Lelinha, do Mayombe para o Navio “27 de Março”
Desde muito pequena, ela ingressou para as fileiras das Forças Armadas e na clandestinidade cresceu. Viveu e conviveu com grandes nomes da guerrilha Angolana. Lelinha Barbosa da Costa e Silva, filha de Adelino da Costa e Silva e de Rosa António, nasceu em Cabinda e cresceu no interior da então 2ª Região Militar. A convite do Primeiro Presidente de Angola o Dr. António Agostinho Neto, abraçou a causa da nação, esquecendo os seus sonhos de menina. Lada-a-lado com os homens viveu as peripécias da guerrilha, até certo dia ser escolhida para fazer o curso de Radiotelegrafista. Saiu das matas para a então Rádio Naval e daí para o Navio “27 de Março” quando as maiores potências do mundo em termos de Marinha ainda não haviam pensado em embarcar uma senhora a bordo de um navio de guerra. Conheçam a história toda!
RM- “Zâmbia” por que?
LBCS - Este nome me foi dado pelo cda Calicas no CIR “Certeza”. Como eles ouviram dizer que eu vinha de fora do país, não se preocuparam em perguntar qual era a área em que eu estivera na guerrilha, logo passaram a chamar-me de “Zâmbia”. E assim o nome ficou até hoje.
RM- Quantos anos tinha quando entrou para a guerrilha
LBCS - Tinha por aí os meus 6 anos.
RM- Podes dizer-nos quais as regiões em que esteve durante a guerrilha?
LBCS - Em 1968, após uma das famílias de meu pai ter dado sua fazenda para que o MPLA se instalasse em Dolisie e aí formar seus membros .Numa das passagens do Cda Dr. A.A.Neto de Brazaville a Dolisie descobriu o meu pai e pediu que fossemos para Dolisie, local onde se formavam os pioneiros, futuros guerrilheiros para a libertação do país. Eu tinha 6 anos, a minha irmã Helena, 9 anos e a Otelinda, 12 anos. Daí fomos para o Internato 4 de Fevereiro. O nosso trabalho era o de abastecer os guerrilheiros da Base Ngangula, Esperança, CIR Calunga e Zona A e Zona B.
RM- Quem era o Comandante nessa altura?
LBCS – No internato o director foi o Sr. Luís da Costa, depois foi Alé Fernandes. Depois de sairmos das matas, em 1975, fui encaminhada para o CIR “Certeza”, onde fiz a instrução militar e aí quem era o director foi o camarada Nito Alves. Depois do camarada Nito Alves sair, foi substituído pelo camarada Bob. Foi aí onde escolheram alguns de nós para irmos fazer o curso de radistas em Kibaxi. Depois da libertação da área do Piri -Kibaxi voltaram a escolher outro grupo de militares para virmos à Rádio Naval, em Luanda. Na Rádio Naval tive a oportunidade de fazer o curso de telegrafia. Como o Comandante da Marinha na altura era o camarada Força- Maior e este esteve comigo nas matas, manifestei interesse pelo ramo da Marinha e aproveitei falar com ele, foi então que me colocaram no navio “27 de Março”. Trabalhei neste navio durante dois anos.
RM- Durante o tempo de navegação a bordo do navio 27 de Março o que é que mais lhe marcou?
LBCS- Sorrisos…, Gostei quando nós tínhamos que ir levar tanques de guerra para Soyo e Cabinda. Do convívio com os meus novos colegas de arma e por estes me aceitarem sem restrições.
RM- Como se sentia ao lado de todos aqueles homens sendo a única mulher?
LBCS – O convívio entre homens era salutar. Como já disse, ser mulher e estar só no meio de muitos homens era uma experiência muito dura para mim, mas o espírito de contribuir para a defesa desta terra-mãe não me fez vacilar e ali estava eu ao lado dos homens e a trabalhar lado a lado com eles num convívio salutar. Quando tivéssemos que ficar no largo a espera de uma autorização para atracar no cais, ficávamos a pescar e isso agradava-me imenso.
RM- Descreva um pouco como queimavam esse tempo de espera ou de lazer no navio?
LBCS – Eles como sabiam que eu viera das matas, estavam curiosos em saber a minha história e experiências. Como pioneiras, a nossa tarefa era a de abastecer os militares nas diversas frentes de combate e eles queriam ouvir e saber detalhes de como nós nos virávamos para fazer chegar os alimentos e material de guerra até àquelas posições. Aquilo era subir e descer grandes montanhas e elevações, muitas vezes debaixo de fortes chuvas, quando estes fossem torrenciais ficávamos debaixo das árvores e aproveitávamos enxaguar as roupas enlameadas durante a caminhada com as águas que escoriam das folhas das árvores. No meio de todo aquele sofrimento nós tínhamos mesmo que aguentar, andar de baixo da chuva, botas encharcadas com água, muitas vezes a roupa ficava molhada no corpo durante dois dias, acabávamos por ficar doentes e certas vezes tínhamos que interromper a caminhada e outros voltarem com os doentes.
Quando houvesse um guerrilheiro ferido, nós tínhamos que fazer o papel de socorristas, improvisar pensos para estancar o sangue, até que chegasse o grupo de reforço ou paramédicos que o levassem ao hospital de Dolisie. Muitos caíam nas minas, lembro do caso do Cmdte Kiluange e Eurico, tivemos de lhes acompanhar até ao hospital de Dolisie.
Contava-lhes como em Dolisie, me procuraram para recitar aquele poema do Dr. António Agostinho Neto “Havemos de voltar” e como eu não estava presente quem o recitou foi a “Maravilha” e lhe ofereceram esferográficas estampadas com símbolos do MPLA.
RM – Qual era o papel de um pioneiro na guerrilha?
LBCS -Como pioneira, o nosso trabalho era o de abastecer os guerrilheiros, então davam-nos munições e armas. Tínhamos de sair na calada da noite do Congo, para irmos na área da “Base Ngangula”, Cala-Boca... quando chegassemos perto dessas posições, as mais crescidas avançavam com as armas e nós ficávamos à espera delas num ponto previamente escolhido e fora do alcance dos tiros e se por qualquer razão nós ficássemos entre os dois fogos, aí nós aplacávamos e a todo custo procurávamos nos safar.
RM- Naquela altura, como é que a sociedade via as
mulheres militares?
LBCS- Naquela altura, diziam que as mulheres que estavam na vida militar era porque não tinham o que fazer, mas se esqueciam que também nós estávamos a cumprir uma missão em prol da pátria. Queríamos defender o país, estar lado-a-lado com os homens. o patriotismo estava dentro de nós. O que mais importava era defender a pátria e não os falatórios do bairro ou da rua. Aliás, desde o CIR, nós estávamos preparadas para enfrentar esse tipo de falatórios. Essa discriminação só se notava nas cidades porque nas matas, orgulhavam-se de nós e éramos bem tratadas pelas populações.
RM- Como conheceu o seu marido, já ele era militar ou era civil?
LBCS- Bom! Eu sempre gostei de ter um marido que fosse militar, pois me sentia mais protegida ao lado de um soldado que de um civil. Aliás, sempre senti um fraco pelos tropas (confessa, meio tímida), o militar conhece melhor as peripécias da vida. O meu marido foi militar na altura e continua militar até ao momento.
RM- Caso não surgisse o príncipe encantado fardado, aceitaria um civil?
LBCS – Em parte sim! (… sorrisos, um olhar no céu como se de lá brotasse a resposta e enfim, cai outra confissão) - os civis tinham medo de juntar-se com uma mulher militar, por temerem que a mulher pegasse na arma sempre e quando houvesse briga em casa. Mas se o meu príncipe fardado não aparecesse é claro que aceitaria um civil, porque não? Tenho a certeza que esse homem saberia respeitar-me e amar-me.
RM- Ainda se lembra de alguns colegas de armas do CIR ou do Navio 27 de Março?
LBCS – Sim. O meu Cmdt do navio foi o CMG-Fernando Maria, o 2º Cmdt foi o Alexandro, Ch.Máquinas o CALM-Caetano Neto, Comissário Político o CMG-João Manuel Ambrósio,o Contra-mestre manuel Afonso,o CFR- António José Sequeira,Kissonde, Romeu,alguns são falecidos e os nomes me fogem da memória.
RM- Sente saudades dos tempos em que foi militar?
LBCS – Sinto mais saudades dos momentos vividos a bordo do navio. Era uma outra experiência depois das amarguras da guerrilha. Lembro-me quando ficávamos a desoxidar o casco do navio ou a pintá-lo.
RM- Qual a sua primeira patente nas FAPLA?
LBCS – Foi de Tenente.Acho que conquistei a patente fruto da minha dedicação ao trabalho, pois nunca faltava ao trabalho, mesmo quando me sentia doente, estava sempre em prontidão combativa. Então propuseram-me ao cargo de chefe do Centro Fixo de Comunicações dos navios da Brigada. fui patenteada ao grau militar de 2º Tenente (1979). Três anos depois, fui promovida a 1º Tenente e colocada no Comando da Marinha. A minha última patente foi a de Major (Capitã de Corveta), nessa altura estava na Base de Manobras do Namibe.
RM- Como mãe aceita que seu filho venha a ser militar?
LBCS – “Filho de peixe é peixe”. Este é o meu desejo, sim. Um de meus filhos seguir o mesmo caminho por mim trilhado e fazer carreira.
RM- Uma mensagem para a nova geração de mulheres da Marinha
LBCS – Gostaria que as mulheres sentissem que têm os mesmos direitos que os homens, que se enquadrassem na Marinha. Nós devemos nos sacrificar por ela. Até agora poucas mulheres encontram-se a navegar, sou a primeira, não quero a última senhora a ser embarcada numa unidade de superfície. Outras mais devem seguir o meu exemplo. Um Marinheiro é aquele que conhece os segredos do Mar”.
RM- Também é apologista da criação do Clube do Marinheiro?
LBCS – Sim! Primeiro é que muitos dos antigos Marinheiros na Reserva ainda sentem-se com forças para fazerem qualquer coisa para o Ramo, mas não têm como fazê-lo, pois não existe um local onde o possam fazer. Com a criação desse clube, os velhos já poderiam transmitir aos mais novos as suas experiências e conhecimentos e estes beberem da nova geração algo sobre a tecnologia moderna, assim como serviria de ponto de reencontro dos velhos Marinheiros.
RM- Marinha ontem, Marinha hoje...
LBCS – A diferença é bem abismal. Começando pelas infra-estruturas, homens e pelos meios técnicos. Temos poucas Unidades de Superfície no mar, mas acredito que dentro da Política de Defesa do Estado, já se está a trabalhar no reequipamento da Marinha. Ontem tínhamos um inimigo identificado e este era interno. hoje o nosso inimigo não está identificado e toda a nação ribeirinha que não tenha uma Marinha a altura, todo o seu projecto de desenvolvimento pode soçobrar, porque não conseguirá defendê-lo de seus agressores.
O Camarada Presidente Neto sempre dizia “A Marinha é necessária”. Para se fazer o presente é necessário rever também o passado, pois só corrigindo os erros conseguimos evoluir.Hoje noto uma forte aposta do ramo no rejuvenescimento dos seus quadros e prova disso é a presença de muitos jovens a serem formados dentro e fora do país.
Perfil
Nome Completo: Lelinha Barbosa
da Costa e Silva
Pai: Adelino da Costa e Silva
Mãe: Rosa António
Data de Nascvimento: 16 de Janeiro
de 1962
Naturalidade: Cabinda
Habilitações: 12ª classe
Nº de Filhos: 6 filhos
Ano de ingresso na Guerrilha- 1968
Maior Sonho: Lutar e Tombar pela pátria
Bebida: Sumos
Comida: Cozido e saca folha
Música: Franco e Tabuley
Maior desejo: Ver a Marinha bem
equipada e desenvolvida |