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Ano 5 - Edição 14 - Ago/Set/Outubro 2008 - Preço Kz 250,00
Destaques de capa
Mulheres embarcam no projecto de uma marinha moderna
- Golfo da Guiné e a defesa dos seus interesses vitais
- Angola reassume presidência das marinhas da SADC
- Quem foi Napoleão Bonaparte?
- Marinheiros vencem jogos militares no Luena
+ CRÔNICA
 
 

A escada rolante (II)

CMG- Francisco D. Miranda

Olá…! Olhei lá para o fundo da sala de desembarque e notei um movimento estranho. As pessoas caminhavam convergindo para um mesmo ponto. Depois, reapareciam perfiladas e de forma ordeira, movimentavam-se ascendentemente, sem moverem os pés. Eu, se não tivesse antes visto a escada rolante na ex-URSS, com certeza que ficaria pasmado com tudo aquilo. O meu lado supersticioso teria vindo á tona. Não acredito na levitação e também sei, pela Igreja, que as almas voam ou vagueiam por aí, mas o corpo, com o seu peso, fica. Não pode voar, não pode levitar pura e simplesmente. Aliais, o grande Isaac Newlton nos seus vários postulados, exultou-se com as suas três grandes leis da física. Provou, baseado nas suas estonteantes teorias, que a força da gravidade fez do homem praticamente um réptil. A única diferença é que este rasteja sem cauda. O record, no seu salto em altura, jamais alcançará os três metros. Voar sem observar as leis da física jamais! Alucinados e loucos temos por demasia. Mas loucos ou alucinados que voem, ainda não apareceram na face da terra.
Olhei, de soslaio, para o nosso amigo que conhecera a escada rolante em Point Noir e percebi o seu desespero, aliais o pecado que fizeram com ele. Coitado, parecia um touro acuado. Tentava escapar, mas sem brecha para os bravos toureiros. Não havia escapatória. Tinha que entrar na arena. O que antes era para mim divertido, agora, já se tornava doloroso. Sentia pena do camarada. Humanamente falando, eu devia ajuda-lo. Mas, mandei lixar, quando lembrei-me das suas bocas no avião. O gajo, era muito bocudo. Aquela anedota da família nos EEUU deixou-me irado. Seja o que deus quiser, mas agarrar ou equilibrar o carcamano para não cair, isso não faço!
Eu, caminhava bem atrás dele, evitando que a presa escapasse. Quando ele tentava olhar para atrás eu fazia-lhe uma careta, advertindo-o a não ousar fugir. Afinal a sentença estava dada e eu era apenas o profissional carrasco. O Lubiebie Luangunga caminhava a frente, feito um juiz que pretende, pessoalmente, confirmar a execução da pena. Fumava um charuto, daqueles que compramos nas lojas francas dos aeroportos. Juntou-se a um branco alto e loiro e lá estava ele exercitando o seu alemão. Ainda, para dissipar dúvidas, vestiu sacramentalmente o seu paletó alemã, mesmo desgastado pela força do uso.
Fiquei sabendo mais tarde que o camarada usava, com frequência, o seu paletó em Cabinda e que nem sequer se incomodava com os solstícios de verão daquela província. Em Lândana, Miconje, Cacongo, Belize, Bucu-zau e outros lugares de Cabinda fala-se do alemão-negro, vulgo Lubiebie Luangunga Mangá Makaiká Bulatí.
O Lubiebie entrou na escada rolante quase que de costas, fingindo não dar por ela. Uma pura demonstração de desprezo à escada e de insulto ao seu camarada e a mim também. O nosso amigo manhinga, das FAA, vinha descompassado. Ao divisar a escada rolante, parou. Concentrou-se, acertou o passo e, imitando um outro passageiro, deu um pulo para frente e entrou. Mesmo de forma desajustada conseguiu sair da emboscada, transpondo o campo minado. Num instante eu pensei: mas se o nosso compatriota “viajado” cair a vergonha será de todos nós angolanos. Devo dar-lhe a mão. Afinal, é mesquinho nos divertirmos com o sofrimento do próximo. Tentei então remediar a situação, dizendo-lhe que a escada rolante de Ponta Negra era maior do que esta e muito mais inclinada, ou seja, mais perigosa. Mal terminei de encoraja-lo o meu camarada, já caído, rolava escada feito um saco de bombo, ou melhor, de ginguba. Digo de ginguba porque o gajo levava ginguba no bolso do casaco e toda a ginguba rolava a escada abaixo, para a minha grande vergonha. Cabinda terrível, Cabinda desgraçado! Também, só poderia ser mulato de Cabinda. O passaporte do gajo escapou do bolso e desfilava escada acima, e via-se estampado em letras douradas «República de Angola – Passaporte». Este foi o culminar de uma vergonha sem limites. O cachorro gritava feito um porco. Dois policiais correram para socorre-lo. Puseram-no de pé enquanto o acalmavam. O tipo assustado, parecia um dikombe. Cheirava mal, até nas axilas, de tanta adrenalina.
O alvoroço foi tanto que outro angolano espalhou, aos seus compatriotas, o boato de que um angolano estava sendo espancado por dois policiais. Que confusão! Jornalista, funcionários das Nações Unidas para os direitos humanos, bombeiros, ambulâncias, passageiros de outros voos, enfim… todos ocorreram ao local, para in-loco constatarem que um gorila do Maiombe havia caído na escada rolante e que quebrara um dente. Se fosse dente de elefante, talvez o marfim gerasse, outra confusão dentre os presentes. Agora, dente com carie de um gorila, Deus que me acuda. Tanta era a dor que o sacana chorava em fiote. A ambulância levou o tipo para um hospital próximo. Dias depois, o sem – vergonha apareceu-nos em Curitiba – Paraná para contar-nos, não a historia da escada rolante. Explicar-nos como é que foi, porque caíra, não! Veio com histórias de Copa Cabana, das cariocas e do samba. Mentiroso, como sempre, contou-nos outras mentiras. Que ficou cinco dias de convalescença num hotel de cinco estrelas lá em Copa Cabana e que viu Ronaldo e Roberta Miranda em carne e osso enquanto hospedes vizinhos do mesmo hotel.
Termino, porque esta conversa asquerosa do malandro me causa ânsia.

 

 
 
 
 
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