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Ano 6 - Edição 15 - Maio/Junho/Julho 2009 - Preço Kz 300,00
Destaques de capa
Marinha captura três embarcações perto de Luanda
- Marinheiros resgatam flagelados do Cunene
- Americanos querem apoiar montagem do sistema de observação costeira
- Posição estratégica do Soyo atrai marinheiros
- Efectivos das FAA movimentam radionovela "Camatondo"
DOSSIER
 
 

“Feitiço” do Soyo atrai marinheiros

CFR. Augusto Lourenço Soyo é prioridade do Comando da Marinha

- O chefe já trabalhou no Soyo?
- E quem nunca trabalhou?

É dessa forma que o Capitão-de-Mar-e-Guerra Raul, que trabalhou no Soyo mais de 3 anos, reagiu à questão apresentada pela Reportagem. Realmente, ser marinheiro e não conhecer o Soyo é como se a um soldado faltasse a cerimónia do Juramento de Bandeira após o cumprimento do período de recruta. Não se é verdadeiro soldado sem se ter feito a recruta e jurado Bandeira.
Para um marinheiro, o Soyo é o ritual de passagem obrigatório para a maioridade. Por isso, o município, além do seu papel histórico antes e depois da chegada das caravelas portuguesas em 1482, cuja missão era a procura do caminho marítimo para as índias, é algo sagrado que cada marinheiro guarda em suas lembranças.
Não só pelo facto de ter servido de forja na preparação militar dos oficiais e marinheiros, mas porque a localidade contribuiu fornecendo muitos dos seus filhos, que ocuparam ou ocupam cargos importantes no Comando da Marinha. Francisco Maria Manuel, Augusto Pedro, António Maria Fernando, Timóteo Isabel, Tito Garcia, Camilo, Tomás, João Alexandrina, Marcos Maiunga, Paulo Maria Gomes e Kosi Alexandrina para citar apenas alguns. Entraram ainda muito jovens, mas já traziam experiência e sensibilidade para a navegação, graças a sua proximidade com o mar.
O Soyo possui uma localização geográfica que a torna estratégica para o monitoramento das fronteiras nacionais. A partir dele pode-se controlar o movimento de entrada e saída de embarcações no Rio Zaire e o controlo de imigrantes ilegais e de mercadorias. Aliás, no âmbito do projecto do Golfo da Guiné, a localidade tem uma palavra a dizer, porque daí pode-se chegar facilmente em países como Congo Brazzaville, Guiné equatorial, Gabão etc.
Não foi obra do mero acaso, a construção da Base Naval do Soyo. Durante a 1ª Guerra de Libertação os portugueses utilizaram-na com a mesma perspectiva, por isso construíram infraestruturas importantes. A Base Naval do Soyo estava equipada com um centro de comunicações, com meios muito modernos para a época, a unidade de fuzileiros, oficinas navais e outras estruturas de apoio. Além destas infraestruturas, ao longo do troço fluvial criou unidades em localidades como: Kissanga, Pedra de Feitiço, Sacala-Mbaka, Nóqui e Massabi, na província de Cabinda.
Na altura em que ainda não se falava em exploração de petróleo, a Base Naval do Soyo constitui-se em pólo de desenvolvimento da cidade, criando postos de trabalho para as populações locais.
Aliás, a construção da cidade do Soyo contou com grande concurso da Marinha Portuguesa, chegando ao ponto de em determinada altura o Comandante da Base ser simultaneamente Administrador local.
Segundo o Capitão-de –Mar-e-Guerra João Alexandrina, durante o seu mandato construiu mais de 60 casas para os marinheiros e ajudou os trabalhadores da Instituição na obtenção de crédito para a construção de suas habitações. Bairros como Tari-Tari, Kicalakiako, Kikudo, Nkungu-e-yenguele conheceram um grande impulso no seu desenvolvimento.
Após a independência, as primeiras missões foram igualmente realizadas no Soyo, tendo a Marinha apoiado o transporte de tropas terrestres, armamento e carros de combate, que participaram de forma decisiva na libertação da província. É também no rio Zaire, Soyo, que o navio “Escorpião” realizou o seu primeiro combate. Saliente-se que na véspera do 11 de Novembro, o Soyo e suas populações jogaram um papel crucial na captura dos mercenários que procuravam chegar a Luanda.
Após a independência, a Marinha de Guerra Angolana chegou pela primeira vez em Fevereiro de 1978 ao Soyo. Na altura, o Comando da Base era composto pelo actual Almirante Feliciano António dos Santos "Paxi". O Vice-Almirante Francisco Maria Manuel era chefe do Estado-Maior e o actual Vice-Ministro da Defesa Nacional, Almirante Gaspar Santos Rufino, era chefe das Operações. O Soyo ocupava assim o papel importante na nova estratégia de controlo das fronteiras.
Muitos marinheiros chegaram jovens ao Soyo, fizeram amizades e inclusive constituíram suas famílias. Os sotaques se misturam nas ruas e locais de convívios da cidade que cresce veloz, tornando-se na mais cosmopolita da província.
As perspectivas do Soyo são extremamente animadoras. Com a implementação do projecto da ponte que ligará a localidade à província de Cabinda, numa distância de 60 Km, com a conclusão da reabilitação da estrada Luanda-Soyo, reduzindo a viagem para 4 horas, tornará o futuro mais promissor. Em termos de perspectiva Soyo é a localidade angolana, das mais promissoras, se tivermos em conta o aumento da exploração de petróleo e a instalação da fábrica de gás liqueifeito já em curso. É um ponto de convergências de populações que vêm de Luanda, Cabinda e de dos dois congos.
Os laços que se criaram no convívio entre as populações e os marinheiros na cidade do Soyo, no Sumba, na Ponta do Padrão, arredores da Ilha da Kissanga e na Pedra de Feitiço tornam o município inseparáveis de todo o projecto de desenvolvimento da Marinha de Guerra Angolana e do país.
Aos que partem depois do convívio, as lembranças guardam os aspectos mais salientes: De 1999 a 2002, o Vice-Almirante Pedro Vemba era o Comandante da Zona Marítima Norte. “Era um período de guerra e de muito sacrifício. Era preciso proteger as áreas de exploração de petróleo, já que a missão do inimigo era destruí-las. A área de responsabilidade era extensa, tais como Cabeça-da-Cobra, Quinfunquena (a maior exploração de petróleo em terra), Manga-Grande e Binga. Era muito trabalho num contexto em que as dificuldades se avolumavam. Com o regresso do Fuzileiro da RDC a Marinha elevou o seu grau de prontidão e de combatividade consolidando a defesa dos objectivos económicos. A Marinha cumpriu cabalmente o seu papel, mas devemos dar graças ao apoio e a coragem das populações locais”.
Cada um tem a sua lembrança. O CMG Valentim Butoto, chegou ao Soyo no último trimestre de 1987, ainda 2º Tenente e saiu de lá em 2002 com a patente actual. Apesar das dificuldades inerentes a guerra a Base Naval do Soyo é, para ele a melhor unidade, e que o formou como homem e como militar.
Seu comandante era o Vice-Almirante João dos Santos Gregório Victor “Jojó”. CMG Butoto lembra com saudade daquele tempo. Ele conta que o Vice-Almirante Jojó, até a sua saída em 1991, foi considerado um dos melhores comandantes entre os demais comandantes das unidades estacionadas no Soyo. Na sua carreira militar soyo foi uma verdadeira universidade onde aprendeu o essencial para a vida: “A solidariedade, a amizade e a coragem são marcas de que não posso me esquecer. Os marinheiros são os filhos queridos das populações do Soyo”.

 

 
 
 
 
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