A escada rolante (I)
CMG- Francisco D. Miranda
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Eram exactamente 11h 47m, horas de Angola, do dia 07.07.94, quando o avião Boeing 747, das Linhas Aéreas de Angola, sobrevoava o Atlântico, em direcção ao Brasil. A bordo da aeronave, os passageiros eram predominantemente brasileiros da Odebrecth, em gozo de férias, e os bolseiros angolanos, estes últimos, um pouquinho mais barulhentos. Havia bolseiros das FAA, bolseiros das Províncias de Cabinda, do Zaire, etc. Falava-se de tudo. Conversas e comentários divertidos, apimentados com algumas mentirinhas. Dentre as várias conversas, a que maior atenção me suscitou foi a da Escada Rolante.
Dois jovens bolseiros pelo Governo de Cabinda estavam sentados ao meu lado. Um deles dizia-nos que aquela era a sua segunda bolsa de estudos, que já tivera estudado na então Alemanhã Oriental, que falava fluentemente Alemão e defendia a tese, segundo a qual, a Alemanha era o maior centro do saber na Europa. Empinou o nariz quando falou de Albert Einstein. Falou-nos do relógio Big-Ben, da escada rolante nos largos corredores dos vários centros comerciais, culturais, políticos e económicos e, de tantas outras coisas. Mas, interessantemente e de forma intimidatória falava da escada rolante. Que era perigosíssima, sobretudo nos momentos de entrar e sair dela. Ele, próprio, dizia-nos, assistiu há vários acidentes de pessoas que tentavam, pela escada rolante, descer à estação de metro ou de ela sair.
Tentava, a todo o custo, aconselhar “amedrontar” o seu colega e amigo de Cabinda, que por sinal era mulato. Para, dizia-nos, evitar os riscos da escada rolante, melhor mesmo era usar a escada normal, com a santíssima paciência de não pular degraus. Porque no Brasil, segundo ele, também havia escadas rolantes.
O companheiro tentava, a duras penas, ocultar o medo, a dúvida e a vergonha. Mas a paciência, como tudo, tem limites e, respondera às provocações duma forma pouco abonatória. Então, ajustou o seu banco mais para frente e numa postura de contra-ataque, disse: ó Lubiebie Luangunga, você, está armado com a sua Alemanha, mas saiba que eu sou viajado. Conheço Portugal, Cabo-Verde, Ponta Negra e outros lugares deste Mundo, não às custas do Governo, mas por conta própria, ouviste?! Escada ou tapete rolante!... Eu andei nessa porcaria em Point Noir! Você e a sua Alemanha devem dar graças ao MPLA-PT. Aliás, você sabe bem que eu tenho famílias influentes, com bufunfa, nos EUA. Eu, não irei depender apenas da bolsa do Governo de Cabinda. Os meus primos em Chicago e a minha tia em Nova Jersey já me pediram o meu número de conta bancária do Brasil para, regularmente, depositarem os kumbús. Irei viajar mais ainda. EUA, Canadá, França, Bélgica, etc., estão na palma da minha mão e você, seu gabarola, ainda será o meu carrega-malas.
A conversa estava animadíssima e só não atingiu os picos de exaltação porque uma linda e educada aeromoça interrompeu-nos com o agradável convite para o almoço.
O mulato comia, comia vorazmente. Talvez o medo de, em poucas horas, ter que enfrentar a escada rolante do aeroporto do Galeão, tivesse aguçado o seu apetite. Do meu lado direito o Lubiebie Luangunga, comia ao estilo alemão. Seguia, a rigor, as regras aprendidas naquele país. Regra nº1: o garfo à boca e não a boca ao garfo, inclinando a cabeça ao prato, toda hora, feito passarinho. Regra nº2: sentado à mesa não devemos nos preocupar com as outras mesas, evitando assim rotacionar o pescoço 360º, feito uma bússola magnética. Enfim, outras regras o Lubiebie foi observando enquanto comia. Depois, aproveitou a ocasião para murmurar qualquer coisa em alemão, enquanto comia, à aeromoça. Deve ter dito obrigado pele deliciosa comida e pediu, tenho absoluta certeza, uma cerveja Heineken. Cerveja alemã era a sua predilecção. Até na festa da sua formatura, só choveu cerveja alemã.
Eu, sentado no meio dos dois, assumia, agradavelmente, o meu papel de “moderador”. Confesso que o meu peito inflava de satisfação por me encontrar sentado, no meio de dois grandes comediantes. O que mais eu poderia desejar? Uma comida gostosa e uma discussão quente, proporcionavam-me um momento ímpar.
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