revistamarinha@yahoo.com.br
 
 
Ano 6 - Edição 16 - Jul/Ago/Setembro 2009 - Preço Kz 250,00
Destaques de capa
Governo cria sistema nacional de vigilância marítima
- Reedificação tornará a marinha mais operacional
- Generais João de Matos e Numa falam sobre a génese das FAA
- Marinha desmobiliza mais de 100 militares
CULTURA
 
 

"Camatondo" anima os marinheiros

Natacha Roberto

João Moisés recorda com emoção as cenas vividas no campo, quando pela manhã, sintonizava a Rádio Nacional de Angola, para ouvir a radionovela “Camatondo”. Originário de uma família camponesa e residente em Luanda, o militar da Marinha ouve o seriado no canal A da Rádio Nacional durante o percurso que efectua de casa para o trabalho.
O oficial Contra-almirante tem a semana programada quando se trata da radionovela. Às segundas e quartas a partir das 5h30, num piscar de olhos, a sua filha que o acompanha no percurso, dá apenas um toque com o dedo no rádio digital e surgem logo vozes dos actores que encarnam os personagens da estória. “Quando escuto a radionovela vêem-me logo lembranças da minha infância no campo”.
O retrato dos problemas sociais de um povo que sofreu as consequências de uma guerra atroz, que destruiu por completo aldeias, vilas, e infraestruturais tais como escolas, pontes hospitais e fábricas afectando profundamente o tecido cultural, psicológico e social sobretudo das comunidades rurais.
Tudo isto faz com que João Moisés se apaixone cada vez mais pela radionovela e ele não esquece a visita do embaixador dos EUA em Angola, Dan Mozena à “Camatondo”. “Fiquei emocionado ao perceber que o esforço de reconstrução empreendido em 7 anos de paz estava a ser reconhecido. Como as populações procuram apagar as tristes lembranças da guerra e os seus traumas”.
Uma visita que serviu de grande importância para a Aldeia, onde personagens como o Jeremias e a Elisa ajudam a desenvolver vários projectos para o desenvolvimento comunitário. “Os temas abordados na radionovela são educativos porque mostram ,da maneira mais simples como o cidadão pode ajudar a construir uma sociedade melhor”. Tal como, João Moisés vários ouvintes se emocionam com os temas levados à reflexão pela radionovela.
Diante de uma série voltada ao meio rural, mas que conquistou audiência também no espaços urbano, João Moisés apela as entidades competentes maior apoio à produção do projecto para que os actores continuem a brindar os ouvintes com cenas que emocionam e educam o cidadão.
A directora do projecto Camatondo, Inês Filipa José, conta que a interpretação das personagens se traduz na interacção com o público que faz questão de ligar e opinar sobre a atitude de uma personagem e até sugerir futuras histórias. “São inúmeras a histórias representadas na radionovela de pessoas que ligaram e sugeriram o que de facto acontece como na sua aldeia ou localidade”, sublinhou.
A descoberta de Belita sobre a contaminação do vírus VIH/Sida infectada pelo marido, Epalanga trouxe, segundo ela, choro e descontentamento para os muitos ouvintes. Várias cartas e telefonemas inundaram a produção.

Para muitos “Camatondo tornou-se a sua segunda companheira”. A forma como a série retracta o quotidiano das aldeias, sensibiliza a população, que enfrenta os problemas, mas fazem de tudo para vencer na vida, através do trabalho no campo.

Falta de financiamento.
A directora do projecto Camatondo, Inês Filipa José revelou que por fala de financiamento o projecto “Camatondo” vai deixar de ser emitido. Antes financiado pela Rede de Informações Regionais e apoiado pelas Nações Unidas e Embaixada da Holanda e Noruega. A Radionovela “Camatondo”começou a ser emitida no dia 11 de Maio de 2005. É uma co-produção da Rádio Nacional de Angola e da Rádio IRIN Órgão das Nações Unidas.
Inicialmente, e devido à fase que se vivia em Angola, esta radionovela começou por retratar a vida de pessoas recentemente reassentadas numa aldeia fictícia a norte do Bié, abordando temas humanitários. Seu objectivo é o de informar e educar, enquanto serve como um meio de entretenimento para seus ouvintes. Ao longo destes quatro anos e de uma forma paulatina e porque Camtondo acompanha a evolução da vida no país, os temas por ela abordados passaram de humanitários para temas de desenvolvimento, numa linguagem simples e directa que apela aos angolanos que vivem quer no interior quer nas cidades.
Em “Camatondo”, podemos acompanhar o desenvolvimento de Angola: de pessoas recentemente reassentadas, hoje, quatro anos depois, encontramos uma aldeia onde os seus moradores pensam em comprar adubo para lavrar os seus campos, construir suas casas, educar seus filhos, comprar bois e galinhas. Combater a violência doméstica, a delinquência Juvenil, o HIV/Sida.
Camatondo é o sonho simples de cada angolano. É sobre Angola e seus desafios em prol do desenvolvimento.

Início do projecto
Participam da radionovela 23 Actores seleccionados de um concurso do qual participaram 220 actores. “Na altura da selecção, tivemos muitas dúvidas quanto à escolha dos melhores actores. Hoje, quatro anos depois, com muita satisfação podemos responder que escolhemos os actores certos para esta radionovela”.
A Radionovela é uma co- produção da Rádio Nacional de Angola e da Rádio IRIN e tem sido gravada nos estúdios da RNA com a participação de dois técnicos desta estação Emissora actores e a equipe de produção do projecto. A série retrata temas sobre o género, democracia e eleições, agricultura, educação para a saúde, associativismo e micro crédito, direitos humanos e resolução de conflitos, protecção da criança, cidadania e preservação do ambiente e bens públicos entre outros.

As personagens da radionovela
1. João Bunga (Epalanga) marido de Belita. Epalanga sempre menosprezou a esposa Belita que nos primeiros anos de casamento não engravidava. Pressionado pela família e a sociedade, Epalanga envolve-se, numa das viagens ao Kuito, com a jovem Preciosa, que o transmite o vírus da HIV/Sida.
2. Valéria Mussunda (Belita) sofreu pressão do marido Epalanga que a menosprezava pelo facto de não ter filhos e por ironia do destino, engravida mas é infectada pelo marido com o vírus HIV/Sida.
3. Zulmira de Brito (Elisa) que regressa a Camatondo depois de um longo período na Zâmbia onde fora levada durante a luta de libertação nacional. Com a assinatura dos Acordos de paz a 4 de Abril de 2002, Elisa chega à aldeia onde reencontra os familiares mas, se debate com a discriminação por parte da população que permaneceu no país durante a guerra. Elisa uma mulher bem esclarecida e desenvolve campanhas com Jeremias sobre HIV/Sida. Uma doença desconhecida pelo povo e até discriminada os dois jovens realizam um programa na comunidade.
4. Augusto Alfredo (Jeremias Ferreira dos Santos) é um jovem promotor social da aldeia. Considerado pela população como um jovem sábio, Jeremias tem sempre ideias inovadoras para o desenvolvimento da aldeia. É através da sua personagem que se transmite a força da juventude que muito pode fazer para a sociedade. Por seu intermédio a região beneficiou de escola e um posto médico.
5. Madaleno da Fonseca (Afonso). É portador de deficiência após ter accionado uma mina. Atendia voluntariamente a população da aldeia. Após a construção de um posto médico Afonso dirige o centro.
6. Caiphas Chicoho (Kimbanda Papa Liauca) a personagem criava intrigas no seio do povo com as adivinhações que realizava para curar pessoas. O Kimbanda foi aconselhado pelo enfermeiro Afonso para usar as plantas para curar as pessoas ao invés de prejudicá-las. O Kimbanda convencido passa a vender ervas naturais para curar doenças.

Um programa que uniu a comunidade rural em Angola
“A questão cultural é o segredo da radionovela que não esquece as raízes”, como sustenta a directora do projecto, Inês José que afirma ser a globalização um fenómeno positivo para a sociedade desde que não nos esqueçamos das nossas origens. O programa que alcançou uma grande audiência e passou a ser transmitida em todas as províncias e nas línguas nacionais Kimbundu e Umbundu. Na província de Malanje, os comerciantes denominaram uma praça como “Camatondo”. Em contrapartida, no Kwanza-Sul e Namibe várias crianças foram baptizadas com a mesma denominação.
Para aproximar os ouvintes aos actores a directora frisou, que a produção organiza pequenos espectáculos teatrais nas viagens que realiza às províncias, e organiza clube de ouvintes ou grupos de escuta, com vista a desenvolver as comunidades. Estes grupos, por sua vez, realizam encontros para debater questões retratadas em cena na radionovela. António Manuel é um dos ouvintes assíduos da radionovela Camatondo. Deficiente visual em consequência de um acidente de mina foi abandonado pela esposa, e está no seu segundo relacionamento do qual resultou um filho de cinco anos. Logo que soube da visita da equipe do Camatondo à província de Benguela, apanhou uma moto táxi, vulgo, “cupapata” e com seu filho foi à Emissora de Benguela.
Mostrou-nos um gravador e uma malinha (na sua mão esquerda), onde tinha guardadas todas as cassetes com os 27 episódios de Camatondo por ele gravados em cada emissão da rádio. (Nesta altura ainda só tinham sido emitidos os 27 episódios!!!) Ele escuta Camatondo num dos mercados informais de Benguela onde trabalha como vendedor de guloseimas. “Camatondo é a minha segunda esposa. Faço tudo para não me faltar pilhas e acompanho todos os programas”, disse. O comerciante não perde nenhuma cena. Eu gosto de Camatondo, porque neste programa muitas personagens enfrentam sofrimento como eu, mas não ficam de braços cruzados, fazem de tudo para vencer na vida, através do trabalho. Eu sinto-me como um deles. Por isso é que eu vim, para vos ver e vos dizer que têm me dado muita coragem”.

 
 
 
 
Todos os direitos reservados © 2006 - 2009 Revista Marinha
Design: rrinformatica - rrweb@walla.com