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Ano 4 - Edição 9 - Jan/Fev/Mar 2007 - Distribuição gratuita
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Chuvas: Fuzileiros acodem vítimas em Luanda e Moxico
SUMÁRIO
EDITORIAL
DESTAQUES
ENTREVISTA
ÁLBUM
GENTE & ROSTOS
CIÊNCIA E TÉCNICA
DO ESTRANGEIRO
ESCOTILHA
REPORTAGEM
MARÇO MULHER
MEMÓRIA
FÓRUM
FLASH
ÚLTIMA HORA
CULTURA
PERFIL
REFLEXÃO
DOSSIER
DESPORTO
CORRENTE DE BENGUELA
CRÓNICA
ANCORANDO
FLASH
         
 
Morangos da paz

Um cestinho veio do Huambo. Veio de avião e trazia morangos. Mal chegou, logo o cheiro da fruta inundou a casa. Eram morangos gostosos que minha cunhada havia enviado do Huambo. No cartão preso na pega lia-se. "Queira aceitar a fruta da paz! Assina: Graça"
Todos nos deliciámos. Minhas filhas pela primeira vez comeram morangos. Não eram morangos da televisão, que pobre come com os olhos. Eram de verdade! Por isso houve disputa. Disputaram cada fruto e finalmente o cestinho feito de folhas de palmeira. A mais nova queria usá-lo para guardar a roupa da sua boneca, a outra, a mais velha, queria-o para ornamentar a prateleira do seu quarto, enquanto o rapaz queria aproveitá-lo para fazer uma armadilha para prender pássaros.
Talvez atraídos pelo sabor gostoso dos morangos, no Natal de 2003 decidiram viajar até ao Planalto Central.
Foram 15 dias no Huambo. Voltaram com muitas novidades. Falaram dos primos, dos tios, das ruas e das gentes. A mais novinha disse que todas as paredes estavam picotadas: Papá, o Huambo é muito bonito, até já estão a preparar pintar os prédios.
Mas já começaram a pintar? Não, apenas picotaram as paredes!
Calei-me. Se ela não sabia que aquelas marcas nos edifícios eram sinais deixados por anos de um conflito sangrento, para quê fazê-la lembrar. Para quê mexer nas chagas? … Dormimos e durante uma semana as conversas gravitaram em torno do verde-esperança do Planalto, até a aura das imagens da parabólica retomarem o seu lugar com a telenovela "Chocolate com Pimenta".
O relato das crianças fizeram-me sair da carapaça e retomar um velho sonho. Então, nas férias decidi viajar por terra. Queria conhecer melhor o país, pois é o conhecimento que propicia o amor profundo.
Parti de Luanda de jeep, como se estivesse a ir à Barra do Kwanza. Nada de preocupações com Makarov, AKM e granadas, apenas o cuidado redobrado com o carro emprestado.
Olhei a paisagem sem medo de ser surpreendido por um disparo. A ve-getação em movimento mexeu o saco de lembranças. Entre a ponte do Longa e a cidade de Porto Amboim está o Calele. Era perigosíssimo. No tempo de guerra passei ali com o coração apertado e acelerador ao fundo. Hoje nem dei conta do lugar. A viagem entre a cidade de Porto Amboim e Gabela houve alturas que durava mais de 10 dias. Agora, apesar de parte dela não ter asfalto apenas são precisas três horas. Entre as Cachoeiras da Binga e Gabela havia ali um ponto crítico: o Pau-Preto. No local, os camponeses trabalham tranquilamente a terra e os camionistas, que circulam a qualquer hora do dia, param para descansar. O capim cobre os restos de veículos atingidos. Enquanto a oxidação corrói o metal, o tempo apaga o rasto de sangue.
Emocionado fui à antiga Fazenda Boa Entrada-CADA, Nova Ereira, Cidade da Gabela, Kibala, Wako Kungo, Huambo, Bié e Benguela… voltei a Luanda feliz e rejuvenescido. Os morangos da paz eram de verdade e jamais serão mofados. Morango é paz é concórdia!

 

 
 
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