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“Devemos nos aplicar
mais como marinheiros”
| CFR- Augusto Lourenço |
Francisco José |
Queria ser piloto aviador da Força Aérea Nacional, mas acabou na Marinha, são os dribles do destino. E aqui já ocupou os cargos mais importantes até atingir o de Vice-Chefe do Estado-Maior do Ramo. Seu nome é Francisco José, mais conhecido por Chico Zé.
A simplicidade, a modéstia e o rigor são alguns traços que saltam à vista logo no primeiro contacto com o Vice-Chefe do Estado-Maior. Solicitado para a entrevista, não se fez rogado, abriu o livro de memórias e descreveu as circunstâncias que envolveram o seu ingresso nas Forças Armadas e o seu percurso até hoje.
RM: - Excelência, há quanto tempo está na Marinha?
Estou na Marinha desde Setembro de 1976. Mas o meu historial nas Forças Armadas vem de há muito. Eu entro nas FAPLA em 1974, …estou na 1ª Região (Região do Piri e Úkua) em Janeiro de 1975. Fui instrutor no Centro de Instrução do Mussengue, situada na região do Úkua, até que a UNITA toma a referida região localizada na linha Caxito-Uíge, em 1975.
RM: - Em que circunstâncias entrou para a tropa?
- Eu Fiz recruta no curso de Sargentos do Exército Português no Huambo. Devido as actividades das células do MPLA constituídas na escola e do assédio por parte da UNITA em querer levar quase todos os jovens que estavam a fazer o curso, nós conseguimos sair para a 1ª Região. Depois disso, em Ndalatando, formaram-se os primeiros três Batalhões por instrutores Cubanos. Ainda com assessoria Cubana, nessa altura, sou indicado como Comandante do 3º Batalhão que actua no troço Ndalatando-Luinga-Camabatela. Aos 10 de Novembro de 1975, saio do Luinga com o batalhão em direcção à Quibala para reforçar a Defesa da Região Sul, por causa do avanço das tropas Sul-Africanas. Os demais Batalhões foram para a Zona Norte. No dia 10 de Novembro, saio com o batalhão à meia-noite, mesmo na altura em que o Camarada Presidente Agostinho Neto estava a tomar a palavra nós estávamos a descer o Luinga. Deixámos uma Companhia na Barra do Kwanza e eu com as duas companhias subi para Quibala. Da Quibala, devido a necessidade de se reformular o Batalhão, (porque uma das companhias foi integrada nas forças blindadas de assalto), fiquei com uma companhia na localidade do Ebo, tendo participado nos combates do Morro do Tongo. Depois da reformulação das equipas, eu sou chamado outra vez para a 1ª Região. Da linha do Negage subo com as forças até Kimbele, onde se forma o 1º Regimento e sou nomeado Chefe do Estado-Maior do Regimento até meados de Maio. Mais tarde fui chamado para a cidade do Uíge, onde sou indicado para chefiar a Repartição de Organização Partidária (DOP). Como eu queria fazer aviação, pedi para fazer o curso de aviação. Mandaram-me para Luanda e posto em Luanda, todos os outros camaradas já haviam feito os testes psico-técnicos para admissão. Assim sendo, indicaram-me para vir para a Marinha. Chego na Marinha em Setembro e quinze dias depois vou para o curso de Comandos de Navios e Comando de Estado-Maior na cidade de Odessa, República da Ucrânia, com o Almirante Rufino e outros, alguns já estão falecidos. Dos falecidos ainda me recordo do camarada Baptista, Contra-Almirante Alexandre Paulina Kosi e dos vivos está o Josino, que está nas Relações Exteriores e o CMG- Paulo Maria Gomes, hoje empresário no Soyo.
RM: - Qual foi a sua primeira patente
e o cargo que exerceu na Marinha?
- A de 2º Tenente em 1978 e o cargo foi o de Chefe do Estado-Maior da Esquadrilha de Desembarque.
RM: - A Marinha completa 33 anos de existência, quais os momentos mais importantes da história do Ramo?
O primeiro momento mais importante, foi a constituição dos primeiros quadros da Marinha, isso em 1976. Quando os angolanos, depois da formação com os cubanos, embarcaram nos primeiro navios. Daí embarcados nas lanchas de desembarque puderam apoiar o Exército no avanço à Zona Norte e depois foi a constituição da própria Marinha a 10 de Julho com a presença do saudoso Camarada Presidente António Agostinho Neto.
Como Comandante de Esquadrilha, foi a possibilidade de ter feito o primeiro atraque aqui na Base Naval de Luanda.
RM: - Para um navegante é tão
importante assim o primeiro atraque?
- É tão importante, sim. É como a primeira descolagem e aterrisagem de um avião para um piloto. É a mesmíssima coisa. A sensação que um indivíduo tem, a responsabilidade de manobrar o navio para colocá-lo no lugar certo, pois o desatraque é mais fácil que o atraque, principalmente nas Unidades de Desembarque em que o seu calado era muito raso e quando estivessem vazios sem carga, ele, no período da tarde obedecia muito mal. Era preciso ter uma perícia muito grande para atracar o navio sem embatê-lo no cais. Foi o primeiro grande teste e que considero de maior importância naquela fase de atraque de um navio. E, saí-me bem! Depois daí desapareceram os tremores todos. Na vida tem-se tudo, um indivíduo pode ter bons e maus momentos, principalmente nesta vida do mar.
RM: Lembra-se de algum mais difícil?
Numa navegação de duas lanchas de desembarque, recebemos a missão de transportar uma carga para o Namibe, isso foi em Julho; Numa semana tínhamos que ir ao Namibe e regressar para as actividades do 10 de Julho em Luanda. Então, quando estávamos a fazer o desembarque em costa desorganizada, uma das embarcações fez mal os cálculos de acostagem e como resultado desse mau cálculo, arrebentou o cabo da âncora. Fizemos o desembarque, mas em contrapartida não podíamos regressar para Luanda sem a âncora. Depois de dois dias de procura, dado o mau tempo que se fazia na baía do Namibe, conseguimos encontrar a âncora. Esse foi o momento mais difícil como comandante.
RM: - Quais são os cargos que ocupou na Marinha
ao longo destes 33 anos de existência do Ramo?
- Os mais importantes! Praticamente ocupei-os todos, só não estive como Comandante de navio. Fui Chefe Estado-Maior da Esquadrilha, Comandante da Esquadrilha, Chefe Estado-Maior da Brigada, Chefe Adjunto das Operações, Chefe do Departamento de Reconhecimento, 2º Comandante da Esquadrilha 331 no Lobito, onde fiquei até 1992 na qualidade de Comandante em exercício. (Nessa altura o Comandante era o Contra-Almirante Alexandre Paulina Kos)i. Daí fui a Londres como Adido junto da Embaixada de Angola. Seis anos depois, regresso a Angola e sou indicado para exercer o cargo de Chefe da Direcção de Reconhecimento e como a Direcção de Operações não tinha um chefe, sendo eu o oficial mais graduado nessa altura, tive que ocupar provisoriamente a função de Chefe da Direcção de Operações e com as alterações que se registaram, passei a exercer o cargo de Vice-CEMM.
RM: - Como Vice-CEMM que visão tem para o futuro do Ramo?
O nosso futuro é risonho. Digo, risonho pelo facto de termos passado algumas dificuldades depois de 1992. Os meios foram-se deteriorando e chegámos a ficar na estaca zero. Recuperámos alguns meios, que usamos agora. A perspectiva para o Ramo é muito grande. Como sabeis, o maior tráfego de mercadoria é feito pelo mar e a posição geográfica em que Angola se situa é de grande relevância. Por esta via de comunicação marítima passam grandes quantidades de navios. As vias de comunicações nessa área precisam de um reforço e o país está a envidar todos os esforços de formas a adquirirmos algumas unidades para complementar as que temos. Por isso considero o futuro risonho e de trabalho também, pois vai exigir de nós muito esforço e sacrifícios.
RM: - De que formas a crise financeira
mundial poderá afectar a Marinha?
- Vai afectar, como sempre afectou. Qualquer crise vai afectar e como última instância afecta o homem, normalmente. É possível que para nós, os projectos que tinham sido planificados ou projectados para o futuro tenham que ser reduzidos, pode ser que não consigamos levar a cabo as actividades previstas para o futuro de desenvolvimento da Marinha. Resumindo: a crise financeira no mundo afecta sempre, e as forças navais principalmente, porque para as Forças Navais a componente financeira é muito alta. Obter um navio, já é caro, a sua manutenção continua a ser cara. A preparação dos homens também tem sido cara, então tem que afectar. A crise pode retardar um pouco os nossos projectos mas, vão se realizar.
RM:- Qual é a avaliação que faz do desempenho da Marinha Brasileira no resgate dos corpos dos sinistrados do voo da Air France?
- O que aconteceu obriga a que todo o mundo olhe para o marinheiro com olhos de responsabilidade. Porque é que digo isto? Porque nós, para além do patrulhamento temos a obrigatoriedade de fazer a busca e salvamento de humanos no mar. Então, a responsabilidade é maior. Nós pertencemos a esta parte do Atlântico em que o Brasil tem uma área de cobertura e nós temos outra.
RM: - Estamos em vésperas do 33 aniversário do ramo, que mensagem deixaria para os marinheiros?
- Diz-se que 33 anos é muito tempo. Um homem com 33 anos é um homem maduro, mas na vida de um marinheiro pode não ser assim tão linear, por isso devemos trabalhar e estudar mais a arte militar e naval. Devemos nos aplicar mais como marinheiros para que consigamos fazer com que o nosso país cumpra com as suas responsabilidades de uso e defesa do mar.
Necessitamos mais de alguns meios para apoio a esta acção. Nós sentimos que os marinheiros talvez precisem um bocadito mais de apoio, mas isso compreende-se, porque a cultura marítima ainda não está enraizada no nosso povo. Mas ela vai sendo paulatinamente interiorizada. Os marinheiros vão cumprindo com a sua missão dentro das possibilidades e vão mostrando a todos quantos não o são que a vida no mar embora difícil, é uma actividade honrosa.
RM- Qual é a opinião que possui sobre a Revista Marinha?
Devo antes parabenizá-los por conseguirem com tão pouca gente fazer aquilo que fazem. A nossa Revista está boa, recomenda-se a sua leitura e de uma forma geral os artigos abordam aspectos que nos ajudam a conhecer e interiorizar temas sobre a marinha. Com certeza que na vida, paulatinamente, devemos ir melhorando. O produto final do vosso trabalho espelha o esforço por vós exercido na elaboração da mesma.
| PERFIL |
Nome Completo: Francisco José
Naturalidade: Luanda
Estado Civil: Casado
Habilitações Militares: Engenharia Geográfica
Nº de Filhos: 08
Sonho: Antes sonhava ser aviador. Hoje já não será possível realizar-se, porque a idade já não o permite, espero que a nova geração de jovens cultive o gosto e a cultura pelo mar.
Preocupações: Estamos a envelhecer, temos de deixar aos jovens um legado, para isso precisamos de esforçá-los, fazê-los estudar e criar o gosto pela vida do mar.
Hobbie: Leitura, Desporto (Futebol e basquetebol)
Países que mais gosta: Na Europa gostei do Reino Unido, gostaria de conhecer é países africanos.
Virtudes: Teimosia.
Música: Angolana, Semba, sobretudo. |
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