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Ai Jante, querida!
CFR. Augusto Lourenço |
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O sol nascia atrás da serra e escondia-se além do horizonte, onde se confundiam copas, nuvens e saudades. Lá mais a baixo, passava uma estrada rudimentar e quase perdida no capim alto, mas os estrategas militares consideravam-na importante para a defesa do território. Por isso, uma companhia foi enviada para o local.
Homens fardados e bem armados chegaram por volta das 16 horas, mal desembarcaram dos camiões começaram a cavar trincheiras com pequenas pás que traziam penduradas à cintura. E tudo no local ganhava vida e movimento. Acordavam cedo, faziam matutino, exercícios e patrulhavam os arredores. É preciso nunca deixar-se surpreender!
E foi numa dessas missões de patrulha que ela foi encontrada, sendo posteriormente levada até ao centro do acampamento. E logo o seu gemido passou a inundar os ouvidos de homens, antílopes e aves que também habitavam o lugar.
Suportava conformada, mas não em silêncio, o destino a que estava votada. Ninguém sabia ao certo a sua origem nem o seu ano de nascimento. Os homens olhavam-na com indiferença e desprezo. Como alguém que olha para um objecto sem serventia, mas sem vê-lo e nem sequer se dar ao trabalho de pensar na sua existência. Assim, nunca sequer alguém se lembrou em exaltar o papel que ela cumpria, coordenando as acções dos homens.
Aflita, alertou o aproximar do perigo, chamou-os para tomar as refeições. Seu coração também palpitava durante o avanço e o ataque. Esperou com espinhos de ansiedade afogando-lhe a garganta, o regresso dos combatentes. E soluçou desesperada diante do infortúnio que vergava a coragem dos homens. Quem disse que um homem nunca chovara?
Os tempos eram difíceis. Há mais de seis meses que não se dormia tranquilo. Os militares viviam agitados nos seus camuflados e abraçando o fusil Kalishinkov. A fome apertava, pois era impossível procurar mantimentos nas lavras que ficavam a cerca de 30 quilómetros. E a rectaguarda fica ainda mais distante. No trajecto, emboscadas e minas eram frequentes. Os ataques quase paralizaram os movimentos da companhia.
Semana passada, um pelotão em missão de reconhecimento chocou com o inimigo. Mês depois, nenhum dos três desaparecidos havia retornado. E ela também chorou. No acampamento, ela era o barômetro que oscilava entre a alegria e a tristeza. Apesar de muitos não a terem em linha de conta, ela era importante, como o catavento para a aviação.
Acompanhou o esforço para se reverter a situação operativa. Dançou e cantou na fogueira do combatente, quando a paz permitiu o alargar do cordão de segurança. O inimigo reduzido em pequenos grupos fugia ao mínimo contacto. Os camiões voltaram a movimentar a picada de terra batida. A intermitência do sono foi momentâneamente esquicida.
Certo dia, eram 3 horas da madrugada e ainda chuviscava, quando viu um vulto a aproximar-se pé-ante-pé no local onde ela estava. Avançava com toda cautela empunhando uma metralhadora. Surpreendida, nem teve tempo de alertar os seus. Num golpe rápido, viu-se agarrada por dois braços possantes. Asfixiada, não conseguiu gritar. Contou com o pensamento, o tempo que faltava para a sua morte. Desceram encosta abaixo e desapareceram no mato. Quando amanheceu já estavam distantes dali.
No acampamento, a situação havia-se transformado num alvoroço, comparado ao que antecede a um ataque avassalador do inimigo. Ninguém acordou para o matutino, não houve Parada para o início das actividades, tudo transformou-se num caos. Os militares corriam desnorteados sem saber ao certo o que se passava. Outros choravam inconsoláveis. Mas quem era culpado da situação?
Uma jante de veículo de marca LADA 1500, presa numa mangueira, cumpria há já vários anos a função de sino. Sua existência perdia-se na poeira levantada pela marcha imparável do tempo e de gerações. Os actores se revezavam no local. E todos usavam-na do mesmo jeito. E por inerência de funções já foi alvo de várias injúrias. Todos amaldiçoavam-na sobretudo na alvorada e no recolher ademais no tempo do frio.
Naquele dia a vida foi anormal. Então os homens se lembraram da importância que a jante cumpria nas suas vidas de combatentes. Seja uma jante, uma botija de gás vazia, um vasilhame de Instintor, invólucro de cartucho de canhão, uma barra de ferro, batuque ou um outro objecto, a verdade é que cada militar leva o som de uma sineta na memória.
Ele (o som) faz parte das vidas, coordena as acções e movimentos de grupo como o tambor que marca o compasso durante a marcha. Ai Jante, querida!
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