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Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
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Chuvas: Fuzileiros acodem vítimas em Luanda e Moxico
SUMÁRIO
EDITORIAL
DESTAQUES
ENTREVISTA
ÁLBUM
GENTE & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
DO ESTRANGEIRO
ESCOTILHA
REPORTAGEM
MARÇO MULHER
MEMÓRIA
FÓRUM
FLASH
ÚLTIMA HORA
CULTURA
PERFIL
REFLEXÃO
DOSSIER
DESPORTO
CORRENTE DE BENGUELA
CRÓNICA
ANCORANDO
ENTREVISTA
         
 
"Nós temos possibilidade de desenvolver o ramo"
Sargento Edson Grosso
Foto: S/a Augusto António
PERFIL

RM- Sua Excelência Contra Almirante Saturnino, quando e como entrou para as Forças Armadas?

C.ALM- Eu entrei para as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, FAPLA, em Outubro de 1974, na 2ª Região, Cabinda, no Chimbete. Nós chamávamos zona da Banga. Faz fronteira com o Congo Brazzaville, Zona do Dolisi. E já lá vão muitos anos. Entrei para essa forja, quando tinha 19 anos de idade. Foi precisamente depois do 25 de Abril, quando houve aquela onda em que a maior parte dos jovens da minha geração que estavam no Liceu, entusiasmaram-se pela causa revolucionária. Do liceu e de outras escolas, marchamos para reforçar as fileiras dos guerrilheiros do MPLA.

RM-Quem o influenciou para partir?

C.ALM- Influência, não diria muito, até porque eu já tinha sofrido muito. Venho a militar nas células clandestinas do MPLA, desde os meus 16 anos. Nós ouvíamos o Programa Radiofónico do MPLA "Angola Combatente". Fazíamos parte, de um grupo de acção do Bairro Rangel, em Luanda. Nós não fomos antecipadamente ao encontro dos guerrilheiros, porque havia um aperto muito forte da PID/DGS, polícia política portuguesa. No entanto, assim que houve a brecha do 25 de Abril, todos nós nos engajamos. Se há influência diria, que foi mais do "Angola Combatente". Dos programas e a mentalização, que recebia dos outros indivíduos mais velhos da célula clandestina do Rangel que se chamou na época, Esperança. Nessa célula nós bebíamos toda a teoria política do MPLA, naquela altura.

RM- Como veio para a Marinha?

C.ALM - Ora, depois de estar dois anos em Cabinda, eu tinha as minhas pretensões em continuar os meus estudos, pois tinha o 7º ano do Liceu. O meu objectivo era de que depois de servir as Forças Armadas, em Cabinda, nós pensávamos que seríamos beneficiados, em poder continuar os nossos estudos no estrangeiro, tal não aconteceu! Dois anos depois em 6 de Janeiro de 1976, vim de Cabinda e ingressei logo de seguida na Marinha, em que alguns integrantes já estiveram comigo na 1ª região. Eu já os tinha conhecido, tais como o comandante Avelino Soares e os finados Emery e Força-Maior. Eu os conhecia, por isso foi mais fácil enquadrar-me na Marinha.

RM - Ser doutor, foi sempre um seu sonho?

C.ALM - Naquela altura não tive nenhuma formação militar, nem em Cuba nem na URSS. Entrei para a Marinha em 1976 e em 1978 consegui uma bolsa para a Ex União Soviética, no curso Superior de Medicina Naval, que durou 7 anos.

RM - Fale-nos um pouco sobre essa trajectória, até atingir o título de Médico Naval!

C.ALM - Tive uma trajectória que me possibilitou um curso na URSS durante 7 anos. Os dois primeiros foram de medicina básica e a partir do terceiro ano começámos a entrar para as especialidades militares. Quer dizer, nós destrinçámos e definimos um grupo, que foram para a Força Aérea, e dois que foram para a Marinha, outros para a Força Terrestre. O curso era paralelo, tínhamos disciplinas intrinsecamente médicas e outras de componente militar e política. A vontade de ser médico já vinha nas veias há muito. Quer dizer, eu desde pequenino, sempre pensei que ia ser médico. Aliás, eu venho de uma família de médicos, porque o meu bisavô já foi médico, a minha mãe é uma enfermeira de mais de 40 anos, quer dizer … eu nasci praticamente num hospital… porque enquanto os meus irmãos não suportavam o cheiro do hospital, o cheiro das farmácias e de alguns medicamentos, eu achava aquilo… sei lá, aquilo me atraía. Eu penso que aquilo já estava no sangue. Eu acho que já tinha ideia de ser médico e aos sete anos eu dizia vou ser médico como os outros médicos, doutores da época. Os meus irmãos diziam assim, medicina não. E olha, depois de adulto consegui.

RM- Sabemos que a medicina Naval é muito complexa, concretamente quais são as diferença de um médico Naval de outro de clínica geral?

C.ALM- O que se passa é o seguinte: a diferença é que o médico naval além do curso básico, curso geral de medi-cina, nós fazemos um curso Naval. Navegamos durante três anos, nave-gamos durante três meses, aprendemos práticas navais e quais são as patologias mais frequentes do pessoal navegante ou o efectivo navegante. Aprendemos sobre doenças da pele, a hipertensão devido à vibração e a oscilação devido às correntes do Campo Electro magnético, aprendemos exercícios da prática naval. Depois fizemos treinos de mergulho, em profundidade de 22m,12m,6m e 4m. Para sabermos quais são as condições de trabalho dos mergu-lhadores. Aprendemos quais são as doenças mais frequentes nesse trabalho profissional. Nesses, Baratramas dos ouvidos, dos Pulmões nós chamamos Traumabarométrico, asseia Sanguínea. Enfim, nós aprendemos todas as doenças inerentes à função do pessoal mergulhador bem como navegante. O médico da força aérea, o médico terrestre, e o médico naval. os terrestres velam por indivíduos que andam em Tanques Blindados, Camiões etc, o da força aérea igualmente vê as doenças inerentes à aviação. Mas o Médico Naval, que somos apenas dois em Angola, que passámos por este curso, (Dr. Carlos Saturnino e o Dr. Humberto), nós fizemos o curso durante 7 anos e a partir do terceiro ano, demos medicina Naval, mergulhávamos navegávamos, fazíamos treinos de tiro, sabemos quais são os efeitos, da acústica do barulho dos obuses, do torpedo, dos Porta mísseis, nós navegámos. Sete anos depois, vim chefiar outra vez a enfermaria militar. No passado, durante quatro anos trabalhei aqui como médico naval dos serviços médicos militares do Ramo, coadjuvado por outro médico também de Clínica Naval, neste parti-cular quatro anos depois fui para a Rússia fazer outra especialidade, desta vez uma especialidade de Clínica, para poder servir, as doenças Cardiovasculares, porque são mais frequentes no efectivo da Marinha.
as doenças mais frequentes, cá entre nós, depois dos quarenta anos, são as doenças de infectocontagiosas, não só na marinha, depois vêm logo a seguir as doenças hipertensivas. São doenças do Fórum cardiovascular, hipertensões, Cardiopatia Dilatada, insuficiência Cardíaca, Valdepatia adquiridas e reumatismos. Estas doenças todas são de fórum cardiovascular daí que eu decidi ser Cardiologista. Porque vi que trabalho para mim não me iria faltar. E hoje sou médico, Cardiologista. E de facto até agora em cada indivíduo, que vem à minha Consulta, 90% é hipertenso. E a hipertensão é devido ao Stress, hoje em dia temos problema do envelhecimento do efectivo do Ramo. São as preocupações de vária ordem, que ditam a regra do jogo do nosso dia-a-dia. E com muita frequência nós temos isso, os homens estão na média dos 50 anos e nessas idades as doenças Cardiovasculares são mais frequentes.

RM- Sabemos que é um dos fundadores do Posto Médico da Marinha, qual é apreciação que faz?

C.ALM: Há três décadas atrás a enfermaria ou posto médico era aquela deixada pelos portugueses. Era uma coisa pequena, com meia dúzia de Sanitários e enfermeiros. Só tinha um corpo de Sanitários, era assim que chamávamos. Foi nesta altura que recebi a indicação para vir chefiar o posto médico da Marinha. Fui o primeiro chefe do Posto Médico daqui do Ramo. Era enfermeiro, quando fui chefe na Marinha, por isso não se compara com aquilo que temos hoje. Temos médicos e consultas de especialidades, por exemplo, temos consultas de Cardiologia, que é consultada por mim, temos logo duas Pediatras, que colaboram com a Marinha, uma Ginecologista e temos a Clínica Geral. Como vê, temos quadros e especialidades, que se podem fazer na Marinha. Temos uma ambulância própria, um corpo de 10 Médicos, que rotativamente vão trabalhando. temos uma Estomatologia que funciona, temos um Laboratório, que não tínhamos antes, que dá para fazer algumas análises, uma secção de Raio X, que tira radiografia do tórax e as proximidades, por conseguinte radiografias não menos complicadas também são feitas aqui na Marinha.

RM- Quais são as Patologias mais frequentes e quais são as causas?

C.ALM- Nas patologias frequentes temos a Malária, no tempo de frio ou de cacimbo, nós vimos as doenças respiratórias agudas, as bronquites, Pneumonia. Consoante o clima também aumenta o nível de doenças, em tempo de frio aliás temos mais doenças, de fórum Pulmonar ou arti-culares, como por exemplo Reumatismo, mas é muito frequente na faixa etária dos 40 e 50 anos.

RM- Quantas enfermarias tem a Marinha e quantos médicos?

C.ALM: Enfermarias temos no Soyo, que comporta 20 camas, tem um médico, e uma secção de Laboratório que funciona. Uma no Ambriz também com 20 camas e funciona com alguns oficiais. É chefiada por técnicos médios. Um posto médico no Lobito, até ao momento chega a ter mais camas do que a de Luanda. Quer dizer, organicamente, nós chamamos de Posto Médico, mas na prática, funciona como uma enfermaria, tem tudo novo, um lugar com equipamento moderno. E temos ainda alguns postos médicos mais pequenos, na Força de Fuzileiros, na Vidrul. Um outro no Namibe que também é uma coisa pequena, com quatro camas. Pensa-se ampliar aquilo na medida que a Base do Namibe vai ser ampliada. Outros Postos médicos também serão ampliados com pessoal enfermeiro e mais camas, tais como o da CROC, no Farol das Lagostas, do DCA, na Granja, em Kifangondo. No entanto, o maior foco é Lobito, Soyo e o Ambriz.

RM-Qual é a média de Pacientes para um médico em Angola?

C.ALM: O País todo em si, temos uma proporção de (1) um médico para 13 mil habitantes, quer dizer, há poucos médicos, devido a esses trinta anos de guerra. Devido à situação da guerra não se formaram muitos médicos. aliás, havia poucos vocacionados para a área de medicina. Por esse facto nós tivemos que recorrer à cooperação internacional. Um médico para 13 mil habitantes. mas, na Marinha se nós agregarmos quatro a três membros de uma família, vamos ter em conta que os médicos devem estar preparados para dar assistência a 12 mil pessoas que têm direito à assistência médica na Marinha.
- Mas devemos ter em conta um outro factor que faz parte de uma educação proveniente dos anos de guerra. Sempre que há uma Unidade militar, esta dá assistência aos mi-litares desta localização e mais uma boa parte da Comunidade. Porque a comunidade acredita nos nos- sos Serviços e quando as populações, vão a alguns Centros médicos do Ministério da Saúde, chegam lá ou não têm médico, ou não têm medicamentos, ao passo que nas Forças Armadas angolanas (FAA), eles encontram sempre as duas coisas, um Sanitário ou um enfermeiro e vamos aos sítios mais longínquos, onde os civis não vão. Zonas muito altas tais como o Nóqui, por exemplo Pedra do Feitiço, é a Zona mais longínqua que a Marinha tem. Você, vai e vê, a população daquele arredor é assistida na nossa Unidade. nós dissemos, que temos uma assistência, de 12 a 15 mil pessoas, e isso pode dar a média de um médico, da Marinha, responder pelo menos por 1200 pacientes.

RM- Sabemos que existe um programa da DPS/EMG para a realização de Consultas de Oftalmologia aqui no Ramo, esse programa já é um facto?

C.ALM: Até à presente data, ainda não se começou a fazer consultas de Oftalmologia, assim como de otor-rino. Temos todas as directrizes para instalar fazermos isso, mas as instalações, são pequenas, não temos espaços para estes dois gabinetes, porque nos debatemos com escassez de espaço. Aguardamos a ampliação da Clínica a fim de poder montar esses dois gabinetes.

PERFIL
Nome: Carlos Saturnino de Sousa de Oliveira
Filho de: Armando Saturnino Sousa de Oliveira
E de Maria da Conceição Ferreira do Nascimento
Natural: de Luanda
Profissão: Médico Cardiologistas
Casado com: Gloria Maria Alves Sardinha Saturnino de Oliveira
Pai de três filhos
Música Preferida: Gosto de música angolana, gosto de preferência o Bangão.
Tempos livres: Aos sábados gosto de ouvir notícias internacionais, boa música e desporto, sobretudo, o futebol, se bem que trabalho até as 3H00, mas depois desligo os telemóveis e a Medicina e viro-me mais para mim… ir a uma festa a noite porquê que não!?

 

 

 
 
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