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Preso 9 meses no Congo
antes do treino militar
Simples, amigável, trabalhador, paciente e corajoso, o Vice-Almirante Lando Filipe “Viper” é uma pessoa que dispensa qualquer apresentação. A sua presença é marcante em todos os eventos do Ramo, tamanha é a responsabilidade do cargo que exerce: o de Chefe da Direcção de Educação Patriótica. É um homem esforçado e exigente para si e para o seus subordinado! Apesar de muito exigente, está sempre disponível em ensinar os seus subordinados e com eles aprender. É aquele tipo de pessoa que quando são amigas são-no verdadeiramente. Mas quantos conhecem o seu percurso de militar e de combatente?
Fugiu com congoleses que regressavam do óbito
Em 1971, Lando Filipe e um grupo de jovens entre os quais José de Sousa “Jacaré”, António Monteiro “Tigre”, Pedro Matias “Leão” e Domingos Gonçalves (os dois primeiros e o último já falecidos) havia endereçado uma carta à direcção do MPLA em Brazzaville, na altura encabeçada pelo camarada Lúcio Lara.
Em Setembro do mesmo ano atravessou o rio Zaire na localidade de Kifuma Casangulo, a sudoeste de Kinshasa. Para o efeito aproveitou a presença de alguns cidadãos congoleses que regressavam de um óbito. Atravessaram juntos o rio. Porém, posto na outra margem, a de Brazaville, foi recebido pelas melícias que controlavam as principais vias de circulação. Ele como era estranho na área, foi identificado tendo apresentado a documentação, incluindo o certificado escolar. Depois seguiram viagem numa carrinha com destino a um destrito para lá, a aguardar a chegada do administrador local. Lando Filipe foi obrigado a pernoitar, pois este apareceu apenas ao anoitecer.
Durante aquele dia, teve direito a almoço e inclusive a acompanhar a programação da televisão, mas à noite foi trancado numa cela. À 1H00 da manhã, apareceram três indivíduos com uma máquina de escrever e começaram a fazer-lhe várias perguntas. Queriam saber qual a sua identidade e o que iria fazer a Brazzaville. Se ele já conhecia Brazzaville e quantos deles se encontravam na mata. Explicou-lhes que o seu objectivo era chegar ao MPLA.
No dia seguinte, viu chegar os camaradas Luís e União. Também haviam caído na rede das milícias, quando desenvolviam trabalho clandestino em prol do MPLA que consistia na mobilização de jovens refugiados angolanos em Kinshasa.
Por volta das 10 horas, rumaram em direcção à Brazzaville em companhia do administrador capitão Muassi Mposso. As vias de comunicação estavam todas bloqueadas pelas forças de Defesa e Segurança. Nenhuma viatura podia sair nem entrar na capital, por isso foram levados até ao destrito de Kinkalá. Aí surgiu a desgraça para o grupo. Os outros quatro jovens ja lá se encontravam detidos há mais de cinco dias. Com eles o número subiu para sete.
Os congoleses ligaram para Brazzaville e uma equipa de jornalistas transportada por dois helicóptero da Força Aérea deslocou-se ao local. O objectivo era leva-los até ao Estado-Maior.
Recebidos pelo presidente marien nguabi
Ao desembarcar, foram recebidos pelo Presidente Congolês Marien NGuabi. Este ao ver-nos em tom aborrecido disse:
- Capitaine Muassi Mposso, les jeune sont dês etudient ne son pás dês Assassins.
Quer dizer, havia informado ao Presidente que tinham sido capturados elementos que faziam parte do grupo de Angê Diwará. Este havia encabeçado uma intentona golpista que visava derrubar o presidente Goubi.
No entanto os interrogatórios prosseguiram. As Televisões e outros meios de comunicação local exibiam as imagens dos falsos prisioneiros.
E todas as vezes que as tropas regressavam das buscas aos golpitas, descarregavam a sua raiva nos detidos, que eram tratados como cachoros, hoje o Vice-Almirante “Viper”, chegou a comer uma casca de banana retirada do chão ensanguetada durante os interrogatórios.
Informados do drama através dos meios de comunicação, o secretário do MPLA Lúcio Lara enviou o mais velho Nlanvo Emmanuel, no sentido de solicitar a libertação dos jovens angolanos, porém apenas dois, que já eram do movimento conheceram a liberdade. Os restantes 12, transportados por uma carrinha, foram encaminhados para a cadeia central denominada Maison d’arrêt, onde permaneceram nove meses, dos quais um em regime fechado. Não tiveram qualqrer processo formado.
Só foram libertos depois de terem sido capturados os líderes do golpe de estado. Angê Diwará foi depois assassinado.
Em resposta ao pedido as autoridades congolesas comunicaram o MPLA , na pessoa do camarada Lúcio Lara acompanhado pelo actual Capitão-de-Mar e Guerra ArturJúnior foram buscá-los a prisão no mês de Junho de 1972.
Dois dias depois, chegou de Lubomo(Dolisi) um camião de marca MAN com o objectivo de transportar alguns meios e também para leva-los até ao Centro de Instrução Revolucionária (CIR) Kalunga.
Os seus instrutores foram os actuais generais Mussolo, actual adido de Defesa de Angola em Portugal, Subcomissário Neves, já falecido, Menezes e outros.
BAPTISMO DE FOGO NO MAIOMBE
Depois do treino militar,para cumprir a sua primeira missão os recém formados atravessaram a fronteira entre o Congo e a província de Cabinda com o objectivo de atacar um agrupamento militar português. Durante a subida da montanha que separa os dois países o camarada Kimuenzo, cansado pelo peso que transportava, encostou num arbusto accionando uma mina, que lhe amputou a perna.
A missão continuou por orientação dos comandantes Ndozi e Foguetão. Na sequência, emboscaram e atacaram uma coluna do exército português que saia da cidade de Cabinda para Miconje. Dois prisioneiros e várias viaturas inimigas destruídas foi o balanço.
O grande baptismo de fogo ocorreu durante o assalto ao Quartel de Miconji, contando já com a participação dos Comandos treinados no Sudão. Os guerrilheiros equipados com artilharia reactiva de Grad-1P e canhão B-10 a direcção do fogo estava a cargo dos actuais generais Kianda e Hendrick sendo a infantaria sob mando do comandante Ndozi.
Os camaradas Lúcio Lara e Nvunda também participaram na acção.
A operação não obteve êxito devido ao ferimento que sofreu o comandante Ndozi.
Um outro ataque foi realizado contra o Quartel do Caio Guembo. Na operação todos os artilheiros utilizaram
RPG-7.
No final foram capturadas algumas viaturas. O combate foi filmado por um jornalista estrangeiro.
Depois do ataque apareceu a aviação que bombardeou aliatoriamente a direcção onde haviam retirado os guerrilheiros. Mas a viatura já tinha partido com o comandante Valódia levando outros guerrilheiros e o jornalista.
Político, artilheiro e comandante da região
O Vice-Almirante Viper, actual Chefe da Direcção de Educação Patriótica da Marinha de Guerra, já exerceu os seguintes cargos:
• Monitor Político;
• Chefe de peça Grad-1P;
• Chefe de Bateria de artilharia;
• Chefe da Companhia de Infantaria, que em novembro de 1974, permaneceu no quartel do Miconji durante um mês, com uma companhia do exército português:
• Chefe da companhia de infantaria na ex-URSS;
• Chefe do Grupo reactivo BM-21;
• Chefe da Secção de Artilharia da 6ª Região Político-Militar;
• Chefe da Secção de Artilharia do Regimento Presidencial;
• 2º Comandante do Regimento Presidencial;
• Chefe do Estado-Maior da 1ª Região Militar;
. Comandante da 1ª Região Militar
• Comandante da 5ª Brigada de Infantaria Motorizada
• Comandante da Zona Militar Moxico
• Director do Gabinete do Chefe do Estado-Maior da Marinha;
• Chefe do Gabinete de Informação e Relações Públicas da Marinha
• Comandante da Missão Militar Angolana na Reopública Democrática do Congo no quadro da SADC.
Dentre os vários cargos que exerceu o que mais lhe marcou foi o de comandante da 1ª Região Militar, num contexto em que os ataques eram frequentes, teve de prepar e realizar operações de vulto para reverter a situação a seu favor. Outro momento, memorável foi vivenciado na Zona militar do Moxico, por altura da implementação do Processo de paz de Bicesse.
1. Não foi difícil o processo de transição para as FAA?
Apesar das dificuldades inerentes a um processo do género, a formação do novo exército foi facilitado pela experiência combativa acumulada pelos efectivos. Há convivência harmonioza entre os antigos militares provenientes das FAPLA, FALA, ELNA e recentemente da FLEC.
Presentemente as FAA estão em processo de Reedificação com vista à sua adequação das suas estruturas aos desafios actuais e futuros no contexto interno, regional e internacional.
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