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Chego às 5 horas e 30 minutos à Base Aérea número 1. Tudo estava calmo. Estaciono no parque, reencosto-me no assento e fecho os olhos procurando arrumar as ideias. Estava a gozar férias, quando num telefonema o Chefe da DEP, Vice-Almirante Lando Filipe, transmitiu a ordem. "Camarada Capitão-de-Fragata amanhã deve estar no Terminal Militar às 6 horas para viajar para Zona Marítima nº 1", Soyo.
Minutos depois chega o Vice-Almirante Américo e outros seguem-lhe o trilho. Entre oficiais Almirantes apenas alguns Oficiais superiores, dois sargentos e um cabo.
O Chefe do Estado-Maior da MGA Feliciano António dos Santos "Paxi" chega às 7 horas e 20 minutos. Reconhece-me e brinca: "Também vais?... Ainda bem… nunca mais foste ao Soyo!".
Desde 1986, que não viajo para o município do Soyo. A primeira e a única viagem aconteceu em 1985, era Alferes. Naquela altura, o trabalho político e partidário havia conhecido o seu auge. Aliás, decorreria o II Congresso do MPLA-PT e as orientações desciam para as estruturas inferiores. O hoje Comandante da Zona Marítima nº 2 Vice-Almirante Jojó era o Comandante da Base Naval do Soyo, o Chefe do Estado-Maior da Unidade era o Contra-Almirante Tulas. Tempos de reuniões de célula e núcleos, de avaliações dos militares pelas organizações de base do Partido e da Juventude do Partido. Como o tempo passa!...
Às 7H30 acontece o embarque. Primeiro os coronéis. O piloto russo orienta os passageiros. Lembro-me do curso de comissário político leccionado pelos soviéticos até 1991 na Escola Jika. “Dobra utra ” Do bom dia não passei. A Escola Comandante Jika era tida como uma das melhores do continente africano. Ali perto da Rádio Nacional de Angola forjaram-se os homens cuja tarefa era a de educação das tropas. Dada a sua importância na estrutura, eram tidos como os substitutos dos comandantes para o trabalho político. Quem imaginaria o cenário actual em que se vê mergulhado a Escola. Apenas escombros, onde se refugiam gente desabrigada.
O Avião rola na pista. São 7H35. Vêm-se várias aeronaves entre elas, Cidade do Kuito. Lembro-me do Rio de Janeiro e de Lisboa. 7H47. Aproxima-se da cabeceira da pista para a descolagem. É a segunda na fila. A fumaça do A/C inunda a cabine. Nos olhos dos marinheiros a pergunta calada no peito. 7H48… 7H49…
O avião acelera e às 7H50 descola. Lá em baixo, o Bairro Rocha Pinto e a Samba com o seu trânsito engarrafado. Um sorriso de alívio baila no rosto. No mar algumas canoas. A Ilha da Kazanga povoa a mente de marinheiros.
O avião aumenta de altitude deixando aos passageiros pouca coisa para ser vista lá fora. Apenas nuvens. Montanhas de nuvens. O exercício é a introspecção. Lembro-me. - Não tirei a cabeça do reprodutor do carro…Será que vão roubar? Mas o que adianta pensar nisto agora?
Às 8H00, o Chefe do Estado-Maior toma o seu café da manhã. A mente enche-se de pensamentos sobre comidas, pratos e sabores. Às 8H24 dão-me um bolo. Peço água ao invés de refrigerante. Como com sofreguidão. Por que água importada? Com tanta água que o país tem! ÀS 8H34 abrandam os motores. O coração sobressalta. É da família Antonov.... Recordo-me do meu companheiro do quarto 202, na messe de oficiais da Marinha. Capitão-de-Fragata Mateus Cazola desapareceu num desses voos. E foi com um deles que eu viajei também em 1998, para o N'zagi, no reatar da guerra. Foi a viagem mais difícil. Carregado de caixas de armamento mal se mantinha no ar. Para acalmar o stress li um livro inteiro das "Testemunhas de Jeová", a Sentinela. Falava sobre o valor nutritivo que tinha a fruta. Graças a Deus, apesar da chuva, chegamos ao N'zagi. Dia seguinte partimos para o N'Buia, destino da carga. A guerra, com seus horrores e terrores, veio na semana seguinte.
8H43! Vê-se uma sonda no mar e um campo petrolífero em terra. Abre-se o trem. 8H47, o avião toca o solo. 8H50 estamos no Soyo.
SOYO
Abraços calorosos. Gente que há muito já não via: Calopa, Adrix… Adão… Mal chegou o CEMM, Almirante Feliciano António dos Santos "Paxi", reuniu-se com os oficiais da unidade.
Ao tomar a palavra, apresentou o plano de trabalho a desenvolver durante a visita, onde constava a deslocação à Unidade do Sumba e à Cabeça da Cobra. A perspectiva é avaliar o funcionamento da Zona Marítima e realizar um encontro com os oficiais para auscultar as suas principais preocupações. Após um breve preâmbulo, deu a palavra ao Comandante da Zona Vice-Almirante Jorge Correia da Silva.
O Vice-Almirante Jorge Correia debruçou-se sobre a situação na RDC, onde se destaca a possibilidade de agravamento da situação de instabilidade tendo em conta a aproximação do processo eleitoral naquele país. Mais adiante, o Vice-Almirante fez uma abordagem exaustiva sobre as actividades desenvolvidas no seu território de responsabilidade, que inclui o sector Naval de Cabinda, bem como a distribuição das forças e meios.
PARTIDA PARA O SUMBA
A 9H45 a coluna composta por quatro Jeeps parte em direcção à Unidade do Sumba. A cidade estava calma tal como o rio Zaire que desce majestoso ao encontro do mar. Crianças brincavam alegres na berma da estrada, enquanto alguns adultos vendem no mercado. Da estrada asfaltada vêem-se casas intercaladas por capim. Raras são as obras. Entra-se para a estrada de terra batida. Um dos passageiros fala de cavalos e aponta para um sistema de bombeamento de petróleo. No seu sobe-e-desce parece-se mesmo com um cavalo a cavalgar.
A estrada torna-se de difícil acesso, apenas carros a todo-terreno podem superar os buracos e obstáculos criados pelas chuvas. Aldeias isoladas distribuem-se ao longo do trajecto.
Finalmente, chega-se ao Sumba, situada numa elevação sob uma verde vegetação. A estrutura principal está em ruínas. À sua volta foram construídas instalações de pau e capim. Tudo está organizado e arrumado. A caserna dos oficiais, dos sargentos dos cabos e dos marinheiros. O posto de Comando, o Posto médico, as latrinas e os balneários.
Não há doentes na Unidade e os medicamentos essenciais estão garantidos. Na parede do Posto Médico está pregado o cartaz sobre a luta contra o HIV-Sida.
- Estamos vigilantes, a melhor arma é a prevenção! - Diz o chefe do posto médico, Salvador Adão Cadete.
O Tenente Panzo relatou aos visitantes a vida e o funcionamento da Unidade. O desafio é patrulhar os mais de 100 canais que compõem o rio Zaire. A extensão é enorme e os meios disponibilizados mostram-se exíguos. Apesar de tudo, os jovens fuzileiros navais mostram-se determinados a impedir todo tipo de infiltração de estrangeiros ilegais.
Consciente do perigo que representa a infiltração de gente estranha através das nossas fronteiras, o Chefe do Estado-Maior da MGA garante o envio de novos meios para o patrulhamento do "Grande Rio".
O Comandante do Batalhão de Fuzileiros, Baltazar da Conceição Neto, formado na Escola de Vale de Zebro, em 1993, em, Portugal, sublinha que as principais missões da sua Unidade é o patrulhamento e a fiscalização do Rio Zaire da foz até à localidade do Nóqui, num percurso de 120 quilómetro, e também fazem a Guarda de Honra.
Durante a fiscalização identificam as pessoas, exigindo documentos, porque segundo ele, muita gente usa documentos falsos ou fazem-se passar por comerciantes. Muitos são auxiliados pelo uso de telefonia móvel da Vodacom. "Eles estão bem organizados”, denuncia, o fuzileiro que participou no desembarque que conduziu à libertação do Soyo, em 1994. - Comércio? - Sim. Os congoleses trazem cerveja e trigo e daqui, geralmente compram combustíveis e peixe.
HARMONIA
Enquanto preparavam o almoço para tão eminentes personalidades, os anfitriões organizaram uma partida de futebol. Em cena entraram o Académica do Sumba e a equipa da Marinha. A plateia animada puxa pelas suas equipas. Para distinguir os membros das diferentes equipas, os atletas do Académica jogaram de tronco nú.
O primeiro a marcar foi o Académica, num golo muito festejado pela sua torcida. Na segunda parte, quase na ponta do duelo, os marinheiros remaram com mais velocidade e acabaram batendo o guarda-redes do Académica. Resultado com que viria terminar a partida. Empate que acabou coroando a amizade e a fraternidade existentes entre os fuzileiros e as populações do Sumba. E o Administrador local Francisco Manuel Sumbo confirma isso mesmo.
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