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FAA, expressão maior
da unidade nacional
| CFR Augusto Lourenço |
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A expectativa pairava sobre a plateia! Aos primeiros acordes, o silêncio desce sobre o relvado do Estádio da Cidadela e logo depois explode em estonteantes aplausos, que ensurdecem a plateia. Na sinfonia, a voz suave brota calmamente entre os instrumentos e hipnotiza a audiência.
«Domingo vou fazer um funge,
Como fazia aquele velho na Sanzala
A sombra da mulemba vai ser a sala na sanzala…»
O sol se escondia no horizonte com seus lilases e alongava a sombra dos edifícios sobre o cenário. Sob o dedilhar dos fios do violão, o coração estremece de amor convertido em canção.
«Eu vou fazer um Semba para dedicar à Lemba
Vai ter Ungo e Quissange
Vai ter Marimba de Malange
Para encontrar a harmonia…»
Era Alberto Teta Lando! As lágrimas e os apalusos salpicaram toda a sua actuação no Fenacult. Estávamos no ano de 1989. Jamais me esqueci daquele momento!
Emocionado, apertei contra o peito a arma AKM que transportava e chorei. A Cidadela estava engalanada. Não havia espaços vazios nem pausas na torrente de emoção. Tudo era cor e alegria. Era um ambiente transcendental.
Como aluno da Escola Político-Militar Comandante Jika, em Luanda, havia acabado de participar na apresentação de quadros humanos. Foram três meses de ensaios orientados por uma instrutora coreana. Ainda me lembro!...
O Fenacult ocorre meses depois do fracassado Acordo de Gbadolite, que teve lugar em Junho de 1989, na República do Zaire, sob mediação do presidente Mobutu Sese Seko.
A guerra fratricida voltava a traçar o seu rasto de dor e sofrimento! A alegria vespertina havia se transformado em tragédia. Em cada coração o sabor acre da desilusão.
Feito arauto, Teta Lando chega exactamente nesse momento em que a nação, cansada de anos de conflitos, se esforçava para estender a ponte para a paz e a concórdia entre os irmãos desavindos.
Portanto, era simplesmente irresistível a mensagem que Teta Lando trazia no seu regresso ao País, depois de vários anos de exílio em França. Ele chegou na hora certa e abriu-se para o amplexo abraço.
«Vamos falar da terra,
Vamos esquecer a guerra,
Vamos ter uma só voz,
Vamos ficar entre nós,
No meu funge de Domingo,
Avó Marica vai gostar
Avó Ximinha até vai chora,
Por nos ver juntos a conversar…»
A canção entrou pelos ouvidos e inundou os corações, animando o compasso da nossa marcha. E a profecia de Teta Lando se concretizava dois anos depois em Bicesse, Portugal.
Foi ao sabor de esse ambiente de esperança que a vida militar seguia o seu curso até chegar o dia D. Era dia 31 de Maio de 1991. O dia amanheceu frio e o sol enfradaldo entre a neblina matinal.
Durante o matabicho, as conversas gravitavam em torno de um evento que ocorreria mais tarde em Bicesse, Portugal. Naquele dia seria rubricado o acordo de Paz que colocaria fim ao conflito de mais de 16 anos entre o Governo e as Forças Militares da Unita. Vários foram os encontros entre as partes e vários eram os negociadores. Venâncio de Moura, Fernando da Piedade Dia dos Santos “Nando”, General Higino Carneiro, Faustino Muteka..., de um lado, e Salupeto Pena, Geremias Chitunda, Jorge Valentim, Ben Ben … do lado da Unita. Houve momentos em que as negociações encalharam ou mudaram de cenário, mas pouco produziam em termos de compromissos para pôr fim definitivo à guerra. Dificuldades de vária ordem adiavam a concretização do sonho de milhares de angolanos. As populações aguardavam na sua ansiedade o dia tão prometido. Na sinuosidade do percurso vários são os combatentes que verteram o seu sangue no campo da batalha e outros ficaram tramautizados para sempre.
Na Escola Jika, no intervalo das actividades, os militares, em pequenos grupos, conversavam baixinho sobre aquele que se tornaria no grande dia.
Lá fora da Unidade, o ambiente não era diferente. Na frente de combate as acções militares haviam cessado, mas os militares se mantiam de vigília, pois não queriam voltar a ser vítimas de mais um ataque traiçoeiro. As horas tardavam passar e a espera prolongada pela ansiedade.
Chegada a hora, o aperto de mão entre o Presidente da República de Angola José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi, transformou-se numa explosão de alegria que brotando bem do fundo do coração de todos os angolanos, espalhou-se como fogo em capim seco. Lágrimas, gritos, abraços e beijos marcaram o momento sublime da história de Angola.
A noite foi linda e o amanhecer carregado de toda a magia que a vida encerra. Era um outro dia!Era um novo dia! Era 1º de Junho de 1991. A paz era ainda criança!
As preocupações eram novas. A guerra havia terminado e, segundo os Acordo, as tropas deviam ser encaminhadas para os centros de acantonamento. Vários locais foram criados para albergar as tropas sob vigilânciada UNAVEM.
Dos centros, uns partiriam para ingressar no novo exército, outros para a Polícia Nacional e os restantes seriam desmobilizados.
As preocupações surgiram. Qual seria a opção? Continuar a ser tropa ou voltar para a vida Civil. Optei por ficar nas novas Forças Armadas. Ser militar era uma paixão indiscutível!
Em Julho, um grupo de marinheiros é integrado nas FAA chamado para frequentar o primeiro curso de instrutores. Antigos FAPLA e FALA partilham a mesma caserna, a mesma sala de aulas e os mesmos espaços físicos. Contam histórias combativas, brincam e praticam desporto em conjunto. Cada um trazia o seu tipo de Ordem Unida, mas o curso acabou uniformizando conceitos e procedimentos. Na Parada, vestidos com uma mesma farda, dias depois, todos os militares marchavam da mesma forma e num mesmo compasso. Acabaram-se as diferenças. o fim da formação o Juramento à Bandeira. Juro lutar e morrer pela pátria.
Daí para frente, todos tinham um único objectivo: a defesa armada da Soberania de Angola. Uma mesma opinião em relação à Unidade Nacional. E uma norma comum, cuja base assentava na disciplina, no espírito de sacrifício e na camaradagem e na lealdade combativa!
A paz chegou e derrubou a barreira que separava irmãos da mesma pátria. E as Forças Armadas Angolanas são a expressão fiel da estabilidade e a garantia do desenvolvimento económico e social de Angola.
Viva as FAA!
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