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Ano 6 - Edição 15 - Maio/Junho/Julho 2009 - Preço Kz 300,00
Destaques de capa
Marinha captura três embarcações perto de Luanda
- Marinheiros resgatam flagelados do Cunene
- Americanos querem apoiar montagem do sistema de observação costeira
- Posição estratégica do Soyo atrai marinheiros
- Efectivos das FAA movimentam radionovela "Camatondo"
CRÓNICA
 
 

"Perseguição Implacável”

 

No limite da exaustão, cambaleante, corre para vencer os escassos metros que o separam da floresta. Em sua perseguição estão militares brancos e uma meia dezena de cachorros. Dentre os cachorros correm a frente três possantes pastores- alemães seguidos, por perto, por dois ferozes ( dog-mans).
O fugitivo consegue, por vontade divina, embrenhar-se no mato, antes de ser alcançado. Na floresta, a sobreposição das sombras das árvores resulta numa espécie de escuridão boreal. A cor do homem preto confunde-se com o meio, um verdadeiro mimetismo. Tem a sensação de mergulhar no seu habitat. Os macacos, os pássaros, as serpente e muitos outros bichos, solidários com a entrada triunfante do irmão negro festejam, com uma algazarra há muito não vista na floresta.
O perseguido consegue, no seu último fôlego, transpor o rio pisando nas costas do jacaré, como ponto de apoio para um grande salto à outra margem. Desesperado, não percebeu que aquele tronco flutuante fosse o dorso de um grande jacaré, faminto e voraz. Passou, não porque a fera estivesse distraída mas, como já fiz referência, porque todos os bichos da floresta estavam solidários à fuga espetacular do irmão-negro.
Os cães, que nem furacões, rompem a floresta. Entra o primeiro, depois o segundo. O terceiro e o quarto entram em simultâneo. Mergulhava o último, quando se escutaram latidos agonizantes dentro da floresta. Um dos Dog- Man estava caído e enroscado por um grande pitão castanho- escuro. Nós os nativos, descrevemos este dramático quadro com uma curta frase: “ imbua ai dimbi Ku moma” os outros cachorros encolheram as suas caudas e deram às de vila-diogo.
Chegam os militares. Entram de mansinho e em fila indiana para a floresta. Isso de entrarem fila – indiana não é nenhuma táctica militar, é o medo! Ninguém te engana?!
Para atravessar o rio, o primeiro soldado pensa igualzinho ao nosso fugitivo. Pisa na pedra que se situa quase ao meio do leito para, como ponto de apoio, realizar o salto. Azar! Desta vez a pedra resvala, abre a bocarra e com aqueles caninos mortais prende o soldado pela perna e ambos mergulham para as profundezas. Do fundo, sobem bolhas efervescentes que se concentram na superfície formando espuma , dando a agradável aparência de um copo de cerveja ao meio–dia, apavorados, um dos militares embate-se, ao recuar, contra o tronco de uma planta trepadeira. Um cachino de vespas africanas – selvagens “ marimbondos” desprende-se do ramito, onde estava pendurado e, cai exactamente no pescoço do chefe. Alguns marimbondos penetram, como fluídos, para o interior de sua farda. Mano, não te conto!!! O chefe dançou mais rápido que um “cu durista”. A única diferença, notória é que este dançou com o semblante carregado de dor. A dor insuportável forçou-o a dar dois pulos em direcção a um dos seus subordinados. Abraça o pobre soldado e juntos partilhavam a dor dançando algo confuso. Pareceu-me ser uma mistura de salsa com a dança flamengo. Enquanto isto o fugitivo, agora escoltado por uma legião de macacos, de cobras, de largatos, de sapos e de tantos outros habitantes da floresta, sente-se, em máxima segurança e avança de forma corajosa e triunfante mais para dentro da mesma. Já bem distante de seus perseguidores, sente-se aliviado e decide parar para um breve descanso. O sono, traiçoeiro, acaricia, devagarinho, os seus cabelos e beija, suavemente, o seu rosto. Dormia pesado e profundamente, quando, de repente, o seu lindo sonho de “anjinho negro” é interrompido por um pesadelo.

“Anjinho Negro”
Voava baixinho sobre a floresta do Congo. Maravilhado com a sua vastidão, pensei subir mais um bocadinho. Lá do alto, não tive a sensação do cosmonauta russo yuri Gagarin que, viajando a velocidades superiores a 18 km/s o azul dos oceanos e mares, sobrepondo–se ao verde das florestas e ao castanho dos desertos e a terra ficando distante e ganhando a sua forma esférica. Enfim, contemplação divina. Eu voava a escassos metros acima da copa das árvores mais altas da nossa floresta Africana; a mais 110 metros de altitude. Começava a sentir a exuberancia e a fragância do nosso Mayombe, quando, de repente, um grupo de aproximadamente onze anjinhos brancos, vindo das alturas, circundou o pequeno, tímido e assustado “Anjinho Negro”.
Eu quis apenas exultar-me do nosso Éden, mas o mais gordinho dos anjinhos brancos, de rosto rosado, cabelos loiros e olhos azuis, agarrou –me, maldosamente, no pescoço e deu –me duas cabeçadas seguidas de um soco forte na boca- do- estômago. Desfalecido, ainda pude escutar gargalhadas e alguns comentários, como: esses diabinhos negros não podem voar alto e em liberdade. Quando recuperei, estava sem plumas e preso no robusto ramo da maufemeiro, árvore milenária da nossa flora angolana. De repente, e de todas as direcções, uma saraiva de flechas disparadas contra mim. Lá em baixo, um grupo exagerado de pigmeus tentava, a todo o custo, alcançar–me. Uns disparando flechas, outros subindo pelas árvores circunvizinhas, mexiam, violenta e assustadoramente, os seus ramos, gritando e fazendo–me caretas. Um diabólico alvoroço!

Continua da próxima edição

 
 
 
 
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