classe Mandume
- Marinhas da CPLP procuram reforçar cooperação
- Marinha do Brasil reage à reactivação da quarta frota Americana
+ CIÊNCIA E TÉCNICA
 
 

Os meandros da guerra da Crimeia

 

Nunca existe um motivo único para justificar uma guerra. Desentendimentos, disputas, diferenças de opinião e de crenças vão se acumulando ao longo dos anos e acabam sendo as verdadeiras razões de conflitos. O chamado "motivo" costuma ser apenas a "gota d'água".

O PANO DE FUNDO
A ironia da frustrada invasão russa por Napoleão em 1812 foi ter permitido e encorajado os Romanos a adquirirem importância na cena internacional. A Rússia de Catarina, a Grande (1729-1796) havia sido significantemente pró-britânica. Seu sucessor, Paulo I (1796-1801) tendia para Bonaparte, mas não viveu muito. Seu filho, Alexandre I (1801-1825) rapidamente realinhou a Rússia com os britânicos até o fim das Guerras Nepoleónicas.
Após a morte de Alexandre I em 1825, tudo mudou. Foi sucedido por seu irmão, Nicolau I (1825-1855), um tirano obcecado com expansão territorial. Isto levou a dois novos pontos de atrito na fronteira sul da Rússia: na tentativa de tomar a Criméia do Império Turco e na tentativa de desestabilizar os britânicos na Índia. Esta última ficou conhecida entre os britânicos como o "Grande Jogo" e, entre os russos, como "Torneio das Sombras". Seguiu-se um período de pequenos levantes e guerras locais, culminando com a Primeira Guerra do Afeganistão (1839-1842). A "Fronteira Noroeste" (as terras entre o Afeganistão e o Paquistão actual, onde se escondiam os Talibans e a Al Qaeda até 2001) do Império Britânico continuariam sendo um problema por mais um século de "Grande Jogo".

A GOTA D'ÁGUA
A Guerra da Criméia estendeu-se de 1854 a 1856. Aparentemente começou com uma discussão entre monges ortodoxos russos e católicos franceses sobre quem teria precedência sobre os locais sagrados em Jerusalém e Nazaré. Em 1853 os ânimos se acirraram resultando em violência e casos de morte em Belém (veja no mapa em 1). O Czar Nicolau I aproveita o incidente, provavelmente preparado: alega estar defendendo os cristãos que habitavam os domínios do sultão turco e seus templos na Terra Santa. Envia então tropas para ocupar a Moldávia e Valáquia (a actual Roménia - veja no mapa em 2). Em resposta, os turcos declaram guerra à Rússia. Com a guerra declarada, a frota russa destruiu a flotilha turca em Sinope, no Mar Negro.
Guerra da Criméia - Região do Conflito (1854-1856)Era mais movimento de ataque no "Torneio das Sombras", calculado para aumentar a presença russa no Mar Negro e, desta forma, ampliar sua influência por todo o Mediterrâneo e no Oriente Médio. Para evitar a expansão russa, os britânicos e franceses abandonaram uma rivalidade secular e decidiram declarar-se a favor dos turcos em 28 de Março de 1854. A Rainha Victoria, fazendo o "Grande Jogo", e Louis Napoleão III, imperador da França e sobrinho de Napoleão I, ansioso por repetir o sucesso militar do tio, enviam forças expedicionárias para os bálcans: os britânicos comandados pelo General Lord Reglan, que havia participado na batalha de Waterloo; os franceses comandados pelo Marechal St. Arnaud e, depois da sua morte causada pela cólera, pelo General Canrobert, ambos veteranos das guerras francesas na Argélia; os turcos pelo General Omar Pasha.
Em Setembro de 1854 os russos já haviam sido expulsos da Moldávia e da Valáquia. A guerra deveria ter terminado neste ponto, mas Lord Palmerstone, primeiro ministro britânico, decidiu que a grande base naval russa em Sebastopol constituía uma ameaça directa à segurança da região no futuro. As forças expedicionárias, então, se dirigem para a península da Criméia (veja no mapa em 3)

O DESENROLAR DA GUERRA
Apesar da vitória, os britânicos e seus aliados foram pouco competentes. A Guerra da Criméia tornou-se sinónimo de comando pobre e de fiasco em logística.

A península da Criméia
Em 20 de Setembro de 1854 os aliados enfrentaram os russos em Alma. Foi adoptado um plano simples: os franceses contornariam o flanco esquerdo (do lado do mar) do inimigo e, logo após, os britânicos fariam um assalto frontal. Devido à primeira de uma série de trapalhadas que caracterizaram esta guerra, os britânicos foram obrigados a atacar antes dos franceses terem alcançado seu objetivo. Lord Raglan avançou tanto que passou a dirigir a batalha atrás das linhas russas. Após cerca de 3 horas, os russos estavam completamente batidos e fugiram em debandada. Lord Reglan quis persegui-los, porém o Marechal St. Arnaud não concordou. O exército russo pode voltar para Sebastopol e o Tenente Coronel Todleben, um jovem génio engenheiro militar, começou a preparar as defesas da cidade.
As forças aliadas decidiram cercar Sebastopol. Os britânicos tomaram Balaclava sem derramamento de sangue e aí estabeleceram sua base de suprimentos. Os franceses tomaram o porto de Kamiesch que estava sem defesa. Começaram a chegar armas e munições para o cerco. Em 17 de Outubro de 1854 os aliados começaram a bombardear Sebastopol e, depois de dois dias de intenso bombardeio, não havia sinais de sucesso. Ao invés de se intimidar, em 25 de Outubro de 1854 o General Menschikoff ataca a milícia turca, que não suporta o ataque e recua. Outra força russa ataca as forças britânicas que fica ocupada repelindo os cossacos. Enquanto isto, os russos estavam calmamente recolhendo as armas britânicas deixadas para trás pelos turcos.
Lord Raglan passou a enviar ordens desesperadamente para a Brigada de Cavalaria Ligeira e para a sua infantaria, na tentativa de evitar que os russos se apoderassem das armas. Finalmente uma das suas ordens foi obedecida e o ataque da Cavalaria Ligeira começou - na direção completamente errada!
Dez dias depois, os russos atacaram novamente. A Batalha de Inkermann, como ficou conhecida, foi uma verdadeira carnificina: o número de russos mortos foi maior que o número de soldados aliados atacados. Após esta batalha as condições do tempo pioraram muito e as actividades dos aliados se restringiam em manter o cerco de Sebastopol. Durante o inverno de 1854/1855, a falta de suprimentos dos militares britânicos acabaram matando quatro vezes mais homens do que a acção do inimigo - milhares morreram de doenças, exposição ao frio e má nutrição. Um regimento de mais de mil integrantes, em Janeiro de 1855 estava reduzido a sete homens. Com a chegada da primavera começaram a vir agasalhos e roupas de inverno da Inglaterra. Era um pouco tarde!
Os ataques dos aliados falharam repetidamente da mesma forma que as tentativas dos russos em expulsá-los. Lord Raglan não resiste e morre em 28 de Junho de 1855. Finalmente, em 8 de Setembro de 1855, os aliados tentam novamente tomar Sebastopol. Os franceses tiveram sucesso, os britânicos falharam mais uma vez. Os russos são obrigados a recuar depois de uma defesa excepcional que manteve as melhores tropas do mundo paralisadas por mais de onze meses.
Após a queda de Sebastopol, a guerra da Criméia chegou ao fim. Apesar disso, as hostilidades ainda persistiram até Fevereiro de 1856 e a paz só foi declarada no final de Março do mesmo ano. Aos combatentes restou a medalha "Victoria Regina", das quais foram distribuídas 275.000.

 
 
 
 
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