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Sentado nas pedras que protegem o mar das calemas, o pensamento vagueia algures, sulcando mares e oceanos. A linha presa às suas mãos segura o pensamento, que funciona como âncora. Seus desejos e sonhos joga-os como isca aos deuses e peixes. As ideias oscilam, como as latas, garrafas e outro lixo que flutua na água.
Já não é uma criança, pois a sua idade aproxima-se dos 50. O sol faz olhar o horizonte com cara franzida e pálpebras semi-cerradas. Os olhos cobrem-se da salinidade do mar. A gaivota no seu voo leva o pensamento. Que prodígio! Ele era um homem pobre? Não. Tinha no mar a sua riqueza. Herdou-o de seus antepassados. Nasceu a um passo do Atlântico e apaixonou-se. Foi amor à primeira vista. Nunca passou fome, pois tinha sempre frutos que vinham do mar. Cresceu correndo nas suas praias. Fez os seus brinquedos sob a sombra dos coqueiros e a brisa oceânica acariciava a sua pele negra refrescando o corpo.
O mar era seu espelho. A praia foi aconchego da sua paixão. Namoraram e se amaram. E quando Giovana nasceu da Graça, levou-a para a Ilha de Luanda, ali bem pertinho do Farol-Velho, e num ritual simples, deu-lhe o mar como presente. Lavou o rosto da criança com a água salgada, retirou do bolso um colar de conchas zimbo e recitou algo apenas percebido pelos deuses e sereias.
Passado algum tempo depois do ritual, estava novamente junto do mar, seu altar. Mas naquele dia estava triste, introspectivo. Foi no mar a busca de consolo, mas não encontrou paz. Todas as imundices que se jogam no mar o intristeciam.
- Mar é riqueza. Mar é vida. Mar é amor. Mar é eternidade. É transcendência. Não é contentor de lixo, nem esgoto das cidades. Nzambi ya mi, assim meu Santo vai morrer…- implorou. - Só se deve jogar no mar tudo que o peixe come.
Uma onda mais comprida invadiu a praia naquele instante. Molhou os seus pés, o seu corpo e a sua roupa. Mas não se preocupou. Fechou os olhos com prazer e passou a língua sobre os lábios. Apenas acordou sobressaltado ao ouvir o fragmento de um diálogo que vinha do fundo do mar. Dois seres conversavam:
" …Tudo agora me vem do mar, como tudo um dia nele irá terminar
- Gostas do mar, capitão?
- Sim! Amo-o! O mar é tudo! Cobre sete décimos do globo terrestre. O seu ar é puro e sadio. É o imenso deserto em que o homem nunca está só, porque sente a vida por todos os lados. O mar não é mais que o veículo duma existência sobrenatural e prodigiosa; não é mais que movimento e amor; é o infinito vivo, como disse um dos vossos poetas. E, na realidade, Sr. Professor, a Natureza manifesta-se nele através dos seus três reinos: mineral, vegetal e animal. Este último está aí largamente representado pelos quatro grupos de zoófitos, por três classes dos articulados, por cinco clas-ses dos moluscos, por três classes dos vertebrados, os mamíferos, os répteis e essas inumeráveis legiões de peixes, ordem infinita de animais que conta mais de treze mil espécies, dos quais somente um décimo pertence à água doce. O mar é vasto reservatório da Natureza. Foi pelo mar que o mundo começou, por assim dizer, e quem sabe se não acabará por ele! Nele está a surprema tranquilidade. O mar não pertence aos déspotas. Na sua surperfície podem ainda exercer direitos iníquos, combater, devorar-se, transportar para aí todos os horrores terrestres. Mas a 30 pés abaixo desse nível cessa o seu poder, extingue-se a sua influência, desaparece a sua força! Ah! Senhor, viva, viva no seio dos mares! Somente aí se encontra a independência! Aí não reconheço donos! Aí eu sou livre!" (VERNE, Júlio. 2000 Léguas submarinas. Inald, Luanda, 1986.)
- Quem são estes seres?... Para ele, eram vozes dos seus deuses que respondiam às suas inquietações. Tinham escutado o seu clamor. Partiu rejuvenescido. E ao chegar a casa emocionado, pediu que quando morresse fosse enterrado no mar:
- Quero morrer no mar!...
- Porquê?
- Porque é doce morrer no mar, - disse antes de ir deitar-se.
Era hora da Telenovela "Páginas da Vida". Ao redor, todos olharam-no com dó…
- É velhice!...
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