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MEMÓRIA |
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Agostinho Neto
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Da sua cubata de Samba Kimôngua, velho João saiu com a família, de manhãzinha muito cedo, e desceu a calçada, atravessou a cidade, toda cidade mesmo, até aos confins da baixa, passou pele ponte e pisou a ilha. Mas não já a mesma ilha dos tempos antigos. Pisou uma ilha sem areia, asfaltada, com casas bonitas onde não moram pescadores.
Velho João ia visitar o irmão que estava doente, mas também queria escapar por algum tempo ao calor da cubata de latas de Petróleo. A ilha é fresca quando se repousa a sombra dos coqueiros contemplando os pescadores a recolher o peixe.
Depois do almoço, um bom almoço em boa paz familiar, onde de tudo esqueceu, a alegria de viver e a boa pinga, o velho saiu com o sobrinho, a arrastar os pés pela areia quente da praia, deixando-se mesmo molhar, com uma alegria infantil, por uma ou outra onda mais comprida. Tinha-se passado anos. Preferia carregar sacos às costas por conta de brancos da baixa a morar na cubata de latas de petróleo de Samba Kimôngua. Mas se fosse agora! Ficaria embora na ilha; a pescar e a sentir o mar.
De repente olha para longe e disse ao sobrinho.
- Olha o mar. Mu'alunga!
O sobrinho olha para ele esperando mais alguma coisa, sem compreender o significado que o tio queria dar àquela palavra. Porém, ante o silêncio do tio, desviou a atenção.
Velho João já olhava de novo a areia e monologava intimamente: Mu'alunga. O mar. A morte. Esta água! Esta água salgada é perdição. O mar vai muito longe, por aí fora. Até tocar o céu. Vai até à América. Por cima, azul, por baixo, muito fundo, negro. Com peixes, monstros que engolem homens, tubarões. O primo Xico tinha morrido sobre o mar quando a canoa se virou ali no mar grande. Morreu a engolir água. Kalunga. Depois vieram os navios, saíram navios. E o mar é sempre kalunga. A morte. O mar tinha levado o avô para outros continentes. Traba-lho escravo é Kalunga. O inimigo é o mar.
O velho João lembrou-se de que umas vezes o mar estava muito furioso mas nunca ninguém se levantou contra ele.
Kalunga matava e o povo ia chorar vítimas nos batuques.
Kalunga acorrentou gentes nos porões e o povo apenas teve medo.
Kalunga chicoteou as costas e o povo só curou as feridas.
Kalunga é a fatalidade. Mas porque foi que o povo não fugiu do mar?
Kalunga é mesmo a morte. Trouxe o automóvel e o jornal, a estrada e o fecho éclair, mas para ficar embora ali ao pé da praia a fazer negaças. Ninguém sabe o que está no fundo do mar.
Kalunga brilha a superfície, mas no fundo, o que há? Ninguém sabe. As casas de latas de petróleo, lá do Samba Kimôngua, deixam passar água quando chove. A civilização ficou embora ao pé da praia, a viver com Kalunga. E Kalunga não conhece os homens. Não sabe que o povo sofre. Só sabe fazer sofrer.
Os pés do velho João arrastavam-se cada vez mais vagarosos sobre areia. Esquecera-se agora da sua alegria da hora do almoço para pensar naquelas coisa tristes. Tão tristes como o dia em que a primeira mulher morreu após o parto, a cheirar mal.
Abaixou-se para apanhar uma concha colorida.
Olhou para Kalunga e sentiu-se mal. Uma coisa subia-lhe da barriga ao peito. O cheiro do mar fazia lhe mal, agora.
Enjoava. Desviou os olho de Kalunga. Estes encontraram a linda rua asfaltada, verde e negra e lá adiante a cidade, à beira do mar, Kalunga!
Sentiu náuseas. Não podia mais. Vomitou todo o almoço.
O sobrinho amparou-o e enquanto voltavam para casa, em silêncio, pensando na mania que têm os velhos, de beber de mais. |
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