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Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
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Chuvas: Fuzileiros acodem vítimas em Luanda e Moxico
SUMÁRIO
EDITORIAL
DESTAQUES
ENTREVISTA
ÁLBUM
GENTE & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
DO ESTRANGEIRO
ESCOTILHA
REPORTAGEM
MARÇO MULHER
MEMÓRIA
FÓRUM
FLASH
ÚLTIMA HORA
CULTURA
PERFIL
REFLEXÃO
DOSSIER
DESPORTO
CORRENTE DE BENGUELA
CRÓNICA
ANCORANDO
MEMÓRIA
         
 
NÁUSEA
Agostinho Neto
Da sua cubata de Samba Kimôngua, velho João saiu com a família, de manhãzinha muito cedo, e desceu a calçada, atravessou a cidade, toda cidade mesmo, até aos confins da baixa, passou pele ponte e pisou a ilha. Mas não já a mesma ilha dos tempos antigos. Pisou uma ilha sem areia, asfaltada, com casas bonitas onde não moram pescadores.
Velho João ia visitar o irmão que estava doente, mas também queria escapar por algum tempo ao calor da cubata de latas de Petróleo. A ilha é fresca quando se repousa a sombra dos coqueiros contemplando os pescadores a recolher o peixe.
Depois do almoço, um bom almoço em boa paz familiar, onde de tudo esqueceu, a alegria de viver e a boa pinga, o velho saiu com o sobrinho, a arrastar os pés pela areia quente da praia, deixando-se mesmo molhar, com uma alegria infantil, por uma ou outra onda mais comprida. Tinha-se passado anos. Preferia carregar sacos às costas por conta de brancos da baixa a morar na cubata de latas de petróleo de Samba Kimôngua. Mas se fosse agora! Ficaria embora na ilha; a pescar e a sentir o mar.
De repente olha para longe e disse ao sobrinho.
- Olha o mar. Mu'alunga!
O sobrinho olha para ele esperando mais alguma coisa, sem compreender o significado que o tio queria dar àquela palavra. Porém, ante o silêncio do tio, desviou a atenção.
Velho João já olhava de novo a areia e monologava intimamente: Mu'alunga. O mar. A morte. Esta água! Esta água salgada é perdição. O mar vai muito longe, por aí fora. Até tocar o céu. Vai até à América. Por cima, azul, por baixo, muito fundo, negro. Com peixes, monstros que engolem homens, tubarões. O primo Xico tinha morrido sobre o mar quando a canoa se virou ali no mar grande. Morreu a engolir água. Kalunga. Depois vieram os navios, saíram navios. E o mar é sempre kalunga. A morte. O mar tinha levado o avô para outros continentes. Traba-lho escravo é Kalunga. O inimigo é o mar.
O velho João lembrou-se de que umas vezes o mar estava muito furioso mas nunca ninguém se levantou contra ele.
Kalunga matava e o povo ia chorar vítimas nos batuques.
Kalunga acorrentou gentes nos porões e o povo apenas teve medo.
Kalunga chicoteou as costas e o povo só curou as feridas.
Kalunga é a fatalidade. Mas porque foi que o povo não fugiu do mar?
Kalunga é mesmo a morte. Trouxe o automóvel e o jornal, a estrada e o fecho éclair, mas para ficar embora ali ao pé da praia a fazer negaças. Ninguém sabe o que está no fundo do mar.
Kalunga brilha a superfície, mas no fundo, o que há? Ninguém sabe. As casas de latas de petróleo, lá do Samba Kimôngua, deixam passar água quando chove. A civilização ficou embora ao pé da praia, a viver com Kalunga. E Kalunga não conhece os homens. Não sabe que o povo sofre. Só sabe fazer sofrer.
Os pés do velho João arrastavam-se cada vez mais vagarosos sobre areia. Esquecera-se agora da sua alegria da hora do almoço para pensar naquelas coisa tristes. Tão tristes como o dia em que a primeira mulher morreu após o parto, a cheirar mal.
Abaixou-se para apanhar uma concha colorida.
Olhou para Kalunga e sentiu-se mal. Uma coisa subia-lhe da barriga ao peito. O cheiro do mar fazia lhe mal, agora.
Enjoava. Desviou os olho de Kalunga. Estes encontraram a linda rua asfaltada, verde e negra e lá adiante a cidade, à beira do mar, Kalunga!
Sentiu náuseas. Não podia mais. Vomitou todo o almoço.
O sobrinho amparou-o e enquanto voltavam para casa, em silêncio, pensando na mania que têm os velhos, de beber de mais.

 

 
 
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