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Era noite. Noite de calor, um pouco de brisa, próprio do verão. Nas ruas as luzes mostravam o brilhar, com o contagiante frenetismo dos luandenses, engarrafamento de enlouquecer os guiantes praguejando, aroma e baru-lhar da balada que prometia a noite. No largo 1º de Maio, as luzes miúdas misturadas com as águas que corriam no alto desenhava o horizonte e a estátua de Nguxi aprimorava ainda mais o ambiente e os fotógrafos procuravam melhores posições. Ao longe ouvia-se o som do bombardear da música da nossa terra. Respirei fundo, dei um reparo rápido no meu visual e entrámos. Ao sentar comecei a visualizar o cenário, ambiente aco-lhedor, mesas bem decoradas a condizer com as luzes, cores bonitas, mesas repletas de comidas e bebíveis um ambiente próprio de dar nas vistas. A música começou a bater mais convidativa num clima tranqui-lizante, ameno vislumbrando o compasso dos dançantes. Meu pensamento vagueava lembrando tempos idos onde riscava as pistas com o bombear do meu corpo vivendo o ritmo. Ai… que saudades dos belos tempos. Meu pensamento foi interrompido com o rosto que se desenhava no meio dos dançantes: “O Homem da camisa branca”… que espanto!.. no canto dos meus lábios desenhou-se um sorriso, pois eu o conhecia. Minha admiração foi quando busquei a postura, (poster) como se diz na gíria que estou habituada a ver no seu dia a dia, homem de muita elegância, inteligência refinada, professor de homens valentes ou mesmo de nome, homem de estrelas no ombro, homem de fala contagiante, nas suas mãos trilhas de letras que fazem saltear a sede dos leitores, homem galanteador até mesmo sonhador… lá estava salteando no meio dos dançantes mostrando seus dotes de pula, pula porque dançar mesmo, suas pernas não obedeciam pareciam dois paus. Seus gritos ouviam-se nos quatro cantos do salão. Reparei no seu look bem posturado, camisa branca cetim, gravata cinzenta salteada de branco, calça cinzenta e os sapatos a condizer, tudo transbordando. O suor a escorrer-lhe no rosto, sem se importar com o incómodo, esquecendo completamente da sua realidade, se importando somente com o momento. Distribuía abraços por todos que conseguia alcançar, sobrinhas, cunhadas, amigos etc. Sua euforia aumentou quando me descobriu. Deu um abraço forte caloroso até mesmo de alegria, levantou-me no seu abraço, procurou acomodar-me sem se importar com os porquês. No salão, os olhares focaram-me como se me apontassem uma arma telescópica. As chuvas de perguntas não param, como fui parar ali. Mesmo assim não parou, entrou novamente na roda esforçando-se a melhorar a sua performance. O engraçado foi mesmo quando puxou a Cassinda para dançar, aí é que suas pernas não obedeciam mesmo, matei-me de rir. A música terminou e a Cassinda pedindo explicação como seus pezinhos estavam pesados, com tamanha elegância. Ele desculpando-se… dizia: - Entre o Semba e o Samba tiro o Samba… - Parei de olhar para ele, porque fui interrompida pela noiva, perguntando-me se não comia nada. Agradeci o gesto, levantei-me e fui vasculhar nas panelas. Optei por petisco, para não ter transtornos no dia seguinte. Voltei ao meu lugar, mas “O Homem da camisa branca” já não estava lá, saiu de fininho como se diz. Eu continuei a saborear um vinho branco à moda “mundele”. Depois de muitos anos enferrujada, nada melhor que me preparar para o ataque à pista. Cadé o sambista? Talvez ande algures, perdido ainda no seu sonho de dançarino frustrado. Talvez!
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