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Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
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Chuvas: Fuzileiros acodem vítimas em Luanda e Moxico
SUMÁRIO
EDITORIAL
DESTAQUES
ENTREVISTA
ÁLBUM
GENTE & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
DO ESTRANGEIRO
ESCOTILHA
REPORTAGEM
MARÇO MULHER
MEMÓRIA
FÓRUM
FLASH
ÚLTIMA HORA
CULTURA
PERFIL
REFLEXÃO
DOSSIER
DESPORTO
CORRENTE DE BENGUELA
CRÓNICA
ANCORANDO
PERFIL
         
 
Não quero pensar na reforma
Gália Kosi

O tempo corre célere. Para trás ficam as marcas, as lembranças, como pegadas deixadas no caminho. A funcionária Luzia Julho F. Inácio lembra-se que entrou para a Marinha Nacional Angolana, hoje MGA, no dia 1 de Novembro de 1975. Faltavam 10 dias para o dia da independência. O dia tão esperado ao longo de várias gerações de angolanos. O dia da Dipanda. Tinha, na altura, 25 anos. O rosto era fino e o corpo esbelto.
Foi contactada pelo chefe da secção de Pessoal das Oficinas Navais de Luanda senhor Pelinganga e colocada na secção de Contabilidade como escrituraria dactilógrafa de 3ª classe.
Na altura, o director das Oficinas era o senhor Francisco Sachissquele e o director adjunto para área técnica o chefe Duarte. Ambos eram militares.
D. Luzia olha para a Baía de Luanda, onde uma gaivota voa calmamente em direcção ao Porto.
O passado funciona como uma âncora. Serve para nos prender à vida, à história. É como a raiz para uma árvore. Sem raízes a árvore tomba, morre. E Luzia Inácio, “Tia Gia”, como é carinhosamente chamada pelos colegas, mexe no fardo de lembranças e agarra-se aos momentos que marcaram os 30 anos que trabalha na Marinha.
O que mais lhe marcou foi o plano inclinado das Oficinas Navais de Luanda. Era uma secção de reparação de qualquer tipo de navio. Esta secção era uma fonte de arrecadação de receitas, que serviam para sustentar as actividades das oficinas na era colonial.
"Digo isso porque nós dependíamos da Direcção dos Transportes Marítimos, isso até 1976”. Inspira e expira. Busca fôlego. O ruído das serras e serrotes, do maçarico, do martelo, do torno e das vozes dos operários se transformam em sinfonia. Um rastilho que acende o cordão de lembranças. E as Oficinas faziam de tudo. Reparavam navios, automóveis, faziam peças, camas, parafusos. Tudo. Tudo que a imaginação projectasse.
Por isso as Oficinas Navais têm um significado muito grande para ela. Pois foi a partir daí que ganhou a experiência que transformaram-na na mulher que é hoje.
O tempo passa, deixa marcas no corpo e na alma. Mas, aos 55 anos, “ Tia Gia” caminha firme e guarda com esmero a beleza dos 25 anos.
Na hora da retrospectiva, mal disfarsa a maré de lágrimas que rondam persistente os seus olhos. Desvia o olhar e busca força algures, para continuar o diálogo e canaliza o esforço para um apelo: "Gostaria que se lembrassem das oficinas, que não a dei-xassem morrer, porque naquele tempo instruiu muitos profissionais e acredito que se for reabilitada, no futuro irá beneficiar muitos jovens".
Quero continuar a trabalhar e com o seu esforço modesto contribuir para o desenvolvimento da Marinha.
Não quero pensar na reforma.
- Por quê?
- Não quero sofrer antecipadamente.

Perfil

Nome: Luzia Júlio F. Inácio
Idade: 55 anos
Estado civil: Solteira
Filhos: 4
Prato preferido: batata frita com bife
Tipo de música preferida: não tem música preferida. Tem gosto eclético, variado.

 

 
 
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