|

AVELINO SOARES: Nesta foto, é a conclusão do 1º curso de formação da Marinha, em que esteve presente o Dr. Agostinho Neto, o Comandante Bula, Camarada Bornito, Miau. Mas é um momento importante. Porque começar qualquer coisa, praticamente do zero, é um bocado difícil. E isso sente-se até agora, não havia muitos quadros, como até agora não os há. E então, as pessoas não tinham muita experiência. Fez-se o que foi possível na altura. Na nossa filosofia de vida, sobretudo, pela Marinha era necessário definir o seu objecto fundamental. O que é que a Marinha pretendia. E definido o objecto fundamental, vêem os meios, e em particular, com uma certa importância, os meios humanos. Você, sem homens, sem recursos humanos, não vai fazer nada com a técnica. Mesmo no aspecto mais simples. Vou lhe dar um exemplo: você importa viaturas para Angola, depois percebe que não há mecânicos, para repará-las. Isto não pode acontecer a nível da técnica. Você prepara os homens e depois vai procurar os meios.
RM - Vendo a foto, o senhor não mudou muito, apenas reduziu a barba!...
AS- Um bocadinho mais gordo, um bocadinho de bochechas, um bocadinho mais emafado...(risos)
RM- E mais maduro, se calhar!...
AS- Não cresci como queria. Talvez investisse mais em termos intelectuais, mas não pude. Mas amadureci um pouco. Não mudei muito em termos de visão, mas flexibilizei algumas posições.
RM- Ao ver essa foto o que é que lhe vem na mente?
AS- Nesta foto...de há 30 anos atrás, recordo muita coisa. As vicissitudes que passamos, porque na altura, pouco tempo antes, falava-se que haveria um bombardeamento que viria do Zaire, seis meses antes da independência. Então foi uma noite de azáfama, pouco antes do 11 de Novembro, retirar os meios navais dos locais em que estavam. Acima de tudo, tive um privilégio muito grande. Tive uma equipa de trabalho bastante boa. Homens que vinham também com alguma experiência militar de um exército organizado, apesar de ser de um exército colonial. Isso também facilitou grandemente.
RM- A partir de que altura entra para a luta de libertação?
AV- Eu comecei a luta de libertação ainda na clandestinidade, muito jovem. É capaz de não acreditar, tinha 17 anos. Vivia no Bairro da Vila Alice e, na altura, estudava no Liceu Paulo Dias de Novais. Com um grupo de companheiros íamos ao Bairro Operário, na Rua Vouzelense, fica um bocado mais a frente, junto ao Banco de Fomento, actualmente. E havia um jovem, que também desapareceu, não se sabe onde está até hoje, já tinha estado preso, que era o Chiquinho Capita. Este Chiquinho Capita dava-nos as primeiras noções de política em casa. Eu também tinha vantagem de ser de uma família que se dedicava um bocadinho à política. Os meus irmãos, tinha uma irmã primogénita, que era praticamente a patriarca de casa e ela é que nos orientava. E também tinha uma mãe que era política, embora com poucos conhecimentos académicos. Foi ela que me incentivou a sair de Angola. Uma mãe!!! Facto que não era frequente... (riso)
RM- Quando é que saiu de Angola?
AS- Sai de Angola em 1968 já como militar português, pois o serviço militar era obrigatório. Então, faço a recruta no Huambo, do Huambo sou transferido para Cabinda e de Cabinda mobilizo mais dois militares que vão comigo até à fronteira do Congo. Então, entro para a base de guerrilha que o MPLA tinha, na zona do Banga. Era chamada a 2ª Região Político-Militar. Precisamente na Zona A da 2ª Região.
RM- Foi fácil chegar à base do MPLA?
AS- Não foi fácil. Eu já estava um bocadinho sob suspeita. Era um soldado assim um pouco introvertido, gostava muito de ler e saia pouco da caserna. Então aquilo não caía bem. No dia em que eles se apercebem que sai da caserna, suspeitaram que tinham fugido. Então mandaram um grupo a minha procura. Por sorte não me encontraram. Era um grupo de dissidentes da antiga FNLA, era o grupo de Alexandre Tati, as chamadas tropas TES, que patrulhavam a fronteira. Felizmente não me encontraram, porque já estava em território congolês. Fui bem recebido e comecei uma nova fase de vida.
RM- Quem foi a pessoa que o recebeu?
AS- Na altura, havia um comandante que também não sei... deve ter mudado de organização, presumivelmente. Era um indivíduo que dava pelo pseudónimo de Sudiata Keita. Este homem depois também desapareceu. Constou-me que pelos movimentos separatistas, havia uma outra organização política.
RM- Depois para onde foi?
AS- Depois vou para Brazzaville, mando uma mensagem na Rádio, então como eu tinha um ar assim um pouco mais urbano, mais citadino que os meus companheiros, disseram: este não vai aguentar. Então, como tinham suspeita que eu fugisse mandaram-me para uma área , mais recôndita, mas longínqua, mais difícil, a Zona A que era de mais combates. Essa zona ficava precisamente na área em que eu havia entrado. Na fronteira com o Congo, uma zona de muita floresta, muita mata. Então os outros colegas eram mais, talvez mais desenvoltos, no ponto de vista do contacto social. Tinham um aspecto mais integrado mandaram para uma zona de fronteira. Esses são os que se foram embora mais cedo. Ironia do destino (risos). Depois cada um seguiu o seu caminho. Tiveram um percurso muito diferente do meu na luta. Um abandonou, sei que o outro depois veio aparecer como segundo secretário da UNITA. Formou-se em medicina.
RM- Quem era?
AS- Era Lourenço Pedro Macanga. Não sei se recorda aqueles acontecimentos de Malanje em 1992. Havia um secretário que vinha para Luanda, depois havia uma suspeita qualquer de morte, não se sabe bem como é que a coisa ficou… Esse era meu companheiro de fuga. É curioso, as voltas que a vida dá.
RM- Depois da Zona A para onde foi?
AV- Com o tempo, depois veio Agostinho Neto, fez uma ligeira entrevista, fico um tempo. Depois havia necessidade de outros voos. Fui chefe de secção, de grupo... então surgiu a ideia de se formar um grupo para a marinha.
RM-Quando e por quê?
AS- Isso em 1969-70. Surgiu a ideia pelo facto da organização estar a passar um momento crítico, extremamente crítico. Havia divisões e depois não havia sistema de abastecimentos convencionais. O convencional naquela altura era o sistema terrestre.
RM- Já havia ocorrido o desaire com o Esquadrão Camy e Bomboko.
AS- Exactamente. Recordas-te da história. Os esquadrões não conseguiam passar, então estava-se a pensar numa outra forma, mais evoluída de abastecimento. Por um lado, pensou-se no abastecimento aéreo e também no abastecimento marítimo. Só que nós efectivamente eramos poucos para um tal empreendimento. Éramos poucos em quantidade e também poucos pela formação académica. Mas havia muita vontade. E talvez a vontade estava acima de tudo. Vontade e determinação. Então forma-se um grupo de 24 elementos para fazer o curso de marinha. Desse grupo, apenas 20 acabaram, uns por questão de saúde. Inicialmente fomos para a antiga União Soviética, mais propriamente para um sítio chamado “Buraco”.
RM- Por que se chamava “Buraco”?
AS- Buraco é uma zona na Criméia, parte sul da Ucrânia, no mar Negro, numa cidade chamada Cinferópoles. Era um centro quase secreto, em que iam para lá elementos de vários movimentos de libertação. Na altura, do MPLA, do PAIGC, da FRELIMO e também da África do Sul, da Namíbia e do Zimbabwe. Fizemos o treino militar, preparação de língua. Inicialmente era um curso previsto para 4 anos, mas depois teve que se refazer para dois anos, porque a situação no país, nas nossas zonas, não estava muito boa. Estávamos a passar um momento extremamente complexo. Havia muitas cisões. O Leste já não era uma zona de grandes combates, o Norte havia uma certa desmobilização, porque a população de Cabinda não dava o apoio necessário e a 1ª região estava praticamente sitiada por falta de abastecimento e os portugueses estavam com grandes investidas. Nesta altura, acabamos a formação e voltamos para às zonas, mas não havia condições para levar à prática os conhecimentos adquiridos. Há que reintegrar novamente as forças de guerrilha. Devido a crise que se vivia era preciso dar a entender ao mundo que nós existíamos ainda como força política e militar. Então, há que fazer algumas operações, isso por volta de 1973. Os quartéis de Miconje, Sanga Planície são fortemente atacados. Na altura, já tínhamos também armas um bocadinho mais melhoradas. Não obstante as cisões que existiam, havia sempre um grupo determinado a continuar com a parte militar. Nesse quadro todo, acidentalmente, para nós, surge o 25 de Abril de 1974. E então, fico lá substituindo o Comandante Valódia, como Comissário Político da 15ª Coluna. O actual General Pedro Benga Lima "Foguetão" era, na altura, o Comandante da Coluna. Era uma altura em que os acontecimentos se desenrolavam com muita velocidade. Chega o 25 de Abril, não se sabia ao certo o que iria acontecer e então venho para Luanda em 4 de Fevereiro de 1975, um pouquinho cansado. Então coincidentemente tinha um irmão Nelito Soares que estava na Base do Jimbi, no Moxico, a treinar um batalhão. Então eles vêem com os batalhões e associei-me. Naquelas escaramuças internas, era preciso darmos uma lufada de ar fresco, incorporei-me e começamos aí efectivamente um trabalho que, na altura, o Presidente Agostinho Neto fez grandes elogios. Era uma situação muito conturbada, muito indefinida. Isso foi entre Fevereiro a Julho de 1975. Era momento de grandes escaramuças. Era preciso pôr ordem na situação.
RM- Foi nessa altura que morre o Comandante Valódia?
AS- Valódia morre antes. Eu não estava com ele, estava a chefiar outros dois grupos. Depois, mais tarde, surge outra vez o convite para voltar para o Governo de Transição para começar a equacionar a Marinha de Guerra. E tive o privilégio do Comandante da Marinha Portuguesa fazer-me a entrega oficial da Unidade. Foi um caso raro. Fez uma formatura e entregou-me a chave da Base Naval de Luanda e desejou-me felicidades, êxitos e foi se embora no dia 9 de Novembro. Entregou-me os meios e foi-se embora. Fica a sorte nas nossas mãos e que fazer agora? Jovens sem experiência, há que virar-se. E virámo-nos.
RM- E por onde começaram?
AS- Começamos por preservar o que tinha ficado. Havia ficado, além daqueles meios técnicos, muitos bens aliciantes. Muita bebida, muita comida e muitas viaturas. E então aquilo era engodo para desvios. Por isso foi preciso impor uma certa ordem. Punir os prevaricadores para não dizerem que o comandante também estava feito com eles. Foi preciso impor ordem e eu nesse aspecto felizmente tinha jeito. Numa certa hora, havia viaturas que tinham sido desviadas, impusemos ordem, o vinho que soubemos que foi vendido fora da Unidade também punimos os prevaricadores. Depois um dos aspectos fundamentais era formar homens. Para já dar à Marinha um carácter nacional. Fazer o recrutamento a nível nacional, sobretudo naquelas províncias onde o índice de escolaridade era mais alto e possivelmente voltadas para o mar. É daí que os quadros da marinha hoje, desde a nossa época, são indivíduos de vários pontos do país. Formar quadros internamente, mas sobretudo, formar toda uma geração que nos substituísse no futuro. Na minha filosofia ninguém era eterno. Não se pode apegar aos lugares, era preciso pensar nos substitutos. O anterior comandante, o Almirante Rufino, foi nesta onda de formações para fora do país. E aí começou a nossa odisseia. Há uma altura que ainda vou a União Soviética para fazer os primeiros contactos, para os meios técnicos. A opção dos meios técnicos era não só uma questão militar, mas também política, em função dos objectivos que a Marinha tinha. E em função dos objectivos que a marinha tinha, os meios que ela devia gerir no contexto da Angola. Dentro daqueles acordos que fugiam um bocadinho ao nosso controlo. Era mais um acordo político na altura. Assim conseguimos alguns meios.
RM- Quais foram os meios adquiridos?
AS- Foram as lanchas torpedeiras. Infelizmente não foi possível formar homens, na altura para aquele tipo de equipamento. Os homens foram formados muito mais lentamente. E nem sempre esse tipo de equipamento ia ao encontro das nossas necessidades, porque havia parte política da componente da compra dos meios que nem sequer era muito clara. Chamavam aquilo doações, ajudas, mas sabemos que a factura depois veio aparecer por trás. Esses anos volvidos ficou a dívida. Naquela fase, passava por aquela ajuda internacional, aqueles apoios todos, era dizer leve isto, porque nós queremos que leve.
RM- No seu discurso, proferido durante a proclamação da marinha destacou o papel do internacionalismo proletário.
AS- (Risos)A Marinha também é uma arma que nunca teve muitos apoios. Talvez não houvesse má fé das pessoas, acredito que sim. Faltou das pessoas conhecimento do que é a marinha. Talvez uma certa sensibilidade do que é a marinha. Uma visão clara para o mar, para esta vasta orla territorial, ver Angola com o seus recursos, fundamentalmente. Tem uma orla continental muito vasta, os seus recursos sobretudo, o petróleo, as pescas. Eu penso assim: se a gente faz uma guerra, na minha óptica naquela altura, e esta guerra é financiada, é preciso ter dinheiro, eu tenho de defender primeiro o baú deste dinheiro. É preciso ter uma Marinha para defender primeiro essa fonte de receitas para poder fazer a guerra. Essa fonte essencial de receitas, na altura, não estava devidamente defendida.
RM- Por essa razão, disse, no seu discurso, que era utópico pensar-se que poderíamos ficar descansados em terra, quando se tem o mar desguardados?
AS- Exactamente: Mesmo hoje esse princípio é válido. Há uma corrida grande para o consumo de petróleo. Mesmo com o avanço tecnológico, as tais fontes de energia alternativas não surgem. Portanto, o petróleo começa a ter de dia para dia ainda mais importância. Que conflitos se podem gerar um dia a volta disto, quando a demanda aumentar, quando os grandes países consumidores se virem sem a grande fonte de energia? Há que precaver. Então é preciso tomar as medidas necessárias. Há um outro aspecto que eu tomava... por exemplo, o Norte de Angola. Aquele rio Zaire que é um rio fabuloso. Cabinda tem petróleo, o Soyo tem petróleo. O Zaire está no meio. Muito provavelmente tem petróleo e grandes bacias de diamantes. Porque o Cuango é seu afluente. O Cassai é afluente do Zaire. E estes detritos vão sendo empurrados ao longo de milénios para o fundo dos rios e até para o mar. O nosso mar é rico em diamantes. A maior porção de diamantes está nos mares. E depois é uma zona em que temos um vizinho ao Norte, mais populoso do que nós, não menos ricos que nós, mas que passa por uma fase crítica de organização interna. E aquela fronteira é uma fronteira permanentemente de risco. É preciso tomar isto em conta. Rica, então quando há desorganização deste país, efectivamente há que ter uma força para prevenir situações que possam ser desagradáveis para países não organizados. Nisto aí a marinha tem um papel importantíssimo naquela zona. Ainda no aspecto social: aquela zona de Pedra de Feitiço, Nóqui… tinham vida porque existia a marinha no tempo passado. Ela é quem dava vida às populações, porque a marinha, sobretudo no tempo de paz, tem um carácter profundamente social. Se as vias por terra estão obstruídas, muitas das vezes, cabe à marinha exercer um papel de apoio. Não fugir do seu objecto social, mas apoiar aquelas forças que podem efectivamente abastecer. Essa era uma das nossas preocupações.
RM- Então, na sua óptica a Marinha devia ser a guarda do baú! Que avaliação faz da Marinha que ajudou a fundar há 30 anos?
AS- Risos.. Agora que o país está em paz, há questões, talvez fosse necessário dar alguma redefinição. Mas os pilares estavam mais ou menos certos. Até acredito que toda essa gente do mar que passou por aqui sente os problemas da marinha. São homens de boa vontade, mas os problemas transcendem as suas competências. Como os meios devem ser cabimentados, orçamentados da fatia que se dá às Forças armadas, isso passa pelo poder político, que define as quantidades que se deve alocar à marinha.
RM- E a Marinha é uma arma bastante cara...
AS- Não há uma coordenação. Mesmo no passado, dizia que era preciso existir uma coordenação única de toda actividade ligada ao mar. Porque muitas das vezes há dispêndio de energias e de dinheiros desnecessários. Formação de quadros: você precisa de formar um motorista, está formar um motorista nas pescas e outro para a marinha mercante. Seria possível uma coordenação na formação destes homens, tendo em conta que as unidades navais têm um carácter quase militar, mesmo aquelas que são civis. Pela sua especificidade, pela sua disciplina interna, aquela família, aquele núcleo que requer uma disciplina rígida. Você está formar um motorista na marinha mercante, quando na Unidade militar podia ser formado esse homem. Um bom motorista, seja militar ou civil é sempre um motorista. Um bom electricista pode ser formado na escola militar. É essa a coordenação de recursos humanos. O país tem de começar a poupar recursos. Há países com mais tempo de existência do que nós, que estão preocupados com isso. Porque não souberam investir nesse ramo, porque esbanjar. É preciso formar de acordo com as necessidades.
RM- Está a falar da necessidade de uma autoridade marítima?
AS- Sim. Eu vejo a preocupação de dar às pescas determinados meios do mar à polícia... não será isso querer esvaziar o objecto social da própria marinha que precisa também de alguns meios? Se os homens do mar com mais disciplina não podiam também exercer funções aí? Ou parte destes meios serem alocados à marinha de guerra? Também investiu-se na polícia naval, nas pescas, com a sua fiscalização. Mas a marinha talvez tenha sido esquecida. Devia ter primazia. Numa altura que há narcotráfico, numa altura que o país é invadido silenciosamente por imigrantes que muitas vezes vêem pelo mar, talvez essas forças não as possam conter. E a marinha talvez esteja mais habilitada para conter esse tipo de infiltração. Há que alocar os meios para a marinha de guerra. Um sector que coordenasse esse tipo investimento talvez também fosse útil. Qual é a sua opinião?
RM - A minha opinião é que a mim cabe apenas perguntar. Ao senhor responder (risos) … a leitura que faz é que a marinha atrasou-se em termos de meios?
AS- (Risos) Acho também que é necessária uma actualização dos homens. Durante estes 30 anos de guerra o mundo evoluiu muito, em termo tecnológicos. E nós quase que parámos. Surgiram os computadores, a cibernética, as comunicações deram um grande avanço. Quem não acompanhou...quem é pai e vê o filho a mexer no telemóvel ou nas aparelhagens fica um pouco estupefacto, porque não acompanhou. Parece que não, mas foram 30 anos quase de paralisação. É preciso que estes quadros já formados vão sempre actualizando os seus conhecimentos. O avanço tecnológico é muito grande, e mais: quando a tecnologia avança é entregue, fundamentalmente e em primeira instância, ao sector militar, depois é que vai ao sector civil. Os segredos da tecnologia vão para a marinha, para aviação e outros sectores das Forças Armadas e só depois é que a parte civil começa a se beneficiar. Portanto, o militar tem que ser o primeiro a ser preparado nesse sector, para fazer face a esse avanço tecnológico. Senão mandam para aqui tecnologia nova e você tem que ir buscar alguém de fora para accionar os meios. Porque não os sabe accionar. Não os consegue manter. Isto é muito grave. E sectores restritos como a marinha convém que não seja muita gente a mexer. Gente estranha. Depois da reciclagem destes quadros, então os meios de navegação, as infra-estruturas. Isto parte muito da definição de cima.
RM- O presidente Agostinho Neto projectou a marinha muito antes da independência. Quais eram as suas preocupações para o desenvolvimento deste Ramos das Forças Armadas?
AS- Era um homem preocupado fundamentalmente com tudo que dissesse à defesa da integridade nacional. E no que toca a defesa, a Marinha também tem o seu papel. Eu recordo que uma das vezes fui ter com ele pessoalmente, depois de ter feito uma viagem ao Soyo. E ainda nem havia petróleo, nessa altura. E havia assim um delta que penetrava... levei-lhe as fotografias. E disse: tem aqui uma base naval! Que acha desse projecto? Ele disse que era uma coisa a ser pensada. No Soyo existe um golfo que se pode construir uma base naval. Ele tinha uma grande preocupação, ele tinha uma visão. Mas também era um homem de uma outra geração, bebeu uma outra cultura, logicamente tinha certa sensibilidade para este sector.
RM- No essencial, o que é que o presidente disse no dia 10 de Julho de 1976?
AS- No essencial ele incentivou a formação dos homens. Os angolanos dizem sempre que podem fazer muita coisa, ou podiam fazer. Mas fazer com quem? Com que homens? Com que qualidade de homens? Quantos médicos, quantos engenheiros, no sector da marinha, quantos técnicos devidamente qualificados existem? Agente vai fazer por dados estatísticos, quem é quem? Se você não sabe quem vai fazer, é necessário recorrer à assessoria estrangeira. Não havia hipótese. Mesmo hoje.
MR- Quando é que saiu da Marinha?
AS- Fiquei pouco tempo. Parecia muito tempo, porque os acontecimentos se desenrolavam com muita velocidade.
RM- O que se diz, é que Sua Excelência não aceitou as patentes que lhe foram entregues!
AS- Eu na altura não as usei. A cerimónia decorreu no Ministério da Defesa, não foi presidida pelo Presidente Neto, mas pelo primeiro-ministro Lopo de Nascimento. Colocaram-me e as pus no bolso. Há uma versão por aí que as joguei ao chão, mas simplesmente não as usei. E sai da Marinha antes do 27 de Maio de 1977.
RM- O que faz actualmente?
SA- Constitui uma pequena empresa de materiais de construção, mas que nunca teve vida, porque nunca tive dinheiro suficiente para accionar os meios. Então fui vivendo. Tenho uma casa arrendada... e tenho filhos a estudar.
|