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Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
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Chuvas: Fuzileiros acodem vítimas em Luanda e Moxico
SUMÁRIO
EDITORIAL
DESTAQUES
ENTREVISTA
ÁLBUM
GENTE & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
DO ESTRANGEIRO
ESCOTILHA
REPORTAGEM
MARÇO MULHER
MEMÓRIA
FÓRUM
FLASH
ÚLTIMA HORA
CULTURA
PERFIL
REFLEXÃO
DOSSIER
DESPORTO
CORRENTE DE BENGUELA
CRÓNICA
ANCORANDO
REPORTAGEM
         
 
"Soyo, um regresso sempre emocionante"
CFR Augusto Lourenço

Chego às 5 horas e 30 minutos à Base Aérea número 1. Tudo estava calmo. Estaciono no parque, reencosto-me no assento e fecho os olhos procurando arrumar as ideias. Estava a gozar férias, quando num telefonema o Chefe da DEP, Vice-Almirante Lando Filipe, transmitiu a ordem. "Camarada Capitão-de-Fragata amanhã deve estar no Terminal Militar às 6 horas para viajar para Zona Marítima nº 1", Soyo.
Minutos depois chega o Vice-Almirante Américo e outros seguem-lhe o trilho. Entre oficiais Almirantes apenas alguns Oficiais superiores, dois sargentos e um cabo.
O Chefe do Estado-Maior da MGA Feliciano António dos Santos "Paxi" chega às 7 horas e 20 minutos. Reconhece-me e brinca: "Também vais?... Ainda bem… nunca mais foste ao Soyo!".
Desde 1986, que não viajo para o município do Soyo. A primeira e a única viagem aconteceu em 1985, era Alferes. Naquela altura, o trabalho político e partidário havia conhecido o seu auge. Aliás, decorreria o II Congresso do MPLA-PT e as orientações desciam para as estruturas inferiores. O hoje Comandante da Zona Marítima nº 2 Vice-Almirante Jojó era o Comandante da Base Naval do Soyo, o Chefe do Estado-Maior da Unidade era o Contra-Almirante Tulas. Tempos de reuniões de célula e núcleos, de avaliações dos militares pelas organizações de base do Partido e da Juventude do Partido. Como o tempo passa!...
Às 7H30 acontece o embarque. Primeiro os coronéis. O piloto russo orienta os passageiros. Lembro-me do curso de comissário político leccionado pelos soviéticos até 1991 na Escola Jika. “Dobra utra ” Do bom dia não passei. A Escola Comandante Jika era tida como uma das melhores do continente africano. Ali perto da Rádio Nacional de Angola forjaram-se os homens cuja tarefa era a de educação das tropas. Dada a sua importância na estrutura, eram tidos como os substitutos dos comandantes para o trabalho político. Quem imaginaria o cenário actual em que se vê mergulhado a Escola. Apenas escombros, onde se refugiam gente desabrigada.
O Avião rola na pista. São 7H35. Vêm-se várias aeronaves entre elas, Cidade do Kuito. Lembro-me do Rio de Janeiro e de Lisboa. 7H47. Aproxima-se da cabeceira da pista para a descolagem. É a segunda na fila. A fumaça do A/C inunda a cabine. Nos olhos dos marinheiros a pergunta calada no peito. 7H48… 7H49…
O avião acelera e às 7H50 descola. Lá em baixo, o Bairro Rocha Pinto e a Samba com o seu trânsito engarrafado. Um sorriso de alívio baila no rosto. No mar algumas canoas. A Ilha da Kazanga povoa a mente de marinheiros.
O avião aumenta de altitude deixando aos passageiros pouca coisa para ser vista lá fora. Apenas nuvens. Montanhas de nuvens. O exercício é a introspecção. Lembro-me. - Não tirei a cabeça do reprodutor do carro…Será que vão roubar? Mas o que adianta pensar nisto agora?
Às 8H00, o Chefe do Estado-Maior toma o seu café da manhã. A mente enche-se de pensamentos sobre comidas, pratos e sabores. Às 8H24 dão-me um bolo. Peço água ao invés de refrigerante. Como com sofreguidão. Por que água importada? Com tanta água que o país tem! ÀS 8H34 abrandam os motores. O coração sobressalta. É da família Antonov.... Recordo-me do meu companheiro do quarto 202, na messe de oficiais da Marinha. Capitão-de-Fragata Mateus Cazola desapareceu num desses voos. E foi com um deles que eu viajei também em 1998, para o N'zagi, no reatar da guerra. Foi a viagem mais difícil. Carregado de caixas de armamento mal se mantinha no ar. Para acalmar o stress li um livro inteiro das "Testemunhas de Jeová", a Sentinela. Falava sobre o valor nutritivo que tinha a fruta. Graças a Deus, apesar da chuva, chegamos ao N'zagi. Dia seguinte partimos para o N'Buia, destino da carga. A guerra, com seus horrores e terrores, veio na semana seguinte.
8H43! Vê-se uma sonda no mar e um campo petrolífero em terra. Abre-se o trem. 8H47, o avião toca o solo. 8H50 estamos no Soyo.

SOYO

Abraços calorosos. Gente que há muito já não via: Calopa, Adrix… Adão… Mal chegou o CEMM, Almirante Feliciano António dos Santos "Paxi", reuniu-se com os oficiais da unidade.
Ao tomar a palavra, apresentou o plano de trabalho a desenvolver durante a visita, onde constava a deslocação à Unidade do Sumba e à Cabeça da Cobra. A perspectiva é avaliar o funcionamento da Zona Marítima e realizar um encontro com os oficiais para auscultar as suas principais preocupações. Após um breve preâmbulo, deu a palavra ao Comandante da Zona Vice-Almirante Jorge Correia da Silva.
O Vice-Almirante Jorge Correia debruçou-se sobre a situação na RDC, onde se destaca a possibilidade de agravamento da situação de instabilidade tendo em conta a aproximação do processo eleitoral naquele país. Mais adiante, o Vice-Almirante fez uma abordagem exaustiva sobre as actividades desenvolvidas no seu território de responsabilidade, que inclui o sector Naval de Cabinda, bem como a distribuição das forças e meios.

PARTIDA PARA O SUMBA

A 9H45 a coluna composta por quatro Jeeps parte em direcção à Unidade do Sumba. A cidade estava calma tal como o rio Zaire que desce majestoso ao encontro do mar. Crianças brincavam alegres na berma da estrada, enquanto alguns adultos vendem no mercado. Da estrada asfaltada vêem-se casas intercaladas por capim. Raras são as obras. Entra-se para a estrada de terra batida. Um dos passageiros fala de cavalos e aponta para um sistema de bombeamento de petróleo. No seu sobe-e-desce parece-se mesmo com um cavalo a cavalgar.
A estrada torna-se de difícil acesso, apenas carros a todo-terreno podem superar os buracos e obstáculos criados pelas chuvas. Aldeias isoladas distribuem-se ao longo do trajecto.
Finalmente, chega-se ao Sumba, situada numa elevação sob uma verde vegetação. A estrutura principal está em ruínas. À sua volta foram construídas instalações de pau e capim. Tudo está organizado e arrumado. A caserna dos oficiais, dos sargentos dos cabos e dos marinheiros. O posto de Comando, o Posto médico, as latrinas e os balneários.
Não há doentes na Unidade e os medicamentos essenciais estão garantidos. Na parede do Posto Médico está pregado o cartaz sobre a luta contra o HIV-Sida.
- Estamos vigilantes, a melhor arma é a prevenção! - Diz o chefe do posto médico, Salvador Adão Cadete.
O Tenente Panzo relatou aos visitantes a vida e o funcionamento da Unidade. O desafio é patrulhar os mais de 100 canais que compõem o rio Zaire. A extensão é enorme e os meios disponibilizados mostram-se exíguos. Apesar de tudo, os jovens fuzileiros navais mostram-se determinados a impedir todo tipo de infiltração de estrangeiros ilegais.
Consciente do perigo que representa a infiltração de gente estranha através das nossas fronteiras, o Chefe do Estado-Maior da MGA garante o envio de novos meios para o patrulhamento do "Grande Rio".
O Comandante do Batalhão de Fuzileiros, Baltazar da Conceição Neto, formado na Escola de Vale de Zebro, em 1993, em, Portugal, sublinha que as principais missões da sua Unidade é o patrulhamento e a fiscalização do Rio Zaire da foz até à localidade do Nóqui, num percurso de 120 quilómetro, e também fazem a Guarda de Honra.
Durante a fiscalização identificam as pessoas, exigindo documentos, porque segundo ele, muita gente usa documentos falsos ou fazem-se passar por comerciantes. Muitos são auxiliados pelo uso de telefonia móvel da Vodacom. "Eles estão bem organizados”, denuncia, o fuzileiro que participou no desembarque que conduziu à libertação do Soyo, em 1994. - Comércio? - Sim. Os congoleses trazem cerveja e trigo e daqui, geralmente compram combustíveis e peixe.

HARMONIA

Enquanto preparavam o almoço para tão eminentes personalidades, os anfitriões organizaram uma partida de futebol. Em cena entraram o Académica do Sumba e a equipa da Marinha. A plateia animada puxa pelas suas equipas. Para distinguir os membros das diferentes equipas, os atletas do Académica jogaram de tronco nú.
O primeiro a marcar foi o Académica, num golo muito festejado pela sua torcida. Na segunda parte, quase na ponta do duelo, os marinheiros remaram com mais velocidade e acabaram batendo o guarda-redes do Académica. Resultado com que viria terminar a partida. Empate que acabou coroando a amizade e a fraternidade existentes entre os fuzileiros e as populações do Sumba. E o Administrador local Francisco Manuel Sumbo confirma isso mesmo.

 

 
 
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