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Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
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Chuvas: Fuzileiros acodem vítimas em Luanda e Moxico
SUMÁRIO
EDITORIAL
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GENTE & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
DO ESTRANGEIRO
ESCOTILHA
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FLASH
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DOSSIER
DESPORTO
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CRÓNICA
ANCORANDO
ENTREVISTA
         
 
Uma marinha tem muito significado para um país
CFR Augusto Lourenço

" Mesmo naquele tempo, com aqueles pacatos navios, que os portugueses deixaram, navegava-se. Nós saíamos de Cabinda e não encostávamos em Luanda, íamos para o Namibe e vice-versa, trabalhava-se. Uma Marinha tem muito significado. Marinha são os barcos, em movimento, são os navios, a funcionar, a patrulharem a nossa costa marítima por causa da pirataria e da presença dos grandes armadores que vêem tirar o nosso pescado. É preciso que a Marinha funcione convenientemente."
Essas palavras são do senhor Henriques Teixeira de Carvalho que entrou na Marinha Portuguesa em 1969 no então Comando Naval de Angola. Especializado na manutenção e gestão de stock de peças sobressalentes para todas as Unidades de Superfície da Marinha, ele continua até hoje, entre os que dedicam o seu dia-a-dia para a construção da Marinha.

RM: - Por que entrou na Marinha naquela altura?
HTC: - Eu tinha acabado de cumprir o trabalho militar no exército colonial e li no jornal que havia um concurso aberto para ajudantes de fiéis de armazém na Marinha. Então eu fiz o concurso público. Naquela altura para se entrar para o Estado era preciso fazer um curso público. Fui aprovado e depois entrei. Fui destacado para trabalhar nos armazéns da Base Naval e lá fiquei até que se deu o 25 de Abril.

RM: - Onde é que fez a tropa colonial?
HTC: - Bom, fiz a tropa colonial até Praça nos RISPE, Regimento de Infantaria nº21, no Lubango e depois vim para Luanda, propriamente no Grafanil. Estive no campo do Grafanil durante algum tempo e depois fui para uma zona operacional que era a zona do Bembé (Uíje) em 1967, durante dez meses e do Bembé fui para a província de Malanje em 1968. No mesmo ano passei à disponibilidade. Então foi aí que depois ingresso logo na Marinha. A Marinha foi o meu primeiro emprego.
RM: Que trabalho desenvolvia?
HTC: Era a manutenção da técnica Naval. Aliás, a minha especialidade era a de manutenção e gestão e de stock de peças sobressalentes para todas as unidades de superfície da Marinha.

RM: Naquela altura existiam muitas Unidades Navais?
HTC: - Sim. Tínhamos duas desembarques, a "Ariet" e a "Alfange" e algumas Fragatas que os nomes já não me veém na mente, mas que depois os portugueses acabaram por deixar cá e ficaram com a Marinha de Guerra.

RM: Como recebeu o 25 de Abril?
HTC: - Olha. Eu caso-me a 20 de Abril de 1974, cinco dias depois ocorre a revolução dos Cravos, em Portugal. Eu estava de férias neste mesmo dia. Nós já tínhamos ouvido qualquer coisa na Rádio e nos jornais, sobretudo no Diário de Angola. Enfim, havia muitas injustiças.

RM: - Depois do 25 de Abril o trabalho continuou normalmente?
HTC: - Sim. Continuei sempre a trabalhar na Marinha.

RM: - Em 1975, começa a situação dos movimentos. Como é que viviam isso na Marinha?
HTC: Eles pensavam que muitos de nós teríamos que ir com eles e como foram alguns. O Estado-Maior da Marinha ficou vazio, todos foram-se embora para Portugal. Ficamos alguns angolanos como o Paiva, Napoleão, que é actualmente o Soba Grande da Ilha. Este também foi um funcionário muito mais antigo que eu. Também era fiel de armazém do quadro de contratados.

RM: A partir de que momento é que as novas autoridades entraram na Base Naval de Luanda?
HTC: Foi aquando da transição, isso em 1975. Já existiam as Forças Mistas e os três Movimentos de Libertação, na altura MPLA, FNLA e UNITA, cada um deles tinha um representante na Marinha. Já não me lembro como se chamavam os outros, senão do camarada Sukissa, que era o representante do MPLA. Até que deu-se o 11 de Novembro.

RM: - Como viveram o dia 11 de Novembro?
HTC: Com muita euforia, é claro. Era o dia da Independência. Uns fugiram, porque diziam que nós íamos ser mortos e nos incitavam a não ficar. Mas nós nos perguntávamos, mas ir a Portugal fazer o que? Os meus pais estão cá, eu sou casado, tenho a minha mulher, os meus filhos. Na altura tinha recebido o meu primeiro filho por sinal, eu prefiri ficar aqui. E fiquei até hoje.

RM: - Quem assumiu a direcção da Marinha depois da partida dos portugueses?
HTC: -O camarada Avelino Soares da Silva foi quem assumiu o comando da marinha naquela altura. Eu o considero um indivíduo calmo, aliás o conheci ainda quando nós estudávamos. Estudei com ele, fomos colegas na escola nº 7 "Sousa Coutinho", que era aqui em baixo junto do Governo Provincial de Luanda. Aí estudamos creio a 3ª ou a 4ª classe e depois fomos colegas, também aqui no colégio Casa das Beiras, onde estávamos a fazer o ensino secundário, 1º e 2º anos. Ele depois abandonou a marinha e prontos até hoje, mas quando nos encontramos nos saudamos perfeitamente bem como bons camaradas.

RM:- Com quem estava o Comandante Avelino Soares?
HTC: - Estava com o Comandante Força Maior, Nerú, Bornito de Sousa, Miau e Carlos Muller de Carvalho, este estava na secção do Departamento de Electro-mecânica. Depois de 11 de Novembro a Base Naval ficou vazia. Quando eu digo a Marinha, digo a Força Aérea, o ex-ASMA, agora não sei como se chama agora, mas já foi BCR(Base Central de Reparações. No ASMA, eram reparados todos os carros que vinham avariados. Tudo ficou abandonado. Então o Ex-Primeiro Ministro o Lopo de Nascimento, fez um apelo: "Todos os indivíduos que tinham trabalhado para as Forças Armadas Portuguesas e que se encontravam em Angola não podiam trabalhar em outras empresas, tinham que regressar para as áreas onde tinham saído". É assim que todo mundo retomou o trabalho em Dezembro de 1975.

RM:- Depois da saída de Avelino Soares quem assumiu o comando da Marinha ?
HTC: -Foi o já falecido camarada Força- Maior.

RM: -Quando é que ele sai da Marinha?
HTC: O Comandante Força Maior sai da Marinha depois do 27 de Maio. Desconfio que foi em 78. Depois é que entrou o Comandante Orlog. Assim que o camarada Orlog morre, entrou o camarada Toca. Depois o camarada Rufino. E finalmente o actual Chefe do Estado-Maior da MGA, Almirante Feliciano António dos Santos.

RM:- Quais foram os momentos que mais lhe marcaram?
HTC: Isso é como tudo na vida, houve bons e maus momentos. Um dos grandes momentos foi o 11 de Novembro de 1975. O ambiente de trabalho que nós sempre tivemos com todos os elementos. Aliás eu sou filho da Marinha e não posso falar mal da marinha. Foi na Marinha, onde eu cresci e fiz-me homem. Pois, quando para cá vim não tinha filhos e hoje já sou avó.
RM:- Trinta anos, o que representa a Marinha para si ?
HTC:- A Marinha é a minha vida. Devo muito a Marinha, é uma realidade, porque ao longo desses anos beneficiei também de alguma coisa da Marinha, cursos pagos pela Marinha.

RM:- Qual é a mensagem que deixa para os novos Marinheiros?
HTC:- Que trabalhem, porque a Marinha está a crescer, novos ventos estão a soprar e nós neste momento iremos adquirir novos meios de superfície. Então, é preciso que nos empenhemos, mas também é preciso fazer com que o grau de escolaridade aumente, porque são novas tecnologias. Hoje tudo mudou, é preciso que o homem também mude. Todos os que vierem para a Marinha devem fazê-la evoluir e que se façam alguma coisa. Porque mesmo naquele tempo, com aqueles pacatos navios que os portugueses deixaram, navegava-se. Nós saíamos de Cabinda e não encostávamos em Luanda, íamos para o Namibe e vice-versa, trabalhava-se. Uma Marinha tem muito significado. Marinha são os barcos em movimento, são os navios a funcionar, a patrulharem a nossa costa marítima por causa da pirataria, da presença dos grandes armadores que vêem tirar o nosso pescado. É preciso que a Marinha funcione convenientemente.

 

 
 
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